30 de mai de 2010

Espelhos

Abomináveis são os espelhos e as cópulas, porque multiplicam o número dos homens... sentença de um dos heresiarcas de Uqbar, sublime invenção de Borges. Nessa multiplicação de homens os espelhos multiplicam também realidades - a famosa caixa de biscoitos que tem um personagem segurando uma caixa de biscoito exatamente igual à primeira, portanto com o mesmo personagem segurando uma caixa de biscoito e assim ad infinitum. Essa multiplicação ilusória de realidades prevê também uma armadilha de tempo-espaço: no Dom Quixote, o personagem lê o livro Dom Quixote em determinado momento - o que levaria a crer que em algum momento leria sobre Dom Quixote lendo Dom Quixote lendo Dom Quixote, também ao infinito - como uma fenda no espaço-tempo, uma multiplicação especular de realidades. Claro, a "armadilha temporal" não acontece porque o personagem simplesmente lê outra linha, a caixa de biscoitos é deixada de lado. Mas durante um lapso de tempo a realidade se fragmenta e se multiplica não pela existência real de múltiplos universos mas pela sua possibilidade. É como o paradoxo de Zenon: se Aquiles e uma tartaruga disputassem uma corrida, e fosse dada uma vantagem para a tartaruga, Aquiles nunca a alcançaria: dado que a distância entre Aquiles e a tartaruga pode ser colocada uma em função da outra, cada avanço de Aquiles corresponderia a um avanço da tartaruga, como fração do avanço de Aquiles - com frações cada vez menores, tendendo ao infinito, mas nunca a zero. O paradoxo se baseia na teoria do espaço infinitamente divisível e a intuição falha ao não perceber que uma soma de termos infinitos não vai ser necessariamente também infinita. Mas a teoria de criação das realidades a partir das palavras em Borges não falha: esses nexos espaço-temporais parecem basear-se nas premissas contidas na tese de T. S. Eliot, onde este afirma que a palavra é o início do universo e a realidade é meramente um conceito derivado.
Hummmm... realmente, de vez em quando a mente salta dos trilhos em uma curva psicodélica. Leminski: sol fazia, só não fazia sentido...

PS: Pode parecer bobo, o paradoxo, uma vez que parece lógico que se alguém corre mais que outro alguém, dado um determinado tempo o mais rápido fatalmente ultrapassará o mais lento. Mas levou um tempo para provar o contrário... vejam essa explicação de um seminário sobre Cantor, na Universidade de Lisboa (sobre as teorias do infinito em Cantor):

"A demonstração de Cantor de que a totalidade de um conjunto infinito (tal como o número de pontos do percurso) não tem de ser maior do que as suas partes (tal como os segmentos do percurso) clarifica este aspecto do paradoxo de Aquiles e a Tartaruga: Aquiles não tem de percorrer mais pontos do que a Tartaruga. Ele tem de percorrer exactamente os mesmos: um número infinito de pontos.

A questão acerca da forma como os corredores podem percorrer um número infinito de pontos numa porção finita de tempo (ou tempo dividido num número infinito de instantes) é resolvida em parte pela teoria dos irracionais de Cantor, que mostra que a soma de uma série infinita de números racionais pode ser um número finito, e em parte pela teoria da unificação do espaço-tempo de Einstein. "

http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/seminario/cantor/aquilestartaruga.htm

22 de mai de 2010

Borges, fragmentos

"Desvario laborioso e empobrecedor o de compor extensos livros; o de espraiar em quinhentas páginas uma idéia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento é simular que esses livros já existem e oferecer um resumo, um comentário. Assim procedeu Carlyle em Sartor Resartus; assim Butler em The Fair Haven; obras que têm a imperfeição de serem também livros, não menos tautológicos que os outros. Mais razoável, mais inepto, mais preguiçoso, preferi a escrita de notas sobre livros imaginários."

in Ficções

21 de mai de 2010

Significações (e besteiras)

(Para o Leo)

O Facebook às vezes me inspira: principalmente o de alguns amigos, que vão compartilhando idéias, pensamentos soltos, um mosaico de interesses que vão dando uma idéia meio psicodélica, em retalhos, do que "anda por aí". Um comentário no mural do Leo Gonçalves (poeta e tradutor que é um dos meus "sempre encontráveis" segundo a idéia do Rosa) dizia - acho que um amigo dele, na verdade - que podia ter até alguns erros de português, mas de brasileiro, nenhum. O Stephen Fry diz que não há má gramática, só má sintaxe - pensamentos expressos de forma inconsistente, o que seria o único problema. Claro que há por aí terríveis exemplos disso, e às vezes me surpreendo com um amigo ou outro que é super articulado "oralmente" e quando escreve é um desastre - não um desastre ortográfico ou gramatical puramente, que me é irrelevante, mas ruído mesmo entre o que ele queria dizer e o que eu supostamente deveria entender.
Eu, às vezes, faço o contrário: quando escrevo expresso todos os pensamentos, talvez por reler e rever idéias, mas, pessoalmente, expresso metade do que penso, deixando a outra metade na cabeça, e aí o pobre do ouvinte tem que juntar os pedaços e inferir o resto pra fazer sentido.
Bão, até não era disso que eu queria falar, é que sobre os "erros de brasileiro" ou "erros de português", tem um com uma história que eu acho interessantíssima, por ter uma origem "super culta" e ser usado oralmente como se fosse uma gíria vulgar: busilis, criado por uma infeliz tentativa de tradução do latim por Felipe Segundo da Espanha. Cito Rodolfo Ilari: "Conta-se que, ao deparar-se com a expressão “in die busillis” (naqueles dias), no meio de uma tradução latina, o futuro rei separou “in die busillis”. A partir dessa separação, ele conseguiu traduzir “in die” (no dia) mas ficou com o problema de traduzir “busillis” (que não significa nada). Até hoje, quando se quer apontar uma dificuldade, pode-se dizer, em espanhol: “aquí está el busílis”, “aqui está o nó da questão”."
De certa forma, uma tradição real, já que um caso similar aconteceu com Sigismundo, imperador do Sacro Império Romano-Germânico em 1414. Ele usou a palavra cisma, schisma, que em latim é neutra e para nós é masculina (no sentido de separação, "o cisma"), como se fosse um substantivo feminino. Como alguns bispos tentaram alertá-lo e corrigi-lo, ele resolveu decretar que dali em diante a palavra passasse a ser usada no feminino, por força de lei, ao que um bispo mais corajoso interpôs o "caesar non supra grammatica": o rei não está acima da gramática. O rei não. Mas o povo, sim. A oralidade e as transformações diárias são uma das mais belas formas de manifestação cultural que conheço. Acho que a gente passa tempo demais estudando as "fôrmas" da língua e tempo de menos estudando suas significações.

3 de mai de 2010

Geografia Eleitoral

A petista Dilma Rousseff cometeu uma gafe em entrevista gravada que concedeu à sua própria assessoria e que foi ao ar na noite desse domingo. Ao falar do filme "Vidas Secas" (1963), de Nelson Pereira dos Santos, a pré-candidata à Presidência disse que a história retrata "todo o problema da miséria, da pobreza, da saída das pessoas do Nordeste pro Brasil".

Isso remete a um diálogo da Graúna com o Bode Orelana, nos idos da ditadura que a candidata combateu: Graúna vem correndo, alegre, dizendo que a Anistia vai sair e que todos vão poder "voltar pro Brasil". O Bode Orelana pergunta:
- E onde você acha que o Nordeste fica, Graúna?
- O Nordeste fica no Nordeste, ora bolas!
- O Nordeste fica no Brasil, ô ecil!!!!, grita o bode.
Graúna não perde a pose, e cochicha pro Orelana: "Cê fica denegrindo a imagem do Brasil que eles não te deixam voltar!"
Henfil em um de seus instantâneos inspirados - ele que tanto criticava o pessoal do "sul-maravilha". Quem diria que uns trinta anos depois a tirinha ia pular para a realidade...