14 de ago de 2009

Poliglota

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.....Há coisa de duas décadas (meu deus! Já estou falando em décadas! Deve ser daí que vem decadência...), quando meu inglês era muito, muito pior do que agora – inexistente, na verdade - decidi restringir minhas viagens. O trauma com os Estados Unidos tinha fincado raízes: pedia pra ir ao Museum of Modern Art e o taxista invariavelmente me levava pra uma feira. No hotel em Nova York passei uma semana vivendo de geléia e peixe cru, e isso mesmo tendo treinado durante horas a pronúncia de filé com fritas, bife, arroz e outros que o dicionário trazia; e quando pedi pra falar com o gerente do hotel me trouxeram uma melancia.
.....Depois disso, pensei, só Portugal mesmo. E fugindo do povo do Minho, que não entendo até hoje. Mas o tal do destino inexorável me fez das suas... primeira viagem para Lisboa, na escala em Roma começaram os problemas: defeito na turbina, tivemos que trocar de avião. Que fazia escala na Finlândia... uma das minhas características desagradáveis é não dar o braço a torcer. Mesmo em português, dificilmente peço pra repetir uma frase ou pergunta: fico balançando a cabeça, de vez em quando dou um sorriso imbecil e sigo em frente. Com gente falando estrangeiro, então, a tática funciona perfeitamente: consigo sempre ser tomado por um completo imbecil quando dou meu sorriso imbecil (“Socorro! Estou tendo um ataque cardíaco! Chame uma ambulância”, em russo, e eu sorrio, balanço a cabeça compreensivo e continuo andando). Fingir que está entendo é de uma sabedoria infinita – de onde vem essas idéias, sinceramente não sei.
.....Mas foi exatamente o que fiz na Finlândia: o comandante falou alguma coisa, algumas pessoas se levantaram e eu fui atrás. Lá na frente percebi que eram pouquíssimas as pessoas que tinham saído do avião e perguntei a uma delas, no inglês macarrônico, se era pra ter descido mesmo, e depois de uma resposta incompreensível numa língua desconhecida, dei meu sorriso imbecil e saí correndo atrás do avião. Que já tinha decolado, obviamente. Aeroporto da Finlândia, um dos países mais monoglotas da Europa ao lado de Portugal – pedi informações e a atendente me deu um sorriso imbecil, balançou a cabeça e continuou andando.
.....Comecei a ficar desesperado – cada tentativa de comunicação terminava com alguém sorrindo de maneira imbecil ou fechando a cara pra mim. Pedi um sanduíche e me deram um jornal. Percebi que os banheiros não tinham símbolos, mas “homem” e “mulher” em finlandês, e quase usei uma árvore do saguão antes de um sujeito finalmente entrar no banheiro dos homens e eu correr atrás.
.....Seis horas e muitas tentativas frustradas depois, comecei a ficar nervoso. Uma última tentativa com o cara do guichê e alguns guardas mal encarados apareceram. Fiquei completamente desesperado e histérico, fui para o meio do saguão e comecei a gritar, freneticamente: “Todo mundo nessa porra de lugar é viado! Só tem bicha nessa merda! Esse é um país de filho da puta! Todo mundo nesse lugar é bicha!” Ao que uma cabecinha apareceu na porta do banheiro, levantou o dedo e falou com um distinto sotaque paraibano: Eu não!
.....Ajoelhei aos pés do sujeito, em lágrimas. Peguei o primeiro avião pra Lisboa em meia hora, fácil, fácil. E fui direto pra uma livraria comprar um curso de inglês.


* O caso é quase todo ficcional, imitando aqueles relatos naif da década de 30. Aprendendo a escrever ficção. Ficou péssimo, mas escrever é treinar, né?

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