30 de set de 2009

Papiols!

Papiols! À luta! Não tenho vida se não ouço o cruzar de espadas!
Papiols! Todo esse nosso sul fede paz!

.....Essas exclamações guerreiras partem de Bertran de Born, poeta e senhor da guerra. Viveu há mais ou menos seiscentos anos, numa época e região que foram esquecidas pelo tempo. Pound revive esse poeta em seu livro Personae, num magnífico poema que é Sestina: Altaforte. Agora a voz do próprio Bertran, vinda de seis séculos atrás:

.....O dia todo me esfrangalho
.....E esgrimo e resisto e retalho.
.....Movem-me guerra com alarde,
.....Já minha terra toda arde
..........Não há valente nem paspalho
...............Que contra mim, ou cedo ou tarde,
..........Não arremeta o seu chanfalho.

.....Os poetas provençais e suas poesias e canções chegaram até nós pobre e parcamente em forma de poesias de amigo, de escárnio e de maldizer e outras denominações. São ensinadas por alto e porcamente nas escolas a alunos entediados, pois essas canções como as de Bertran não entram no currículo. Entram umas porcarias sem-gracinhas, carolas, bestas, despidas de qualquer interesse pra qualquer pessoa em sã consciência, e ainda mais para estudantes de nossa época.
..... Lembro-me de que a poesia mais "transgressora" que vi quando menino era uma do Bocage, acho que "nariz, nariz, nariz / nariz que nunca se acaba / nariz que se o cálculo não erra / posto entre o céu e a terra / faria um eclipse total", e olha que Bocage é de outro tempo, e mesmo assim essa poesia é, no máximo, engraçadinha. Anos depois, descobri uma do bisavô do Ricardo Coração de Leão, aquele do Robin Hood, que proclamava em alto e bom som:

.....Chamam-me o "mestre sem defeito":
.....Toda mulher com quem me deito
.....Quer amanhã rever meu leito;
.....Neste mister sou tão perfeito,
..........Tenho tal arte,
.....Que tenho pão e pouso feito 
..........Por toda parte!

.....Essa declaração é do surmâle de 900 anos atrás, 7º Conde de Poitiers, 9º Duque da Aquitânia, que foi "um dos maiores galanteadores do mundo e um dos maiores enganadores de mulheres e bom cavaleiro de armas e magnífico na arte de cortejar", segundo sua razo, sua biografia. Me chamou a atenção não pelo sexismo mas por tornar vivas as cores das figuras medievais, pra mim então bidimensionais e chapadas nos livros de história. E, claro, pela força da poesia, que encanta até hoje.
.....Queria poder dar aos estudantes a possibilidade de se encantarem com essas poesias medievais verdadeiras, que têm uma temática às vezes abertamente erótica ou amoral pelos nossos padrões atuais, mas que fazem isso com uma clareza e inocência de arrepiar. E o mais interessante delas não é só a temática, mas a construção de uma poesia quase música, descobrindo formas de relacionamento entre sons e sentidos, os signos em rotação que girariam a roda da arte até nossa própria época.
.....Alguns desses poetas fizeram versos que estão entre os melhores de todos os tempos, mas são excluídos dos currículos pelo mesmo tipo de mentalidade eqüina que substituía os palavrões e obscenidades de Bocage por asteriscos. Um verso como "seu belo corpo aos beijos rindo abra / e que o remire contra a luz do lume" devia figurar entre os exemplos de beleza e concisão pra qualquer pestinha disposto a escrever minimamente bem. E não há estímulo melhor para a poesia e literatura - ou mesmo vida - que sentir a energia pulsante que salta desses poetas, que viviam intensamente, cortejavam, guerreavam, cantavam, bebiam, trepavam - e escreviam magnificamente bem.

* As poesias aqui (exceto as duas primeiras linhas) foram traduzidas por Augusto de Campos. O melhor da poesia provençal pode ser encontrada nos seus livros Mais Provençais e Verso, Reverso e Controverso
.....Cla
.....

29 de set de 2009

Santa diplomacia, Batman!



As séries e programas antigos de televisão há algum tempo voltaram a ser exibidos com uma aura "cult", agora com adjetivos chiques como "retrô" ou "vintage". E são gostosas de ver, tanto a inocência dos roteiristas, atores, diretores, quanto a inocência que se esperava do público, para que o conjunto funcionasse. Os efeitos especiais são um capítulo à parte, tão toscos que a gente acaba reagindo como em frente a um bebê ou um cachorrinho, com um "que gracinha!". Um dos melhores é o antigo Batman estrelado pelo Adam West: um Batman barrigudo e vestido como menino em festa a fantasia, que na hora da porrada mostra balões (!) escritos, "bum", "paft", "zuum", na tela, hilário. Além dos roteiros pra lá de estrambólicos, mesmo para uma série de super-herói, e um companheiro mais novo que se tornaria moda na época e gozação nas décadas seguintes, pela sugestão de homossexualidade. E ainda por cima, o Robin adorava "santa": era "santa mente criminosa, Batman!", "santa saída secreta, Batman", "santa engenhosidade, Batman" - uma piada pronta.
.....Bom, claro que não é sobre isso que eu queria falar - estou me transformando numa "flor de obsessão", como o Nelson. Essas séries inspiravam as crianças, que imitávamos os HT, os Heróis da TV - eu mesmo já fui Super-Homem, Homem-Aranha, Batman e, pra salvar um pouco a honra da firma, Pirata e Darth Vader. Mas o Lula tá crescidinho demais pra brincar por aí com fantasias infantis, ainda mais as pervertidas pela ideologia. Ao invés da defesa dos fracos e oprimidos, como os antigos heróis vintage, é a defesa do socialismo bolivariano (que aliás não tem nada nem de socialista nem de bolivariano), da permanência eternizada no poder através de reeleições sucessivas num simulacro democrático, dos projetos personalistas de poder a la Fidel. E santa diplomacia, Batman! O Barão do Rio Branco deve estar rolando na cova, pois essa semana foi de lascar: nossa versão latino-americana de Zorro e Tonto apoiaram um egípcio anti-semita, racista e sexista para a Unesco (logo pra onde!), em troca de "simpatia" pelas "demandas brasileiras" como o assento no Conselho de Segurança da ONU, e deram com os burros n'água, que o resto do mundo não acompanhou a sandice e o sujeito perdeu a eleição; Lula elogiou o presidente do Irã após mais uma negativa do Holocausto, sem fazer nenhuma ressalva, o que é uma concordância tácita em qualquer manual tupiniquim de diplomacia; e deixou o Zelaya fazer comícios na embaixada brasileira em Honduras, numa interferência em assuntos internos de outros países que chega a ser inconstitucional, além de estúpido, perigoso e incompetente. Uma coisa é ser contra o golpe, condená-lo, pressionar pela volta do presidente deposto; outra, muito diferente, é tentar enfiá-lo goela abaixo do governo golpista, sendo um país estrangeiro.
.....Em cada uma das festas infantis tem uma criança que chega sem fantasia e logo começa a infernizar os pais até conseguir uma, e aí corre pra voltar e mostrar pros colegas - é minha interpretação do que o Lula está fazendo. Como criança gulosa e sem limites, morrendo de inveja da atenção que o Cháves recebe, comprou sua fantasia e agora está se exibindo por aí... Num dos episódios do Batman com Adam West, ele e Robin se vêem presos num edifício prestes a explodir, com um relógio dando os últimos tiquetaques, Robin com a cara de terror e tal, de repente o Adam West saca um spray e psssss, sai jogando isso nas paredes – logo depois vem a explosão e os dois estão intactos! Adam West olha superior para Robin e solta: “ainda bem que eu me lembrei de trazer o bat-pó-anti-explosão!” A incongruência da solução mata qualquer um de rir. Mais ou menos como Lula e Marco Aurélio Garcia e as suas soluções mágicas para se tornarem atores diplomáticos internacionais. Se você quer atrair atenção numa festa, pode muito bem pular num pé só com um nariz de palhaço ou sair correndo pelado pintado de vermelho. Com certeza vai atrair a atenção do público. E com certeza não será o tipo de atenção que você gostaria. Mais ou menos como o Lula dando espetáculo nos palcos internacionais. Se fosse eu, jogaria um peixe a cada asneira dita, como se faz com as focas.

27 de set de 2009

Realismo

"Quantas divisões tem o Papa?" Essa pergunta de Stalin sugeria que o Papa podia reclamar o quanto quisesse, que reclamar era tudo que ele podia. "Onde está o testamento de Adão"? Perguntou Francisco I, da França, ao ser informado do Tratado de Tordesilhas, que dividia o mundo entre Portugal e Espanha. "Paris bem vale uma missa", disse Henrique de Navarra, ao abraçar o catolicismo para poder reinar sobre a França. Todos eles de um realismo político que beira o cinismo completo. A melhor, no entanto, é a conversa de Mao com Nixon - este dizia ao colega chinês que era um contrasenso terem armas de destruição em massa capazes de destruir toda a população mundial várias vezes: "Não", retrucou Mao, "meus cientistas dizem que depois de usadas todas as nossas armas, vocês serão varridos do mapa, mas ainda restarão três ou quatro milhões de chineses. É o suficiente pra nós recomeçarmos!" Nixon deve ter engolido em seco diante do lunático à sua frente.
Há uma diferença gritante, claro, entre realismo político e tráfico de influência e poder, troca de cargos, nomeações, apadrinhamentos, aparelhamento, venda de votos, alianças espúrias e coisas mais. Quando disseram que "política é a arte do possível", alguém ia imaginar que o sujeito estava se referindo na verdade à maior corrupção possível, à maior enganação possível, ao maior descaramento possível e por aí vai? Eu esperava que não. Em vão. Esses dias, na Folha, saiu o caso do Edvaldo Nilo, que era prefeito de Antas, na Bahia. No final do madato, resolveu apoiar seu cunhado, que era da oposição e tinha sido seu adversário na eleição anterior. Apesar de estar no palanque, via os correligionários do ex-adversário meterem o pau na "atual administração". E a "atual administração" era ele, Nilo. "Medíocre", "incompetente", eram alguns dos epítetos do "atual prefeito". E o Nilo aplaudindo. Quando perguntado se ele não se sentia ofendido, respondeu: - "Meu rapaz, nem eu lembro em quem votei na eleição passada. Imagine então esse povo aí embaixo!". Enquanto isso e enquanto assim, se perpetuam sarneys e lulas e renans e demais, antas que somos. Quantos neurônios tem o eleitor? Para mudar a atual situação, a memória do nosso eleitorado tem tanto poder de fogo quanto as divisões do Papa.

25 de set de 2009

Os banhistas de Arcimboldo


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Ali no Rio, aquela mata atlântica próxima às praias dá a impressão de um estouro de banhistas repentinamente transformados em árvores, flores, plantas, cada qual mais multicolorida que a outra, verdes de tons nunca dantes desenhados, parecendo que se acotovelam pra ver quem consegue um lugar ao sol, uma nesga de paisagem. Imaginem um quadro do Arcimboldo, um Arcimboldo alegre, usando todas as cores da paleta para desenhar banhistas e pronto, taí a natureza brasileira. Ou uma página de Ovídio, uma metamorfose coletiva de foliões correndo para o mar. Em uma praia próxima a Parati, certa vez, os verdes e azuis e amarelos e vermelhos estavam tão destacados, eram tantas as árvores e flores, tão próximas à praia, umas meio que penduradas sobre o mar, que a única coisa que pude pensar olhando pra elas foi "estão brigando pelos seus 15 minutos de fama"! Os filósofos europeus como Descartes e Galileu diziam ler o livro da natureza através da linguagem matemática, triângulos, retas... uma natureza que tentavam fazer caber em seus compassos, réguas e papéis:

A filosofia está escrita nesse imenso livro que continuamente se acha aberto diante de nossos olhos (falo do universo), mas não se pode entender se antes não se aprende a compreender a língua, e conhecer os caracteres nos quais está escrito. Ele vem escrito em linguagem matemática e os caracteres são triângulos, círculos e outras figuras geométricas, sem as quais é impossível para os homens entender suas palavras; sem eles é rodar em vão por um labirinto escuro. (Galileu Galilei)

Imagino aqui, cercados por essa exuberância, onde até as cores são despudoradas, se teriam ainda essa leitura tão racional. Não sei qual filósofo ou antropólogo exclamava: "infeliz do país que tem bananas"! Dão o ano inteiro e não precisa plantar, teoricamente liberando os viventes à sua volta para o ócio criativo. Mas acho que nesse caso nossos avós tupiniquins olhavam ao seu redor, olhavam para o céu, e não viam matemáticas, retângulos, hipotenusas: sonhavam fábulas, carnavais, folias.

23 de set de 2009

Já vi esse filme...


Escrevi sobre a semelhança entre a aliança de Lula com os "trogloditas" e outros com uma cena do filme O Poderoso Chefão III. Hoje veio outra imagem à cabeça: Star Wars! Não os novos episódios, os anteriores, da década de 70. Os Rebeldes lutavam contra o Império, e Luke Skywalker liderava um bando de guerreiros contra as hostes do Mal, o lado negro da Força, representado pelo Darth Vader. Mas agiam como os três patetas! Os Rebeldes iam atacar uma base ultrasecreta escondida em uma floresta num planeta remoto, uma base de um Império ultratecnológico, dotado de todas as armas, soldados, tecnologia, etc., e a tática adotada por Luke é... andar na ponta dos pés! Elementar, meu caro Watson! Devia estar usando o patético como arma de guerra, ou tentando matar o outro lado de tanto rir. Mas, como bom mocinho num bom filme hollywoodiano, ele ganha, derrota o Império, reestabelece a República, etc. Lembra muito o Lula e seus sequazes: colocam dólares nas cuecas, compram dossiês, cometem dezenas de irregularidades, agem como patetas e aloprados, e ainda assim conseguem algum sucesso. No caso do Lula, é o poder do senso prático, acho, que o livra de cair na esparrela completa. Mas que o governo lembra esses filmes B, lembra. Nesse episódio do Zelaya em Honduras, por exemplo, o goveno fez como o Super-Homem faz pra manter a identidade secreta: bota óculos e záz!, vira o Clark Kent, e é impossível, com tal disfarce, identificar qualquer semelhança entre os dois... risível, e o nível de credulidade necessária para se acreditar nessa solução é a mesma que se exige da opinião pública para que acredite que o governo não teve nada a ver com a ida de Zelaya para a embaixada brasileira. Pelo menos chamem o Didi, dos Trapalhões, pra coordenar a coreografia, pô. Deve ter sido por isso o apoio à Lei Geral das Religiões: necessário estimular a credulidade entre a população, senão daqui uns dias a oposição é capaz de desmentir a existência de duendes e seres da floresta, como defendido pelo Minc Leão Dourado.

22 de set de 2009

O rei está nu


O Presidente esses dias cometeu mais uma das suas sandices verbais - dessa vez não foi um atentado à gramática, mas à realidade. Disse que pela primeira vez desde 64, nessa próxima eleição não haverá nenhum troglodita da direita concorrendo à presidência - e disse isso como se não soubesse que eles estão todos ao seu lado: Sarney, Collor, Renan Calheiros e dezenas de outros. Lula é um mestre do ilusionismo e da trapaça mental. Sabe muito bem onde estão os trogloditas, mas usa a ilusão de que por não estarem concorrendo estarão fora do poder - aliás, tenta dar a entender que não tem nada a ver com eles. É de lascar.
.....Poucas vezes tivemos tal hegemonia da situação no país, com uma oposição tão incompetente ou emaranhada como essa. Os maiores problemas do governo foram criados pelo próprio governo ou seus aliados: mensalão, aloprados, crise do senado e por aí vai. A oposição só se aproveitou da situação, mas foi incapaz de viver por si só, respirando pelos aparelhos da incompetência governamental.
.....Darcy Ribeiro, durante o golpe de 64, encontrou-se com um general no Palácio do Planalto, ele fugindo e o general tomando militarmente o lugar, e tascou: "estou vendo pêlos crescendo na sua cara - o senhor é um macaco"! Os trogloditas tomaram o poder, então. Ficaram por mais de duas décadas, e uma de suas crias assumiu pela morte de Tancredo - José Sarney . Vice que veio no pacote de apoio da parte dos governistas que não estava disposta a engolir Paulo Maluf, José Sarney tinha sido esteio da ditadura e presidente obediente do seu partido de apoio, o PDS, ex-Arena. Essa historinha famigerada respinga também na oposição: esse grupo dissidente da ditadura veio a formar o PFL, atual DEM.
.....Não sei, presidente, se estão crescendo pêlos nos petistas - acho que cresceram os olhos, no poder, no dinheiro, na corrupção, nas eleições fáceis compradas pela distribuição de pão e circo, na corrupção da maioria da população, que ganha caraminguás do novo pai dos pobres enquanto este se refestela com os novos amigos, aqueles mesmos trogloditas de sempre. Mas são trogloditas endinheirados, subservientes, gentis... como os canibais que deixam o missionário bem alimentado. Aliás, não é essa a principal imagem que vem à cabeça, não: fiquei me lembrando do filme O Poderoso Chefão III. Nele, o mafioso Michael Corleone tenta se tornar o chefão de um negócio multibilionário e portanto o capo di tutti i capi, o chefe dos chefes. Chega numa reunião e o verdadeiro chefão se revela e diz pra ele: "Sim, você será o comandante da frota. Mas somente se os nossos navios velejarem na mesma direção". Alguma semelhança?

21 de set de 2009

Preconceitos



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.....Machado de Assis gostava de uma frase em latim que era homo sum: humani nihil a me alienum puto. Belíssimo, é um verso de Terêncio, e diz sou homem: nada do que é humano me é estranho. Antigamente, junto com o conselho de Rimbaud quanto ao dérèglement de tout les sens - o desregramento de todos os sentidos, tive a ambição juvenil de me atirar em todas as experiências sensoriais, beber a vida em grandes goles para, ao terminar a aventura humana, poder dizer essa frase orgulhamente, como um capitão de longo curso de Conrad ou Hemingway. Mas não era sobre isso que eu queria falar.
.....Machado terminava essa frase sempre antes do puto - tinha medo de ser mal interpretado. Puto, putus, puta, putum, putare, putavi, putatus: crer, acreditar, em latim. Mas convenhamos que é muita putaria mesmo pra um verbo em latim.Ou era: atualmente, além da raridade com que usamos latim, puto e suas putarias deixaram de ser verba non grata e podem ser usados à vontade sem causar desconforto. Tempora mutantur, nos et mutantur in illis, os tempos mudam e mudamos com eles. Mais recentemente, essa frase que o Machado temia usar pelo puto e suas conotações putativas(!), demonstra o caminho dos preconceitos de duas formas diferentes: o feminismo (ou melhor, o politicamente correto), de um lado, e a homofobia, do outro. Alguns autores, nas últimas décadas, usaram de todas as formas possíveis para evitar o homo, por suas implicações sexuais - "sou homo suas nêga", no dizer do branco homófobo. Colocavam o próprio nome, mudavam a voz, o sujeito, tudo para evitar a palavra proibida e suas conotações. Também mais recentemente, alguns autores trocaram o homo pelo humanum, por conta do politicamente correto: o sou homem pelo sou humano, o que torna a frase óbvia, além de perder completamente o poético. A idéia é de que usar homem para representar o gênero humano é incorreto e depreciativo com as mulheres. Pode até ser, mas conta isso pro Terêncio... Sobre essa igualdade entre homens e mulheres, fiquei espantadíssimo ao descobrir que só depois da Segunda Guerra as mulheres francesas tiveram direito a voto! E os direitos dos negros nos EUA somente foram assegurados e igualados aos dos brancos na década de 60. O tempora, o mores! Ah, o tempo, os costumes! Cícero já os achava atrapalhados há dois mil anos. Atualmente estamos cada vez mais próximos de resolver - ou minimizar até o aceitável - uma boa parcela desses preconceitos. Mas, macacos nus que somos, e vendo o reflexo da nossa incompreensão mútua nessa simples frase, com certeza criaremos outros. Humani nihil a me alienum puto.

18 de set de 2009

Palavras, palavras...

O pintor Degas certa vez confidenciou ao seu amigo, o célebre poeta-inventor Mallarmé, que achava que poderia ser um excelente poeta - "tenho dezenas de idéias simplesmente maravilhosas para poemas", disse ele. Mallarmé retrucou: "Mas Degas", disse rindo, "não são com idéias que se fazem poemas, são com palavras!". Mesmo na prosa, idéias, filosofias, histórias não constroem um grande livro - muito menos o transformam em um clássico. O que se vê nos livros não é um imperativo moral, ou ensinamentos, ou filosofias: os grandes livros, os livros permanentes, nos mostram a força pura e bruta do humano, em suas dúvidas, idiossincrasias, brutalidades, invenções, fraquezas, vilanias, heroísmos, rebeldia... tudo que fomos, somos e podemos ser emerge de páginas fantásticas da literatura mundial. E páginas e páginas continuam a ser produzidas simplesmente porque a aventura humana não se esgotou, e não se esgotará. Os grandes criminosos de Dostoievski, os arrivistas de Balzac ou os vilões de Shakespeare não são modelos de comportamento, mas são modelos de alma: as profundezas e recônditos da mente humana. O Satanás de Milton é um exemplo de força, determinação e beleza, mesmo que seja também o arquétipo do mal - o Mefistófeles de Goethe no final é sobrepujado tanto em inventividade como em vilania por Fausto, mas este, cheio de facetas e sutilezas próprias da raça, consegue ainda redenção, mesmo com ajuda de outra pessoa. O que nos encanta nessas páginas é a beleza de sua construção, utilizando enredos e situações como cimento e a alma humana como os tijolos dessas obras belíssimas. Um trecho do Gibbons:

"Possuía uma biblioteca de 35.000 exemplares e 60 concubinas; e pelo número de filhos e obras que deixou após si, tanto uns quanto outras eram objeto antes de uso que de ostentação."

Certamente o sujeito não é um modelo de comportamento, mas a prosa do Gibbon sim.

17 de set de 2009

Italo Calvino: Sobre Plínio, o Velho

No livro Por que ler os clássicos, Italo Calvino dedica um capítulo a Plínio, o Velho (23 a 79 d.c.) – nesse caso, “o Velho” serve para distingui-lo do sobrinho, Plínio – o Jovem, que seguiu os passos do tio e se tornou também uma espécie de cientista. Melhor dizendo, tornaram-se homens de ciência, no sentido de que acreditavam que tudo podia ser explicado, tinha uma causa e uma regularidade derivada das leis de funcionamento da natureza. Plínio, o Velho, era um compilador compulsivo, que deixou em sua Naturalis Historia, em 37 volumes, um retrato do conhecimento dos antigos e das suas crenças, erros, lendas, todos convivendo lado a lado como expressões da verdade da época – diz Calvino: “O uso que sempre se fez de Plínio, penso eu, foi o de consulta, tanto para saber o que os antigos conheciam ou acreditavam conhecer sobre determinado argumento quanto para compilar curiosidades e disparates”. Mas para os estudiosos do conhecimento humano é um marco de outra espécie: depois dessa época e durante dezesseis séculos, o conhecimento científico ocidental praticamente estancou, quase não se produzindo nada digno de nota, a despeito dos grandes progressos técnicos medievais.
.....A leitura de Plínio (e não achei o livro em português - só excertos, citações... tem na internet em inglês, espanhol e latim, os livros completos) não traz nenhum proveito científico, por assim dizer, mas a delícia de ver os limites do conhecimento antigo e a falta de limites da imaginação dos antigos – as coisas que eles viam eram incríveis: se um cometa passasse pela “partes pudendas” de uma constelação, isso era visto como prenúncio de uma época de dissolução dos costumes! Essa e outras superstições são citadas e refutadas por Plínio, que no entanto deixa passar um sem número delas como expressão absoluta (e absurda) da verdade. Os sumários dos capítulos já dão uma boa idéia do “método” dele: "Peixes que têm uma pedrinha na cabeça; Pedras que caem do céu; Coisas que não são atingidas por raios; Peixes que sentem a influência dos astros; Preços extraordinários pagos por certos peixes; Planta que nasce de uma lágrima; Planta cuja semente é pintada para que nasçam flores coloridas; Transmutações de sexo e de gêmeos; Que flores eram conhecidas no tempo da Guerra de Tróia; Da quantidade de ouro possuída pelos antigos; Da ordem eqüestre e do direito de usar anéis de ouro; Inimizade entre elefantes e dragões”...

Calvino prossegue:

.....(...) Plínio se sente autorizado a lançar-se em sua famosa resenha das características "prodigiosas e incríveis" de certos povos do além-mar, que terá tanto sucesso na Idade Média e também mais tarde, e transformará a geografia num circo de fenômenos vivos. (Os ecos serão prolongados também nos relatos das viagens verdadeiras, como as de Marco Polo.) Que os territórios desconhecidos na fronteira da Terra alojem seres na fronteira do humano não deve causar espanto: os arimaspos com um olho só no meio da testa, que disputam as minas de ouro com os grifos; os habitantes das florestas de Abarimon, que correm velozmente com os pés virados ao contrário; os andróginos de Nasamona, que alternam os sexos quando se acasalam; os tibios, que num olho têm duas pupilas e no outro, a figura de um cavalo. Mas o grande Barnum apresenta seus números mais espetaculares na Índia, onde pode ser encontrada uma população de caçadores com cabeça de cachorro; e uma outra de saltadores com uma perna só, que, para descansar na sombra, se deitam erguendo o único pé como um chapéu de praia; e outra ainda de nômades com pernas em forma de serpente; e os astomos sem boca, que vivem cheirando perfumes. 

.....O final desse capítulo, entretanto, resume bem e de uma maneira belíssima a motivação de ler não só este mas praticamente qualquer livro, de línguas vivas ou mortas, pois aqui o que nos é dado a ver é

a natureza como aquilo que é externo ao homem mas que não se distingue daquilo que é mais intrínseco à sua mente, o alfabeto dos sonhos, a chave que decifra a imaginação, sem a qual não se produz razão nem pensamento.


* Download do capítulo do Por que ler os clássicos sobre Plínio aqui

16 de set de 2009

Novos Papuas

Na Segunda Guerra os americanos fizeram algumas bases na Nova Guiné, para reabastecimento de aviões durante a campanha do Pacífico. E lá haviam esses Papuas, com modo de vida remontando à idade da pedra e sem contato com outros povos (ia botar "povos civilizados" mas a miserável da consciência politicamente correta não deixou). Pois observando os americanos em suas bases, ficaram admirados com o poder mágico deles - afinal, invocavam esses "grandes pássaros" com frequência e facilidade. E resolveram imitá-los: construíram equipamentos de rádio, praticamente perfeitos, esculpidos em madeira e pedra, e tentavam, sem sucesso, imitar os gestos e sons da língua estranha para invocar eles próprios os aviões.
A quase anedota parece risível, mas aqui o governador do Tocatins quer construir uma réplica em tamanho natural da Torre Eiffel - e o sentido não é muito diferente da invocação dos papuas. Quem sabe imitando os aspectos externos de uma cultura nós consigamos alguma transmutação, alguma transformação mágica que nos faça mais "civilizados"... O governador age como um bom botocudo brasileiro, mas merece cidadania papua - o sinal externo tomado pela coisa em sim, e a coisa em si tomada pelo que representa, no caso, o que ele deve considerar uma "civilização superior". Ou não: talvez, como um papua honorário, queira simplesmente atrair "pássaros grandes" apinhados de turistas, num torto jeitinho brasileiro. Merece não uma medalha mas uma clava e uma caverna pra passar seus dias sem tentar mágicas bestas.

15 de set de 2009

Ruminações rabugentas

Uma idéia brilhante: vamos pintar todos os aviões com destino ou escala em Brasília de preto! Aquela primeira e única terra improdutiva 100% planejada ganharia finalmente uma imagem à altura: todo mundo entenderia muito melhor o funcionamento de nosso sistema político se olhássemos de longe e desse pra ver esses aviões negros pousando e decolando, uma metáfora visual concreta dos urubus políticos se alimentando da carcaça da república. Aposto que um tanto de gente ia olhar isso e dizer "Ahhhhh..."

13 de set de 2009

Exército

Gibbon, historiador inglês, usava a etimologia para expressar sua admiração pelos romanos: segundo ele, a disciplina militar entre eles era tão forte que até a palavra que usavam para designar "exército" tem sua raiz na palavra "exercício", sendo que o derramamento de sangue era a única coisa que diferenciava o treinamento militar diário de uma batalha de verdade, de resto tão exigente e desgastante quanto. Por aqui, o Exército vai na direção contrária, adotando o regime de trabalho parlamentar. Já não vão trabalhar na segunda e na sexta. O motivo é ligeiramente parecido, de raiz etimológica alimentar: se dos parlamentares é a "boquinha", no Exército falta é comida mesmo. Com o serviço militar obrigatório, e mesmo dispensando boa parte dos candidatos em idade própria, o contingente brasileiro chega a quase duzentas mil pessoas.
Quem sabe não fazemos uma invasão preventiva à Argentina - sem armas, só paralisando o trânsito com as filas nas portas das churrascarias? Ou então usamos a semelhança com o regime parlamentar de trabalho e encampamos os políticos como arma estratégica do Exército: imagina jogar um Sarney no sistema parlamentar dos outros! Em pouco tempo, estaríamos prontos para a invasão: com a corrupção generalizada, o outro país não teria mais dinheiro pra modernizar suas Forças Armadas, nem pagar seus salários ou comprar comida (peraí...); em pouco tempo, o ministério da Defesa estaria tomado por sobrinhos, netos, primos... os generais ligariam para o Comando Central e a mensagem seria: "O tio do sobrinho do cunhado da empregada maranhense está de férias com dinheiro público numa universidade estrangeira. Ligue de novo em 6 meses." Fácil, fácil. Se bem que, pensando nisso, e apesar do Brasil não estar em guerra, fica uma pergunta: QUEM FOI QUE JOGOU O SARNEY NA GENTE?

11 de set de 2009

Um livro que não escreverei

Minha loucura, outros que a tomem
com o que nela ia,
que é do homem sem a loucura,
mais que besta vazia,
cadáver adiado que procria?
Fernando Pessoa

Um dia, o poeta João Cabral de Melo Neto acorda, sai meio sonâmbulo por Recife até encontrar e comprar um cavalo, um pangaré velho e gasto, um gibão de couro e uma faca. Deixa de lado as roupas urbanas, de diplomata, de poeta consagrado, e parte rumo ao sertão. Antes consegue uma haste longa de bambu, afia a ponta, coloca um chapéu de couro como se fosse um elmo, acrescentando-lhe penas. Vai se encontrar com um andarilho vestido como um penitente, que traz um cajado e uma certeza - só a imortalidade salva.
Aqui as coisas se complicam - como explicar que o penitente é Unamuno? Pois tem que ser ele, que é ele quem inspira esses devaneios. Unamuno é um filósofo, poeta e escritor espanhol, mas tão conhecido por lá quanto é completamente desconhecido por aqui. Dizia que a verdadeira igreja espanhola era a do Nosso Senhor Dom Quixote... mas vamos pular isso - é ele, e pronto. A intenção será colocá-lo a dialogar com a prosa seca de João - um gongórico espanhol, que sempre que leio imagino com os braços abertos e em movimento constante, histriônico como Nelson Rodrigues, ou às vezes com as mãos postas em oração e compungido como um franciscano, e o cético, sintético e cerebral poeta brasileiro.
Os dois percorreriam o Nordeste com seus carnaúbais, suas caatingas, seus engenhos - o nordeste recôndito, os sertões que até pouco tempo atrás diferiam muito pouco em pobreza e calamidades da época do próprio Dom espanhol. Um nordeste que tinha como concorrente da Bíblia em popularidade as histórias do livro "Carlos Magno e os doze pares de França", histórias justamente de cavalaria, que seriam adotadas e incorporadas por tantos e tantos cordéis desde então.
Mas iriam os dois a vagar juntos - a loucura não tiraria a prosa seca, cortante, mínima, concisa, do agora Dom João. E a sanidade não tiraria (como nunca tirou) a vontade de atacar moinhos de Unamuno...
Pensando bem, quem sabe um dia... mas por enquanto esses dois vão ser meus "monstros semióticos", viverão nas páginas desse blog, somente, aparecendo para assombrar e desassombrar-me, de quando em vez.

10 de set de 2009

Contos da Carochinha

Se houvesse um prêmio de cultura inútil, acho que eu estaria disparado entre os finalistas... estava hoje lendo sobre uma confusão em relação ao sapato da Cinderela. Sério! A polêmica inicial era sobre a conotação sexual da história - e acaba numa divergência sobre o sapatinho ser de cristal ou não, já que Charles Perrault, quando adaptou a história oral, teria confundido "vair", pele, com "verre", vidro, por conta dos sons parecidos. Mas o interessante é a sanguinolência dos contos originais: no final da Cinderela tradicional, a madrasta e as irmãs são obrigadas a calçar botas de ferro em brasa e dançarem até morrer... antes, as irmãs já tinham cortado os dedos dos pés para conseguirem calçar o tal sapato. No conto da Bela Adormecida, a princesa que dorme como se estivesse morta é estuprada pelo príncipe - e fica grávida! Em alguns, morrem todos, em outros, os personagens se vingam de maneira terrível, como essas botas de ferro, ou matam com requintes de crueldade. Temos que lembrar que quando tomaram forma, a Europa estava dividida em centenas de pequenos feudos, a justiça, quando havia, só servia aos poderosos, e o mundo era em geral bastante cruel. Aliás, algumas leis, reais, pareciam com os contos de terror mesmo - como a que dava o "direito de pernada", o direito do Senhor de desvirginar qualquer serva nos limites de suas propriedades - antes do casamento, elas obrigatoriamente tinham que passar uma noite com o senhor das terras... durante o período em que esses contos nasceram houve também a Peste Negra, que dizimou metade da população européia. Realmente, os finais felizes não eram coisa rotineira - deviam ser uma espécie de ficção científica da época.

9 de set de 2009

Mineiros

"Você, como bom mineiro..." - eu?! Recebi esse email de um amigo, seguido de uma longa explicação, e fiquei rindo. Acho que foi o Veríssimo que disse ser o mineiro tão desconfiado quanto introspectivo. Uma vez, segundo ele, esqueceu o nome de um conhecido daqui de Minas, e tentou aplicar o golpe do "qual o seu nome completo?", que normalmente faz a pessoa dizer inclusive o primeiro nome, que é o único que a gente quer realmente saber. Pois o mineiro, desconfiadíssimo, respondeu: Fala a parte que você sabe... Bom, esse meu amigo, intuindo que como bom mineiro eu ia ficar desconfiado do que ele ia dizer, já foi logo se explicando! Com a cultura urbana cada vez mais entranhada, vamos perdendo grande parte das idiossincrasias e particularidades do mineiro típico, o mineiro de anedota. Aliás, não tanto só de anedota: em 1961, quando o Jânio renunciou, perguntaram ao Otto Lara Resende, então porta voz do governador Magalhães Pinto, onde Minas estava naquela crise - ao que ele responde: "Minas está onde sempre esteve"... mais mineiro impossível. A fama às vezes era levada a sério: em uma reunião do Conselho de Segurança Nacional em 1969, estava sendo decidida a cassação de vários políticos, e um coronel ia lendo o prontuário de cada um, seguindo-se uma discussão e votação sobre se tal ou qual pessoa seria ou não cassada, etc. Até que chegou a vez de um deputado federal - quando já iam terminando a leitura dos seus dados pessoais:
— Mineiro, advogado...
— Basta — cortou Orlando Geisel.
Cassaram o sujeito. Por via das dúvidas, por via das dúvidas...

5 de set de 2009

Os óculos do Dom

Meu sacerdote predileto, Miguel de Unamuno, fundou essa igreja e essa fé de que somos ambos seguidores - a igreja de Dom Quixote, cavaleiro invencível, herói dos hérois, que sofre para que a humanidade possa sonhar... o musical Man of La Mancha coloca Peter O'Toole no papel do Dom. E por mais que seja um musical, de Hollywood, et caterva, acabo chorando no final, tal minha identificação. A música, composta para a peça e cantada no filme, foi traduzida e interpretada por Betânia:

Sonhar mais um sonho impossível
Lutar quando é fácil ceder
Vencer o inimigo invencível
Negar quando a regra é vender

Sofrer a tortura implacável
Romper a incabível prisão
Voar num limite improvável
Tocar o inacessível chão

É minha lei, é minha questão.
Virar esse mundo, cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais

Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã se esse chão que eu beijei
for meu leito e perdão
vou saber que valeu

Delirar e morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão

E completo então com Calvino - acrescentando um mito egípcio que dizia o seguinte: quando morremos, os deuses nos esperam junto ao portão do paraíso com duas perguntas. Uma: você encontrou alegria em sua vida? Outra: sua vida trouxe alegria para a vida de outra pessoa? Se você responder a ambas positivamente, sua alma pesará menos que uma pena, e sua passagem será permitida. Em As Cidades Invisíveis:

O Grande Khan já estava folheando em seu atlas os mapas das ameaçadoras cidades que surgem nos pesadelos e nas maldições: Enoch, Babilônia, Yahoo, Butua, Brave New World.
Disse:
— É tudo inútil, se o último porto só pode ser a cidade infernal, que está lá no fundo e que nos suga num vórtice cada vez mais estreito.
E Polo:
— O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.

3 de set de 2009

Era do Gelo

Notícias sobre o aquecimento global e a luta pela redução de emissão de poluentes, contra o desmatamento e pela proteção de espécies ameaçadas são uma constante hoje em dia - e existem algumas pessoas que ainda duvidam, a sério, da correlação entre esses fatores. Aqui no Brasil acho que o mais notório (ou com maior visibilidade) é o Reinaldo Azevedo, da Veja - no caso dele, acho que é por ser uma bandeira histórica da esquerda, o que transforma o termômetro num agente infiltrado do comunismo internacional. Mas o que os cientistas dessa vertente questionam é a capacidade de interferência humana no clima, já que variações da órbita terrestre ou da atividade solar poderiam também estar causando tais elevações de temperatura, e teriam muito mais "poder de fogo" pra isso.
Pois lendo a respeito descobri que estamos ainda numa Era Glacial! Pelo menos tecnicamente, já que uma Era Glacial é definida pela existência de calotas polares como as que temos na Antártida e aquela cobertura de gelo na Groelândia. O que coloquialmente chamamos "A" Era do Gelo, congelante de verdade, teria tido seu pico por volta de 20 mil anos atrás. Mas essas diferenças de temperatura eram enormes - a temperatura mundial cair ou subir alguns poucos graus já pode ser desastroso.
O "Book of General Ignorance" informa que houve uma pequena "Era do Gelo" num período relativamente recente: começou aproximadamente em 1500 e durou uns trezentos anos, com a temperatura da Europa baixando aproximadamente 1º C. Apesar de ter sido um período de baixa atividade solar, alguns peritos acham que na verdade ela teve a ver com a Peste Negra: como metade da população européia da época morreu, milhões e milhões de hectares deixaram de ser cultivados, sendo gradualmente ocupados por florestas, causando um "antiefeito estufa" e a consequente queda na temperatura. Nessa época, a calota de gelo dos Pólos cresceu tanto que alguns esquimós atingiram a Escócia de caiaque! E habitantes de Orkney, no extremo norte do Reino Unido, tiveram que expulsar um urso polar das suas terras... imaginando o contrário, se a temperatura continuar com a tendência atual, logo, logo, vamos ter noruegueses dançado hula-hula no inverno e um parque aquático no Pólo norte... além de pesca submarina do centro do Rio de Janeiro.

2 de set de 2009

Fato Relevante

Hoje é uma data importante e completamente esquecida na história da humanidade: há exatos 2.040 anos atrás, Otávio, que viria a ser chamado de Augusto, venceu a batalha de Ácio e se tornou o senhor absoluto de Roma. Nos anos seguintes, criaria a estrutura política do Principado, considerado por muitos (inclusive eu) como a maior realização política da história. Com isso, ele sepultou definitivamente a República e deu início ao Império Romano - que duraria ainda quatro séculos tendo Roma como capital do mundo, sendo que sua vertente oriental só cairia no século XV, com a tomada de Constantinopla. Esse tirano frio e calculista foi também o Pai da Pátria e o maior gênio político da humanidade. Enfeixou todos os poderes da república em sua pessoa e governou tão bem que todo o mundo contemporâneo chegou a considerá-lo um deus. Graças a ele, as idéias e ideais da civilização grega tiveram tempo de espalhar-se pelo ocidente e, juntamente com tantos outros valores romanos, moldaram para sempre nossa civilização.
Entretanto, por uma grande injustiça consolidada pelo costume de mil anos, chamamos o Império Romano de "domínio dos Césares", assim como os reis da Europa adotaram variações de César como título: Kaiser, na Alemanha, Czar, na Rússia; na Dinamarca, Kejser; Holanda, Keizer; Islândia, Keisari, Croácia, Car, Eslováquia, Cisár, Ucrânia, Tzar, etc. No filme Gladiador, o imperador é chamado de "César", assim como em vários outros filmes e livros. É uma imprecisão: na verdade, o título de César era secundário e menor, sendo atribuído ao herdeiro presuntivo do império a partir do século II. Já no final, com o império em decadência, Diocleciano criou a tetrarquia, dividindo o império em quatro partes, com os Césares reinando em conjunto mas submetidos ao poder do Augusto. Pela força persuasiva do tempo o título de César permaneceu, enquanto o título superior de Augusto, que remetia às realizações desse homem extraordinário, foi esquecido.
Otávio chegou em Roma para vingar o tio e pai adotivo, César, em 44 a.c. – tinha 18 anos de idade. Ao vencer a batalha de Ácio, em 31 a.c., tornou-se o senhor do mundo, aos 32 anos. Reinaria ainda por 44 anos, moldando o mundo à sua imagem. Usou de todas as artimanhas, enganações, mentiras, crueldades e imposturas para vingar o pai adotivo e chegar ao poder – mas uma vez no comando do mundo, deixou de lado o tirano vil e mesquinho e se tornou durante meio século o exemplo do rei filósofo platônico, magnânimo, tolerante, sábio, justo, tendo sido considerado na sua época por quatro das principais religiões como o Messias profetizado. No leito de morte, suas últimas palavras foram: O show acabou. E já que representei bem o meu papel, deixai que, entre aplausos, eu me retire do palco. Acta Fabula Est.

1 de set de 2009

Manda bala

Minha prima, americana, chegou dos EUA para uma temporada no Brasil e me falou desse documentário. Eu tinha ouvido algo mas confundi com aquele filme, esse de ficção, sobre turistas americanos que têm seus órgãos roubados, um filmezinho de horror de péssima qualidade. Mas esse documentário mostra casos de corrupção e violência, e o faz como se houvesse uma ligação direta entre eles - e mostra também como se fosse uma coisa geral. Pega pesado com a imagem do país - e nós reagimos da mesma forma que aquelas famílias onde tem abuso ou violência doméstica: nos voltamos contra quem divulga, por vergonha, humilhados. Nas páginas de comentários dos sites que falam sobre o documentário tem centenas de comentários indignados de brasileiros, reclamando da visão do país exibida no documentário - e trazendo aquela velha retórica: "e o problema dos negros nos Estados Unidos?", "E os milhares que vocês mataram em guerras?", "E a expoliação capitalista?", e por aí vai. Como diria o filósofo do Casseta e Planeta, "cada um com seus póbrêma". No caso do documentário, existe uma generalização e uma visão simplista que liga toda a cadeia de crimes - mas têm realmente um elo comum: a impunidade. E pra quem acabou de absolver José Sarney, engolir sapos de estrangeiros deve ser a menor das vergonhas. Abaixo a sinopse e o link para o documentário, que já foi exibido em alguns dos mais conhecidos festivais internacionais de cinema, como Sundance, Roma e Berlim:

A sinopse de Manda Bala, que consta da programação do festival, vale a leitura e resume em poucas linhas o ciclo vicioso da impunidade no Brasil: "São Paulo, no Brasil, é a cidade com o maior número de helicópteros particulares e carros blindados do mundo, onde a corrupção é um investimento econômico e político e o crime é uma atividade tão difundida que é praticado como algo rotineiro. Alguns sobrevivem seqüestrando os filhos de ricos empresários. Os reféns, por sua vez, têm as orelhas mutiladas. Estas, por sua vez, são refeitas por um cirurgião plástico especializado. O inquietante lado escuro de um país onde os mais ricos roubam os mais pobres, que roubam os ricos e assim ad infinitum.
Para fazer esta detalhada investigação sobre a corrupção no Brasil, Manda Bala acompanha três personagens-chave. Um deles é um político que, para lavar dinheiro, abre uma fazenda de criação de rãs de fachada. O político? Ninguém menos que Jader Barbalho. O outro personagem é um empresário que gasta milhões para blindar seus carros. Os depoimentos deste e de outros personagens que já foram seqüestrados revelam como a indústria do seqüestro é um ramo rentável no Brasil. O terceiro é um cirurgião plástico, que reconstrói orelhas de vítimas de seqüestro.