16 de out de 2010

Saudades, verdades, eleições

Saudades desse blog! Estou tendo uma média de 10 horas/aula por dia e estou terminando uma monografia sobre Economia Solidária, o tempo é um luxo, atualmente. E também não sobra espaço na cabeça - tenho a nítida sensação de que se eu der um pulo vão cair letrinhas no chão, vazando pela orelha. Estou no limite da "eslaticidade" do cérebro, estudando Logística e equações de quarto grau, derivadas segundas e matrizes hessianas num dia, operações, MRP e pqp em outro, misturado com matérias que vão de teoria das organizações a Bourdieu, passando por Harry Collins, Guerreiro Ramos e Foucault... esses dias botei um cd com uma palestra sobre Borges e dirigi feliz, quarenta minutos de coisas que realmente interessam. Mas que vão ter que ficar para o ano que vem, mesmo.
A outra parte do título do post é sobre o atual momento político. Não voto há mais de 20 anos, acreditando que partidos são uma experiência falida no país e que os políticos que temos são o que o Millôr falava décadas atrás: no Brasil, homem público é o masculino de mulher pública (usando aí, claro, os preconceitos de cada época). Bom, isso só funcionaria perfeitamente se eu me engajasse realmente em fazer o que acredito, que seria o fortalecimento da sociedade civil de modo que, com o tempo, tivéssemos poder de pressão o suficiente para reconstruir a experiência política de fora para dentro. Confesso que não faço: apóio, escrevo, espalho, mas é o máximo que tenho feito até hoje.
Um meu alter ego brincou esses dias que a dicotomia atual já estava implícita em Marx - "a cada um de acordo com sua capacidade" envolveria a meritocracia pura de um Hayek, defendida pelos luminares do PSDB (pegando o melhor da cada proposta, por incrível que pareça), e o "a cada um de acordo com sua necessidade" envolveria a renda mínima e o welfare state com participação popular do PT. Entretanto, Hayek e Giddens sempre dão lugar ao capitalismo mais selvagem, enquanto o modelo petista tende muito mais para o centralismo estatal e stalinista, com os guias geniais dos povos substituindo a velha oligarquia por uma nova, tão atrasada quanto. Perguntaram-me várias vezes, nos últimos dias, se os programas sociais implantados e as melhorias no nível de renda e outros debates trazidos à tona e ao centro pelo atual governo não justificariam a banda podre. Fiquei em dúvida, realmente. Mas como diziam o "santo cívico" do Henfil, o Teotônio, e o JK, não tenho compromisso com o erro. Se de um lado temos os DEMos, do outro temos o PMDB e os comissários como Dirceu, uma espécie de PC Farias com ares e flama de novo Rasputin.
Marina foi uma tênue esperança, mas é um erro nos apoiarmos nesses santos cívicos se não houver movimento popular por trás. Ainda mais um "santo" que tem posições meio Torquemada... Tomara que ela fique neutra e transforme o PV em um movimento e partido realmente ideológico, para se apresentar como terceira via de fato. Mesmo que não seja como protagonista, mas uma aliança entre o PT e um PV ideológico e fortalecido seria muuuuito mais palatável do que ver Sarney, Collor e Renan se refestelando junto com os vendilhões do templo que transformaram o que foi uma bonita utopia, como o PT, num valhacouto de malfeitorias - uma minoria que mancha todo o partido, muito menos por sua existência que por sua impunidade.
Ficarei em casa de novo, que me desculpem todos os pregadores de verdades universais e absolutas. Madadayo. Ainda não.

26 de ago de 2010

38, not out! (2)

Confesso que essa é kitsch (ou brega mesmo). Mas, primeiro, em francês fica sempre bunito. E, depois, talvez, como as cartas de amor, essas declarações desabridas de amizade tenham que ser meio ridículas mesmo...


(Só apertar o play)
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É uma música da Francoise Hardy, diz assim:

L'amitié (tradução abaixo)

 
Beaucoup de mes amis sont venus des nuages
Avec soleil et pluie comme simples bagages
Ils ont fait la saison des amitiés sincères
La plus belle saison des quatre de la terre

Ils ont cette douceur des plus beaux paysages
Et la fidélité des oiseaux de passage
Dans leurs cœurs est gravée une infinie tendresse
Mais parfois dans leurs yeux se glisse la tristesse

Alors, ils viennent se chauffer chez moi
Et toi aussi tu viendras

Tu pourras repartir au fin fond des nuages
Et de nouveau sourire à bien d'autres visages
Donner autour de toi un peu de ta tendresse
Lorsqu'un autre voudra te cacher sa tristesse


Comme l'on ne sait pas ce que la vie nous donne
Il se peut qu'à mon tour je ne sois plus personne
S'il me reste un ami qui vraiment me comprenne
J'oublierai à la fois mes larmes et mes peines

Alors, peut-être je viendrai chez toi
Chauffer mon cœur à ton bois


A amizade
Muitos de meus amigos vieram das nuvens,
Com o sol e a chuva como bagagem.
Fizeram a estação da amizade sincera,
A mais bela das quatro estações da terra.

Têm a doçura das mais belas paisagens,
E a fidelidade dos pássaros migradores.
E em seu coração está gravada uma ternura infinita,
Mas, as vezes, uma tristeza aparece em seus olhos.

Então, vêm se aquecer comigo,
e você também virá.

Poderá retornar às nuvens,
E sorrir de novo a outros rostos,
Distribuir à sua volta um pouco da sua ternura,
Quando alguem quiser esconder sua tristeza.

Como não sabemos o que a vida nos dá,
Pode ser que eu não tenha mais ninguém.
Mas se me resta um amigo que realmente me compreenda,
Me esquecerei das lágrimas e penas.

Então, talvez eu vá até você aquecer
Meu coração com sua chama.

38, not out!

Para Mari, como tudo mais

Trinta e oito! Dou mais 100 anos pra Academia Sueca me reconhecer em vida e aí parto em definitivo para a  posteridade. O tempo às vezes passa voando: esse último ano passou cheio de problemas, preocupações, limitações... mas, incrivelmente, passou de uma maneira deliciosa. Voltei a estudar a fundo coisas que tinha abandonado há séculos; conheci coisas novas, idéias novas, rompi paradigmas, conceitos e modelos mentais inerciais. Acima de tudo, foi o ano em que passei inteirinho, do começo ao fim, com Mari - o primeiro de muitos, e o que talvez explique o adjetivo "delicioso".
Pensei em fazer uma longa digressão sobre os poemas Ode to a Grecian Urn, do Keats, e Sailing to Byzantium, do Yeats, mas desisti: os dois falam de maneira parecida sobre a passagem do tempo. "Essa não é terra para gente velha"... parece Pasárgada, do Bandeira nosso. Mas não: como Borges, quero conhecer todas as maneiras que os homens inventaram de ser homem. No verso de Terêncio: homo sum: humani nihil a me alienum puto. Sou homem: nada do que é humano me é estranho; nem alegrias nem tristezas, nem decepções nem surpresas, e gosto de pensar que ainda estou no início, dezenas e dezenas de anos ainda pela frente, a vela içada, o barco pronto, cada coisa em seu lugar. Metamorfoses: são os ossos do ofídio. Rocinante está mais gordo e já sorri para os moinhos de vento...
A humanidade, essa imensa e caótica coleção de pecados e alegrias, sofrimentos, desilusões e descobertas, parece cada dia mais interessante. Borges dizia que "é um desvario laborioso e empobrecedor o de compor extensos livros, e espraiar em quinhentas páginas uma idéia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento é simular que esses livros já existem e oferecer um resumo, um comentário." Posso imaginar um Quixote lúcido, lucidíssimo, que ao avistar moinhos ainda assim os ataca - sua filosofia é encarnar os ideais da cavalaria, a nobreza e a bondade da alma humana - esse homem cuja vitória seria a vitória do homem procurado por Diógenes, o homem bom que a humanidade pode um dia ser, quem sabe. Sancho descobriria, como testamento desse homem incrível, uma única frase escondida em um pergaminho do seu capacete: "se não conseguir vencê-los, ao menos faça-os rir".
A todos, que no próximo ano a vida lhes seja leve, e bela. E obrigado por fazê-la assim para mim nesse ano que passou.

13 de ago de 2010

Caminhos

Notas pessoais : estudos atuais incluem Pierre Bourdieu (para uma monografia, mas não só), com tudo que tenho encontrado; Richard Lee, Ethnographic study based on long-term fieldwork among the Dobe Ju/’hoansi of Botswana e Marshall Sahlins, com o Stone Age Economics. Collins, The Golem at Large e demais, mas confesso que cansei e estou indo "na fonte", lendo Kuhn e sua Estrutura das Revoluções Científicas - aí já parei e fui ver  Popper, que achei que o Kuhn sem o Popper faria menos sentido (e aí passei para ensaios sobre esses últimos em audiobook, que sou um só). Disciplina de Cinema e Estudos Culturais: Jameson (gosto), Harvey (não), Hall (indiferente), Bauman (não muito, mas vou usar em outra dissertação), achando que ainda faltou um tanto de gente... essa é a parte boa. Ainda tem, para desespero de causa, livros sobre Operações, Gestão, Logística (ainda sei derivadas & outras loucuras matemáticas! achei que um macaco treinado com um ábaco ia se sair melhor do que eu), Investimentos, Administração Financeira. Lembrando o Woody Allen, quando ele diz: "Fiz um curso de leitura dinâmica e li Guerra e Paz em 20 minutos. Tem a ver com a Rússia."
Para não entrar em parafuso, fui no fundo do baú buscar "As Cobras", do Veríssimo - rir é, sempre, o melhor remédio. E Mari chega hoje, então o mundo se reconstrói com ideais e esperanças, o dono da tabacaria sorri, eu vejo os céus, nevar, o mar, e vou à noite para o aeroporto fazendo mafuás, novenas, cavalhadas, comendo terra e dizendo coisas de uma ternura tão simples que é pra ela desfalecer... e aí tudo fica bom de novo. Mas as Cobras ajudaram a passar a semana e rir um pouco, no meio desse turbilhão. Eis as ditas (clique sobre cada tirinha para aumentá-la):



Realmente...

31 de jul de 2010

A meia lua

Auguste de Saint-Hilaire e alguns outros eminentes botânicos, naturalistas e viajantes fazem menção a um episódio* ocorrido com meus ancestrais que justificou a fama de selvagens dos habitantes do norte de Minas, como lugar sem respeito às leis e aos costumes. Saint-Hilaire já havia advertido outros viajantes contra os habitantes de Arraial das Formigas, atual Montes Claros, dados a roubos e outras vilanias. Antes de escrever seu Voyage dans les provinces de Rio de Janeiro et de Minas Geraes, parece ter começado a escrever uma Voyage dans arrière-pays des Taphuyas, mas foi desencorajado por esse episódio. Martius cita de passagem o acontecimento, dando um certo quê poético aos cavaleiros reunidos à luz da lua (é certo entretanto que o episódio ocorreu durante o dia). Debret aproveitou essa descrição e imortalizou o episódio, pintando cavaleiros de um clã reunidos em uma meia lua, fazendo justiça com as próprias mãos, como pode ser visto no Rijksmuseum em Amsterdã. De todo modo, esse episódio e outros dele decorrentes espalharam uma imerecida fama da minha terra como sertão brutal e sanguinário e abriu caminho para o isolamento da região pelo século seguinte (o episódio ocorreu nos idos de 1817), tendo sido meu tataravô Ramiro um dos primeiros da minha família a se aventurar fora dali – quis, num gesto romântico de liberal republicano, cumprimentar pessoalmente o Marechal Deodoro na capital da república.

***
Fim da Primeira Parte

* N. do E: Entre 1802 e 1817 (as datas não batem, alguns documentos citam 1802 enquanto outros citam leis promulgadas somente após a chegada da família real em 1806), houve um assassinato no norte de minas envolvendo membros da família do autor – primos – supostamente por ofensas pessoais. Levado a julgamento, o assassino não foi condenado, mesmo tendo confessado o crime, aliás testemunhado por uma dezena de pessoas. Numa demonstração de união familiar – e desrespeito completo às leis – todos os homens da família, todos os parentes dos primos, incluindo o pai da vítima, se postaram diante do fórum onde o julgamento acontecia – uma centena de homens armados até os dentes, alguns famosos por sua violência, outros com seus capangas e jagunços, todos em silêncio completo. Amarraram um cavalo arreado nas escadarias do fórum – não poderia haver recado mais claro. Nem o juiz nem os oficiais da lei tiveram a coragem ou a audácia de se opor aos senhores da terra e à verdadeira e brutal lei do sertão. O assassino saiu livre, inocentado de todas as acusações. Montou o cavalo arreado e foi mandado em exílio pela família para as terras de Goyaz, única punição recebida. O juiz ousou algum tempo depois admoestar um dos chefes do clã e foi morto a tiros na calada da noite. Os oficiais da lei não voltaram àquela terra por várias décadas, deixando-a entregue aos seus costumes bárbaros.

26 de jul de 2010

Livros Velhos

Os acontecimentos narrados aqui são de segunda mão: meu velho amigo está morto há anos. Numa das minhas idas à universidade (levo mais de quarenta minutos até lá, e vou escutando áudio aulas sobre os mais diversos assuntos), ouvi uma palestra sobre a chegada de Cortés ao México e os mitos criados por essa chegada - mitos de que Cortés fora tomado por um Deus (esse parcialmente verdade), outros de que os espanhóis e seus cavalos eram vistos como uma besta só (esse somente uma mentalidade eurocêntrica pode ter inventado, afinal, tirando a cor da pele, não somos tão diferentes assim). A história contada na aula, a história dos livros de história, não é a história de La Malinche, pelo menos não toda a história. Devo a umas manias de meu amigo morto e à perseguição do rei da Espanha aos marranos portugueses o desvendar o segredo de La Malinche - melhor dizendo, o segredo dos sonhos de La Malinche.

***
Cortés obviamente não falava Nahuatl, e somente uma incrível conjunção de fatores permitiu que se comunicasse com os astecas.
Alguns anos antes, Jerónimo de Aguilar tinha naufragado na costa de uma região Maya, e tinha aprendido o dialeto daquelas terras. Homem sangüíneo e vingativo, não tardou a tentar se impor aos povoados que o haviam recebido, tratado dos seus ferimentos e o abrigado. Assumia ares messiânicos, e assim que aprendeu o suficiente da língua e dos costumes, tentou fazer-se passar por um dos deuses daquele povo, exigindo ouro, honrarias e riquezas. Sua paranóia não tinha limites: vendo seu próprio naufrágio como um desígnio divino, indignava-se com a indiferença dos nativos às suas exigências e demandas, tornando-se rancoroso, violento, inconvivível. Os nativos, por sua vez, usavam de certa cautela: afinal, era um ser diferente, uma língua estranha, um comportamento chocante. Mais ao norte, entre os astecas, haviam lendas de deuses assim brancos como ele. Não se dobravam às suas exigências absurdas, mas também não tinham coragem de livrar-se dele, até que tivessem certeza não tratar-se de algum enviado dos estranhos deuses brancos dos astecas.
La Malinche era filha de nobres astecas - com a morte do pai, foi vendida como escrava e dada como morta - e  vendida para uma região falante do Maya em Yucatán. Como nobre e filha de nobre, entendia bem seu papel e o papel do seu povo; sujeitou-se a essa vilania como a Santa Maria Egipcíaca do Bandeira.
O encontro de Aguillar com La Malinche permitiu a Cortés um modo eficaz, embora lento, de se comunicar com Montezuma. O que ele não contava é que seus dois intérpretes tivessem agendas próprias: para falar com os astecas, ele tinha que falar em espanhol para Aguillar, que traduzia para o Maya, que La Malinche então traduzia para o Nahuatl. As intenções de Cortés eram duplamente deturpadas: Aguillar, com sua sede de sangue e poder, queria a destruição completa daqueles povos que acreditava terem sido enviados para puni-lo e castigá-lo, e agora queria vingança. Traduzia as frases de Cortés da maneira mais ofensiva possível, xingava os deuses, fazia exigências absurdas, denegria os interlocutores - queria causar uma guerra, queria exterminar os selvagens, os responsáveis por sua desgraça. La Malinche era uma nobre asteca; além disso, não via no rosto de Cortés nada da ira ou desejo de sangue das palavras que eram ditas. Adivinhou que a cobiça de Cortés estava sendo usada para os propósitos do homem horrendo que era a sua boca. Esse homem era só metade da sua boca: ela era a outra metade. Assim, os insultos se transformaram em ponderações, os xingamentos em elogios, as ofensas se amainavam, ela tentava abrandar e diminuir as exigências, a tornar mais suportável o jugo. Aguillar tomava as reações por pusilanimidade e covardia, e escalava os ataques: La Malinche explicava que era um possuído pelos deuses da ira, um louco tocado pelos céus, e que no final o grande general branco concordava com ela. Foi capaz de manter esse delicado equilíbrio por um tempo, meses até. O que Cortés dizia era aumentado e pervertido por Aguillar, e então diminuído e abrandado por La Malinche, de modo que a fala de Cortés acabava traduzida de modo quase perfeito. Aos poucos, La Malinche aprendeu o suficiente de espanhol para mostrar a Cortés as indignidades de Aguillar. Cortés pôs Aguillar a ferros, e esse, sob tortura, confessou todos os malefícios, mentiras e deturpações que perpretara. Seu depoimento, mesmo sob tortura, revela o demônio tomado de ira e vingança, o monstro sedento de sangue em que se transformara. Foi enviado para se tornar frade e expiar seus pecados. O navio em  que os autos de seu interrogatório seguiam para a Espanha foi tomado pelo São Gabriel, de bandeira portuguesa, e este, por sua vez, foi abordado por um corsário inglês, fazendo com que tal depoimento encontre-se atualmente no Museu Britânico. Pude ver esses autos por um favor especial de Sir Stephen, amigo de longa data: um amontoado de sonhos sanguinários misturados com penitências e visões apocalípticas. Parece que Aguillar acreditava ou chegou a acreditar que aqueles povos era os últimos remanescentes do Éden, e que ao fazer Cortés destruí-los provocaria a ira divina e o fim dos tempos. Forçaria assim o Juízo Final e a salvação última dos povos... Um louco, enfim, que por vias tortas e pela simples cobiça dos homens, conseguiu seu intento.
Livre de Aguillar, La Malinche acreditou poder dar a seu povo uma chance - aproximou-se de Cortés; tornou-se indispensável a ele. A cobiça e a sede de ouro que havia adivinhado nos primeiros contatos estava lá, ainda mais dura, ainda maior - Cortés não mais queria somente ouro, queria um império. La Malinche tinha visto povos se submetendo a outros, pagando tributos aos mais fortes - fora assim com seu próprio povo, tinha sido sempre assim. Achou que esses novos "deuses brancos", que ela sabia não serem deuses e alguns serem menos que humanos, contentariam-se com tributos e homenagens do império dos seus. Mas não: aquele brilho nos olhos de Cortés indicava que a febre dos deuses da destruição já não o deixaria. Suas terras, seus povos, seus costumes, séculos de história, deuses - tudo cederia diante do conquistador. Cortés chegara a dizer que, depois de Deus, devia a conquista da Nova Espanha a Doña Marina - até seu próprio nome perdera. Sua maldição por ter se aliado a tal pessoa fora maior do que jamais imaginara: tinha se transformado no agente da destruição do seu povo.
Por um momento desesperou-se: então, com a calma que vem das profecias realizadas, entregou-se a Cortés e lhe deu filhos; esses filhos seriam o México, seriam ensinados como seus antepassados, manteriam suas crenças e costumes, misturados com os de Cortés. Seriam um com os conquistadores, mas não seriam conquistadores nem conquistados - seriam um novo povo, um povo que carregaria consigo a memória de uma civilização morta. Enquanto estivesse viva a memória da civilização, estaria ainda viva, mesmo que tênue, a própria civilização, seu próprio povo. Começou a escrever um extenso tratado sobre todas as tradições, deuses, comidas, caminhos, festas, remédios... queria recuperar na sua prole o império perdido. Sabia que o império sobrevive mais de memórias que de monumentos. Queria toda a história do seu povo contada de geração em geração, por seus filhos e os filhos destes, como uma espécie de sociedade secreta subterrânea, que persistisse na veia do império espanhol. Seu filho mais novo morreu de malária e seu filho mais velho brincava com as armaduras espanholas aos doze anos. Entrou para a Armada aos 16, tornou-se capitão e nunca mais sequer entendeu Nahuatl. La Malinche morreu aos poucos, de tristeza. Sua copiosa obra foi tomada em uma incursão de Drake, em 1577, e foi vendida junto com outras quinquilharias para um judeu português de Amsterdã, da Casa Pinto. Este ajudou a minha família a fugir de Portugal quando do domínio espanhol, por volta de 1640, e enviou junto parte dos seus tesouros, incluindo esse "códice Malinche". Pertence aos arquivos do meu amigo morto, e lá está, largado, empoeirado. Com sua morte já se vão as provas das peripécias e caminhos percorridos pelo códice, assim como suas interpretações, as tentativas cuidadosas de tradução que levou décadas fazendo. Tudo inútil, um esforço quixotesco de reviver através de palavras e memórias os desejos de um império extinto. Nem mesmo um império: reviver os gritos desesperados e escritos daquela que foi algoz de um império e mãe de outro, sem querer ser nem uma coisa nem outra. Mas nada adianta: o códice já quase se desmancha - ilegível, misturando um mal espanhol com uma invenção de alfabeto fonético Nahuatl, sobrevive ainda, entretanto, esfarinhando-se aos poucos - a última tentativa de ressuscitar um império, a primeira que conheço através da memória.

25 de jul de 2010

Blogando

Um meu amigo, autor de alguns livros de relativo sucesso (nenhum bestseller, entretanto), ao encontrar algum leitor que dizia: "Li seu livro e..." interrompia imediatamente: "Ah, foi você!". Como se soubesse ter um só leitor e se espantasse por encontrá-lo assim, no meio da rua. Ou então se espantasse mais ainda com o fato de alguém de fato ter lido o que ele escreveu.
Meu caso é até um pouco pior: como escrevo um blog que não tenho muita intenção de divulgar, enviando posts por email para alguns poucos amigos, acabo conhecendo a maior parte dos meus leitores (sei que só lêem alguma coisa e de vez em quando, a paciência não dá pra tanto, claro). E ultimamente tenho escrito cada vez menos.
Foi inicialmente um exercício quase de "journal", de diário, como aqueles adolescentes, mas tentando dividir coisas e conhecimentos que tinha, colecionador que sou - vídeos, fitas em VHS guardadas por séculos, dvds e cursos garimpados aqui e ali, livros e tirinhas colecionados desde sempre. Uma espécie de abertura de baú de guardados.
Evoluiu para incluir uma certa memorabilia, os casos e causos de Salinas, os meus, as besteiras e irresponsabilidades, os amigos e loucuras, etc. Aos poucos, foram se imiscuindo textos mais ou menos literários, filosóficos, com opiniões sobre tudo e todos, seguindo a afirmação do Otto Lara de que, como bom brasileiro, sei os três primeiros minutos de qualquer assunto.
Serviu todo esse tempo para testar escritas, discursos, parábolas, hipóteses, hipérboles... mal ou bem, minha maneira de escrever saiu diferente. Mas o "público", por pequeno que fosse, tinha suas preferências, fossem os causos, fossem as loucuras e viagens. Infelizmente, tive nos últimos tempos um bloqueio muito forte para escrever: não consigo, pelo menos não por enquanto, escrever sobre coisas que não ocupam minha mente. Acho que até me faria bem ir para um buteco e sentar e contar causos como nos velhos tempos. Ou "mergulhar minha pena no inferno" e sair esculhambando uns e outros. Ainda é uma diversão, isso, não nego. Mas a cabeça agora anda à procura de respostas sobre a formação do herói civilizador, dos gregos ao santo de Unamuno, Nosso Senhor Dom Quixote. De como sociedades inteiras passaram a ter vontades além das próprias necessidades, deixaram a afluência da natureza pela miragem satânica da técnica ou pela promessa deificante e demiúrgica da ciência, das respostas sobre o universo - desejo de que compartilho, inclusive. Quando o saber tornou-se primordial para a espécie? Ou é um subproduto do progresso técnico científico, brincadeira de gente à margem que só é realmente respeitável quando útil?
Junto a essas indagações, debruço-me sobre a minha "bela loucura", que é entender o argentino louco, Borges - traçando suas origens em rapsodos e skalds, o rompimento do eu autoral com deixar de lado reivindicações de autoria e passar a "acusações" de autoria, basicamente inventando autores e textos ou inventando textos para autores reais e vice versa, ao mesmo tempo que dilui e fragmenta os famosos cronotopos de Bakhtin - uma espécie de profeta-avatar da pós modernidade e da diluição das identidades.
A "undécima tese" de Marx sobre Feuerbach dizia que era hora dos filósofos pararem de interpretar o mundo e começarem a transformá-lo. Não mais que cinqüenta anos depois Eliot abandonou a filosofia por saber que os filósofos são bons com idéias, mas a origem e a "verdade" encontra-se nas palavras. Como Mallarmé para Degas, quando este disse que tinha ótimas idéias para fazer poesia: "Mas não são com idéias que se faz poesia, e sim com palavras". As visões de fragmentação de realidade, tempo, espaço, identidade e discurso talvez formem uma nova armadura para o Santo de Unamuno, e este, o Dom, na sua loucura e tragicidade, transforme-se no último dos heróis.
Bão, é isso... o que queria dizer mesmo é que esse blog transforma-se em algo bastante árido e talvez semilouco, a partir de hoje. Divagações, contos, teorias... aos que não quiserem (ou agüentarem a chatura), agradeço a paciência até aqui, com o maior prazer de ter tido sua companhia, mesmo, mesmo. Aos demais, tão loucos quanto eu por perderem tempo comigo, cutuquem, comentem, gritem, xinguem... ninguém mais do que eu tem menos idéia de onde isso vai dar.

5 de jul de 2010

Multiculturalismos

Eu sou definitivamente e completamente contra os multiculturalistas, e só por fazer afirmações desse tipo já fui execrado algumas vezes. Parece que os multiculturalistas da literatura são diferentes dos multiculturalistas da antropologia ou ciências sociais. Reduzindo o assunto, os multiculturalistas a que me refiro são os intelectuais que do meio para o fim do século XX começaram a relativizar os juizos de valor sobre as "obras canônicas" da literatura ocidental. Errado? Não necessariamente. O Leopold Senghor, por exemplo, fala muito sobre como os africanos de seu país, o Senegal, costumam "dançar" uma idéia ou um pensamento para melhor se apropriar dele - a importância do movimento, da arte e da dança no entendimento do mundo, uma coisa integrada e plástica, o tornar-se um com a natureza e/ou com o pensamento. Imaginem agora um livro ou romance proveniente dessa cultura: uma cena de dança, nesse livro, seria lido por "nós ocidentais" como uma passagem a mais, e pode ter importância fundamental para o autor. São milhares de exemplos assim, claro - mesmo a escrita feminina e masculina apresentam diferenças fundamentais, embora mais próximas se são da mesma cultura. É bastante claro para mim que as importâncias e valores são e devem mesmo ser relativos.

Mas não devem ser relativizados: o multiculturalismo na literatura faz dessa bandeira uma ideologia, e simplesmente se recusa a avaliar ou fazer qualquer juízo a respeito de qualquer tipo de literatura, e com isso não concordo mesmo. O ponto de vista de quem lê é o que conta - obviamente, para quem lê - e me recuso a deixar de dizer que acho esta ou aquela literatura ou este ou aquele livro bom ou ruim porque foi feito por um africano ou asiático ou uma mulher ou um polinésio albino anão. Em uma dessas discussões, um amigo pontificava sobre a injustiça de que entre os 10 melhores escritores de todos os tempos não tinha nenhuma mulher e nenhum negro. Mas o argumento não era valor literário, era quase valor estatístico - e essa é minha birra. A escolha de um cânone é pessoal e é cultural - o cânone visto como paideuma poundiano, a parte mais viva de uma cultura. É óbvio que o juízo de valor é isso: um juízo de valor, parcial e incompleto. Mas melhor do que qualquer coleção estatística de ações afirmativas em cima da arte. Daqui uns dias, a se seguir essas idéias, o Nobel de literatura vai ser um concurso de minorias não premiadas ou etnias exóticas.
O perigo (que acho até que devia ser o que os puros queriam evitar) é deixar o preconceito de uma cultura impedir o reconhecimento do valor em outra - e isso aconteceu e acontece o tempo todo. Desde os franceses, que, ao chegarem na América e verem um nativo fumando tabaco pela primeira vez, jogaram um balde d'água no coitado pra apagar o fogo, até os romanos descrevendo um alce como sendo uma mistura entre veado e cavalo com chifres, ou sei lá qual reação dos neandertais às ferramentas dos homo sapiens. Um caso exemplar é a imagem abaixo, uma cabeça de Ife, antiga cidade da África, na atual Nigéria. Quando descoberta, causou enorme espanto entre os arqueólogos pela delicadeza de suas linhas e perfeição dos traços. Um arqueólogo alemão do início do século XX chegou a conjecturar se não seria oriunda da mítica Antlântida, ou de algum antepassado perdido dos gregos - recusava-se a acreditar que os ancestrais dos africanos fossem capazes de fazer tal obra de arte. Outro chegou a afirmar que a partir daquele momento a "arte dos negros" devia ser olhada com outros olhos - mas usou o depreciativo "nigro", em algo como "a arte dos negões". O Joseph Brodsky tem uma frase ótima que diz que o habitante das cidades teme o nômade não porque estes podem destruir suas aldeias, roubar suas casas ou matar suas mulheres, mas porque ele destrói sua idéia de horizonte. Esse destruir horizontes estabelecidos é função de toda arte, acho. O encontro de culturas executa esse papel salutar, de destruir e ampliar horizontes, confrontar idéias, mostrar novas formas e novos rumos. O que não pode servir de desculpa para a estatística se estabelecer como método de avaliação crítica.

30 de jun de 2010

Solução Política

Vejo a briga cada vez mais acirrada pela Presidência da República e fico pensando: qual o fator motivador de tanto desejo, tanta cobiça, raiva, vaidade? Desejo de servir ao público? Nunca. Ninguém luta assim a não ser pela sede desvirtuada e desmedida de poder. Ou por fanatismo, o que não é o caso, a não ser que seja alguma modalidade nova de culto à própria personalidade. Uma vergonha - parecem lobos famintos, hienas, abutres. Deu vontade de fazer um vídeo com imagens interpostas das enchentes, fome, miséria. Mas ficaria localizado: aqui, esses apetites são alimentados às custas de vidas, pessoas morrem de fome, morrem por falta de atendimento médico, milhões têm usurpadas suas chances de uma vida digna. Mas os mesmos apetites flagelam os americanos, que morrem de armas nas mãos defendendo interesses escusos de uma oligarquia envelhecida e encarquilhada.
Escrevi esses dias sobre Cincinatus, o romano que, chamado para salvar a pátria (literalmente), foi investido de todos os poderes, nomeado ditador - e ao invés de ser corrompido pelo poder absoluto, após cumprir sua missão, retirou-se para o seu arado e suas terras, sem nenhum proveito pessoal. Italo Calvino, em seu conto "A Decapitação dos Chefes", faz uma proposta ainda mais tentadora: todos os chefes, depois de cumpridos os seus mandatos, são decapitados. No conto, o fervor cívico e a vontade de cumprir seu papel dão a motivação necessária a essa espécie de sacerdócio suicida. Talvez pudéssemos adaptar a situação para o Brasil, colocando ao invés de decapitação, fuzilamento. E uma loteria para decidir quem faria parte do pelotão. Mas a idéia subjacente ao conto é que somente as motivações puras deveriam ser aceitas - a morte como conseqüência seria uma forma de garantir isso. Sei não, acho que o Calvino subestimou a capacidade intrínseca da canalhice humana e do fanatismo. Mas a intenção é boa.
Eu, por outro lado, faria uma proposta mais tecnológica e mais desesperançada: usaria todas as opções atuais para expor ao máximo cada pessoa que entrasse na política. Todos os seus extratos bancários, contas, telefonemas, tudo, tudo, devia estar na rede em tempo real - até a quarta geração e quinto grau de parentesco, sei lá. Todas as passagens aéres, todas as conversas, tudo. Inventaríamos o "homem de vidro", tão temido, mas a nosso favor. O perigo seria transformar esse "big brother a favor" em um misto de novela mexicana e circo de horrores, e decepcionar-me de vez com a natureza humana. Maluf-ficha-limpa, Sarney e companhia que o digam.

28 de jun de 2010

O atual Rei da França - Eliot e Espelhos

"Devo à conjunção de um espelho e de uma enciclopédia o descobrimento de Uqbar" - frase inicial do conto de Borges. Há um ano atrás estava fazendo uma ligação entre Unamuno, filósofo, poeta e louco espanhol, com sua "religião" do Nosso Senhor Dom Quixote, e a Paidéia grega - continuo achando fantástica a maneira como Unamuno nega a derrota para uma vida sem sentido: como ele adota o heroísmo aparentemente sem sentido do Dom e o transforma em um "sentido trágico da vida", que lhe dá ao mesmo tempo a alegria de viver e a justificativa estética da existência - a única que conta, segundo Nietzsche. Mas as conjunções entre leituras&viagens&pensamentos me levaram a outros caminhos, não opostos mas diversos. E recomecei a ler Borges, de quem tinha certa birra. Não vou contar aqui como se deu o "enamoramento", mas foi o mesmo sentido inicial que me levou a Unamuno - e uma frase dele, Borges, "as inumeráveis maneiras que os homens conhecem de ser homem", que é a minha busca, meu encantamento com um mundo onde as várias experiências humanas vão tecendo histórias quase fantásticas, os pequenos macacos pelados aos poucos se transformando em demiurgos - e tiranos, e loucos, e assassinos, também.
Em minha procura por entender como funciona essa literatura borgiana, que escapa da realidade e a recria a partir da palavra, encontrei por acaso a tese do T. S. Eliot. Eliot, graduado em filosofia, estudou com parte considerável dos grandes filósofos da sua época, como Santayana, Bertrand Russel e Josiah Royce, além de frequentar Bergson. Eliot abandona a filosofia por considerar, entre outras coisas, que os filósofos não prestam atenção às palavras - e a palavra é o início da realidade para ele. De fato, segundo sua tese, nenhuma teoria pode ser provada falsa, uma vez que se adotem as premissas de quem a propõe. Eliot chega a um relativismo absoluto, onde nenhuma explicação da realidade é falsa, nenhuma teoria é inverdade, pois há sempre maneiras de adotar as premissas propostas (isso, claro e para variar, é uma simplificação).
Na época de Eliot havia um "problema" interessante que ilustra o ponto de vista dele: a frase "o atual Rei da França é careca" fazia parte de uma disputa filosófica de então, e praticamente todo mundo tomava um partido a seu respeito. O problema, que Russel, entre outros, tentava resolver, envolvia uma disputa em torno de proposições lógicas e a proposta, por Russel, de uma teoria da descrição. Discussões arcanas sobre problemas mais: não há rei da França atualmente, então, como ele pode ser careca? Mas a negação da frase, "o atual rei da França não é careca", não pode também ser verdadeira. E a frase não é sem sentido - há um sentido, mas não há correspondente real ao sentido. Eliot, desgostoso com o que ele considerava discussões vazias, não entra no problema em si, mas diz que "the current King of France already is": o atual rei da França já existe, isto é, adquiriu existência própria a partir da palavra.
Esse é o mote e o alicerce de Borges: a linguagem, isto é, as palavras, são não só a interface entre natureza e pensamento, imanentemente descritivas - são criadoras de realidades, não menos verdadeiras que as realidades simplesmente descritas. Uma vez que possa ser imaginada, qualquer realidade é possível. Toda a labiríntica obra do argentino se volta para a criação e multiplicação dessas realidades, esgarçando o tecido da "realidade conhecida" ao multiplicá-lo ad infinitum. Até que, em Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, esse tecido começa a ceder...

Sobre o "problema" do careca francês, ver Wikipédia aqui.
Uma breve biografia do Eliot aqui.

17 de jun de 2010

Bloomsday

Ontem, 16 de junho, fez 106 anos que Leopold Bloom saiu para viver o dia retratado em Ulysses, de James Joyce. Pessoalmente, vejo o Ulysses como a coroação do processo de fragmentação paleomodernista, na linha de Pound e Eliot, por sua vez uma resultante dos embates entre "simbolistas" e "realistas", de Mallarmé a Yeats, na busca de um significado para a literatura, que compõe a Biblioteca, que alguns chamam de Universo... O "discurso modernista" é duo, os neomodernistas tentando "construir do zero" e os paleomodernistas a partir da tradição. O que dá um contraste fantástico e uma nomenclatura esquizofrênica: aqui, a antropofagia seria uma mistura dos dois, mas eu a colocaria na lista dos paleomodernismos, que não é absolutamente tradicional: só constrói a partir dali, como o diálogo erudito, framentário e labiríntico que Joyce faz com a cultura ocidental em Ulysses - não por acaso nomeado a partir da Odisséia. Essas duas linhas se diferenciariam ainda mais na multitude de discursos pós-modernos, mas o grande avatar projetado das entranhas grávidas do paleomodernismo é Jorge Luis Borges - e, por aqui, arriscaria dizer que o Leminski do Catatau e dos haicais se enquadraria nessa linha, com ainda mais força que o Haroldo do Galáxias. Como nos livros do conto borgiano "A Biblioteca de Babel", a literatura vai se compondo de variantes possíveis e completando o projeto de emular o Universo, composto inteiramente de livros que contam todas as histórias da História, reais ou imaginadas ou não, e ainda muito mais. Assim também com os homens: em "Os Tradutores das Mil e Uma Noites", Borges diz de Richard Burton que ele era um "capitão inglês que tinha a paixão da geografia e das inumeráveis maneiras que os homens conhecem de ser homem". Essa multiplicidade de escritas e discursos me encanta exatamente por isso: mostra as inumeráveis, infinitas e belas maneiras que os humanos conhecem de serem humanos e contarem as histórias e fábulas e sonhos da humanidade, e a reinventarem continuamente.
Já quanto aos "gêneros" e "escolas" literárias, nenhum grande escritor se enquadra nelas, apesar de alguns serem quase arquétipos das suas pretensões. Lembram-me a história da Sibila - nesse mito grego, o deus Apolo concede um desejo a Sibila, e ela pede a imortalidade. Esquece-se da propensão ao sadismo (ou da propensão a divertir-se às custas dos humanos) que Apolo repetidamente mostra: ele concede a ela a imortalidade, mas não a juventude eterna. Sibila vive, mas envelhece: mil anos depois, dela só resta a voz. Como os gregos, chineses, provençais e tantos outros, a literatura envelhece, mesmo que imortal - desses grandes do passado restam somente essa voz, mas que às vezes ainda soa retumbante.

16 de jun de 2010

O Riso

......Aristóteles fazia uma diferenciação entre tragédia e comédia (peças) que, grosso modo, pode ser resumida em dizer que a tragédia escolhe o que representar, o drama, os atos extremos, os acontecimentos e desastres que levam a um final dramático e trágico, e a comédia mostra tudo, tudo - o que, levando o argumento um pouco mais adiante, poderia incluir o silogismo de que toda tragédia tem seus elementos de comédia. Bergson, ao analisar o riso, mostra-o como um componente quase de controle social: ri-se do que está fora do normal, comportamentos inadequados, fora de lugar, de hora, etc. (estou simplificando para meus próprios objetivos escusos). De certa forma, o riso vem sempre de uma percepção de deslocamento entre o que se vê ou se percebe e o que é esperado e normal, seja em atos ou palavras. Um desconcerto, um desacerto, um jogo de palavras... Freud dá vários exemplos que adoro, em seu "O chiste e sua relação com o inconsciente": tal defeito é um dos quatro calcanhares de Aquiles daquela pessoa... como quem tem quatro calcanhares não é uma pessoa, é um animal, o chiste é perfeito. Outro, de mais difícil entendimento atualmente, foi o de uma figura da época (do Freud) afirmar que um tal político fez um grande ato e depois, como Cincinatus, voltou para o seu lugar à frente do arado. Cincinatus, mítico avatar das virtudes romanas, era um cidadão romano que, chamado pela República, a defendeu, comandou exércitos, reformou leis, derrotou inimigos e depois, quietamente, voltou às suas terras, como antes, sem qualquer proveito pessoal que não honrar a pátria. Mas a figura romana voltou para trás do arado, quem fica na frente do arado é o animal!
......Uma minha teoria, que levarei adiante em um conto, é que o Universo é um ser consciente, cujo corpo é composto por toda a matéria existente. Esse ser, gestado numa explosão primordial, é ao mesmo tempo completo e angustiado: não sabe o propósito da própria existência. Assim, subdivide-se em seres conscientes, especulares, miríades de seres senscientes que andam, falam, nascem e morrem, numa tentativa talvez inútil de entender-se a si próprio. Um desses seres - eu - estive em Bonito, no Mato Grosso do Sul, no meio de paisagens exuberantes, cascatas e cachoeiras, pássaros de cores fantásticas, águas de uma transparência incrível, num dos lugares mais belos em que já estive. Mas, como sabia o velho grego, se se incluir toda a história... a temperatura era de uns 10 a 15 graus, bastante frio, e todos os passeios envolviam água. Num dos dias, passeio de bote: com direito a "guerra de balde". Divertidíssimo, principalmente dar baldadas a essa temperatura. Me entusiasmei e dei uma, duas, três baldadas em cheio no "bote inimigo" - na quarta baldada o universo conspirou e fui junto com o maldito do balde, num spláaaaf dentro dágua, e passei o resto do tempo tendo que usar uma pinça para ir ao banheiro. No último dia, flutuação em um dos rios mais transparentes que já vi, com máscara, snorkel, etc. E roupa de neoprene... apertadíssima, justíssima, vesti um pedaço e fomos andando até o rio. No caminho, ao colocar a roupa completa, fiquei um cruzamento de pingüim com castrato italiano: o passo bamboleante e a voz fina - mas tudo pela beleza do lugar. Uns 400 metros depois, consegui ainda articular numa voz fininha pra um dos amigos que foi junto: "Léo, Léo, será que depois dessa a gente ainda consegue reproduzir?!"

30 de mai de 2010

Espelhos

Abomináveis são os espelhos e as cópulas, porque multiplicam o número dos homens... sentença de um dos heresiarcas de Uqbar, sublime invenção de Borges. Nessa multiplicação de homens os espelhos multiplicam também realidades - a famosa caixa de biscoitos que tem um personagem segurando uma caixa de biscoito exatamente igual à primeira, portanto com o mesmo personagem segurando uma caixa de biscoito e assim ad infinitum. Essa multiplicação ilusória de realidades prevê também uma armadilha de tempo-espaço: no Dom Quixote, o personagem lê o livro Dom Quixote em determinado momento - o que levaria a crer que em algum momento leria sobre Dom Quixote lendo Dom Quixote lendo Dom Quixote, também ao infinito - como uma fenda no espaço-tempo, uma multiplicação especular de realidades. Claro, a "armadilha temporal" não acontece porque o personagem simplesmente lê outra linha, a caixa de biscoitos é deixada de lado. Mas durante um lapso de tempo a realidade se fragmenta e se multiplica não pela existência real de múltiplos universos mas pela sua possibilidade. É como o paradoxo de Zenon: se Aquiles e uma tartaruga disputassem uma corrida, e fosse dada uma vantagem para a tartaruga, Aquiles nunca a alcançaria: dado que a distância entre Aquiles e a tartaruga pode ser colocada uma em função da outra, cada avanço de Aquiles corresponderia a um avanço da tartaruga, como fração do avanço de Aquiles - com frações cada vez menores, tendendo ao infinito, mas nunca a zero. O paradoxo se baseia na teoria do espaço infinitamente divisível e a intuição falha ao não perceber que uma soma de termos infinitos não vai ser necessariamente também infinita. Mas a teoria de criação das realidades a partir das palavras em Borges não falha: esses nexos espaço-temporais parecem basear-se nas premissas contidas na tese de T. S. Eliot, onde este afirma que a palavra é o início do universo e a realidade é meramente um conceito derivado.
Hummmm... realmente, de vez em quando a mente salta dos trilhos em uma curva psicodélica. Leminski: sol fazia, só não fazia sentido...

PS: Pode parecer bobo, o paradoxo, uma vez que parece lógico que se alguém corre mais que outro alguém, dado um determinado tempo o mais rápido fatalmente ultrapassará o mais lento. Mas levou um tempo para provar o contrário... vejam essa explicação de um seminário sobre Cantor, na Universidade de Lisboa (sobre as teorias do infinito em Cantor):

"A demonstração de Cantor de que a totalidade de um conjunto infinito (tal como o número de pontos do percurso) não tem de ser maior do que as suas partes (tal como os segmentos do percurso) clarifica este aspecto do paradoxo de Aquiles e a Tartaruga: Aquiles não tem de percorrer mais pontos do que a Tartaruga. Ele tem de percorrer exactamente os mesmos: um número infinito de pontos.

A questão acerca da forma como os corredores podem percorrer um número infinito de pontos numa porção finita de tempo (ou tempo dividido num número infinito de instantes) é resolvida em parte pela teoria dos irracionais de Cantor, que mostra que a soma de uma série infinita de números racionais pode ser um número finito, e em parte pela teoria da unificação do espaço-tempo de Einstein. "

http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/seminario/cantor/aquilestartaruga.htm

22 de mai de 2010

Borges, fragmentos

"Desvario laborioso e empobrecedor o de compor extensos livros; o de espraiar em quinhentas páginas uma idéia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento é simular que esses livros já existem e oferecer um resumo, um comentário. Assim procedeu Carlyle em Sartor Resartus; assim Butler em The Fair Haven; obras que têm a imperfeição de serem também livros, não menos tautológicos que os outros. Mais razoável, mais inepto, mais preguiçoso, preferi a escrita de notas sobre livros imaginários."

in Ficções

21 de mai de 2010

Significações (e besteiras)

(Para o Leo)

O Facebook às vezes me inspira: principalmente o de alguns amigos, que vão compartilhando idéias, pensamentos soltos, um mosaico de interesses que vão dando uma idéia meio psicodélica, em retalhos, do que "anda por aí". Um comentário no mural do Leo Gonçalves (poeta e tradutor que é um dos meus "sempre encontráveis" segundo a idéia do Rosa) dizia - acho que um amigo dele, na verdade - que podia ter até alguns erros de português, mas de brasileiro, nenhum. O Stephen Fry diz que não há má gramática, só má sintaxe - pensamentos expressos de forma inconsistente, o que seria o único problema. Claro que há por aí terríveis exemplos disso, e às vezes me surpreendo com um amigo ou outro que é super articulado "oralmente" e quando escreve é um desastre - não um desastre ortográfico ou gramatical puramente, que me é irrelevante, mas ruído mesmo entre o que ele queria dizer e o que eu supostamente deveria entender.
Eu, às vezes, faço o contrário: quando escrevo expresso todos os pensamentos, talvez por reler e rever idéias, mas, pessoalmente, expresso metade do que penso, deixando a outra metade na cabeça, e aí o pobre do ouvinte tem que juntar os pedaços e inferir o resto pra fazer sentido.
Bão, até não era disso que eu queria falar, é que sobre os "erros de brasileiro" ou "erros de português", tem um com uma história que eu acho interessantíssima, por ter uma origem "super culta" e ser usado oralmente como se fosse uma gíria vulgar: busilis, criado por uma infeliz tentativa de tradução do latim por Felipe Segundo da Espanha. Cito Rodolfo Ilari: "Conta-se que, ao deparar-se com a expressão “in die busillis” (naqueles dias), no meio de uma tradução latina, o futuro rei separou “in die busillis”. A partir dessa separação, ele conseguiu traduzir “in die” (no dia) mas ficou com o problema de traduzir “busillis” (que não significa nada). Até hoje, quando se quer apontar uma dificuldade, pode-se dizer, em espanhol: “aquí está el busílis”, “aqui está o nó da questão”."
De certa forma, uma tradição real, já que um caso similar aconteceu com Sigismundo, imperador do Sacro Império Romano-Germânico em 1414. Ele usou a palavra cisma, schisma, que em latim é neutra e para nós é masculina (no sentido de separação, "o cisma"), como se fosse um substantivo feminino. Como alguns bispos tentaram alertá-lo e corrigi-lo, ele resolveu decretar que dali em diante a palavra passasse a ser usada no feminino, por força de lei, ao que um bispo mais corajoso interpôs o "caesar non supra grammatica": o rei não está acima da gramática. O rei não. Mas o povo, sim. A oralidade e as transformações diárias são uma das mais belas formas de manifestação cultural que conheço. Acho que a gente passa tempo demais estudando as "fôrmas" da língua e tempo de menos estudando suas significações.

3 de mai de 2010

Geografia Eleitoral

A petista Dilma Rousseff cometeu uma gafe em entrevista gravada que concedeu à sua própria assessoria e que foi ao ar na noite desse domingo. Ao falar do filme "Vidas Secas" (1963), de Nelson Pereira dos Santos, a pré-candidata à Presidência disse que a história retrata "todo o problema da miséria, da pobreza, da saída das pessoas do Nordeste pro Brasil".

Isso remete a um diálogo da Graúna com o Bode Orelana, nos idos da ditadura que a candidata combateu: Graúna vem correndo, alegre, dizendo que a Anistia vai sair e que todos vão poder "voltar pro Brasil". O Bode Orelana pergunta:
- E onde você acha que o Nordeste fica, Graúna?
- O Nordeste fica no Nordeste, ora bolas!
- O Nordeste fica no Brasil, ô ecil!!!!, grita o bode.
Graúna não perde a pose, e cochicha pro Orelana: "Cê fica denegrindo a imagem do Brasil que eles não te deixam voltar!"
Henfil em um de seus instantâneos inspirados - ele que tanto criticava o pessoal do "sul-maravilha". Quem diria que uns trinta anos depois a tirinha ia pular para a realidade...

29 de abr de 2010

Orelha verde

"[A Biblioteca] compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no centro, cercados por balaustradas baixíssimas. De qualquer hexágono, vêem-se os andares inferiores e superiores: interminavelmente. A distribuição das galerias é invariável. Vinte prateleiras, em cinco longas estantes de cada lado, cobrem todos os lados menos dois; sua altura, que é a dos andares, excede apenas a de um bibliotecário normal. "

"A cada um dos muros de cada hexágono correspondem cinco estantes; cada estante encerra trinta e dois livros de formato uniforme; cada livro é de quatrocentas e dez páginas; cada página, de quarenta linhas; cada linha, de umas oitenta letras de cor preta."

"Essa comprovação permitiu, depois de trezentos anos, formular uma teoria geral da Biblioteca e resolver satisfatoriamente o problema que nenhuma conjectura decifrara: a natureza disforme e caótica de quase todos os livros. Um, que meu pai viu em um hexágono do circuito quinze noventa e quatro, constava das letras M C V perversamente repetidas da primeira linha ate à última. Outro (muito consultado nesta área) é um simples labirinto de letras, mas a página penúltima diz Oh, tempo, tuas pirâmides."

A Biblioteca de Babel

O que Borges faz, em sua biblioteca (que alguns chamam de Universo), é mostrar as infinitas possibilidades da realidade. Os livros são combinações aleatórias de símbolos, o que permite uma extensão interminável mas não infinita (existe uma sugestão óbvia de que existem outras bibliotecas com número maior ou menor de páginas em cada livro, ou com formatos e números diferentes de estantes, ou com mais linhas em cada página, ad infinitum). Seria possível, então, existirem dois livros praticamente iguais, mas em que na linha 8 da página 206 uma palavra teve a letra "b" substituída por "z" - e assim em todas as combinações possíveis. Portanto, se existe um livro para descrever uma realidade no seus mínimos detalhes, existirá então um número infinito de livros que descrevem realidades semelhantes com diferença em alguns ou um detalhe, talvez irrelevante. Posso imaginar uma realidade onde todos têm uma das orelhas verde, e a civilização é em tudo igual à nossa, nos mais ínfimos detalhes. Em outra, isso (a orelha verde) é de conhecimento comum e Vermeer não pintou a "Moça com Brinco de Pérola".

*Em uma terceira, o uso da luz e a transparência dada a essa pintura precipitou o movimento conhecido como imagismo.

Borgianas

Um dos "pecados" de Borges, a meu ver, é sua falta de humor. Ele é talvez sério e autoconsciente demais, embora toda a sua obra seja uma refinada ironia da realidade. Entretanto, essa ironia às vezes ultrapassa a metalinguagem e a metafísica (seria mais correto se se entendesse que essa metafísica se refere a realidades inventadas) e comete construções e descrições deliciosas. O estereótipo perfeito do inglês, abaixo:
"Alguma lembrança limitada e diluída de Herbert Ashe, engenheiro das ferrovias do Sul, persiste no hotel de Adrogué, entre as efusivas madressilvas e no fundo ilusório dos espelhos. Em vida padeceu de irrealidade, como tantos ingleses; morto, não é sequer o fantasma que já era então. Era alto e apático, e a sua canosa barba retangular havia sido ruiva. Creio que era viúvo, sem filhos. De tantos em tantos anos ia a Inglaterra: visitar (julgo eu por umas fotografias que nos mostrou) um relógio de sol e uns carvalhos. O meu pai estreitara com ele (o verbo é excessivo) uma dessas amizades inglesas que começam por excluir as confidências e que muito em breve omitem o diálogo."
Tlön, Uqbar, Orbis Tertius

27 de abr de 2010

Ezra Pound

Pound foi provavelmente a influência única mais duradoura em meus estudos de literatura. Tanto como guia como adversário: a primeira vez que li a sua concepção de "paideuma" achei de uma arrogância sem limites. O paideuma seria, nas suas palavras, "a ordenação do conhecimento de modo que o próximo homem (ou geração) possa achar, o mais rapidamente possível, a parte viva dele e gastar um mínimo de tempo com itens obsoletos”. E, claro, a "parte viva" era escolhida por ele! Li então de maneira onívora, tudo que achava pela frente. Se tivesse lido só o paideuma poundiano teria sido mais eficiente... o louco estava certo. Suas lições de poética, de literatura, o make it new, a carga de cultura a que a gente aspira para ler os Cantos na sua totalidade... a condensação como virtude necessária, o fazer exato. "O que quero dizer é que um teólogo medieval tinha o cuidado de não definir um cachorro em termos que sei para se aplicar igualmente ao dente do cachorro ou ou ao barulho que ele faz quando bebe água; mas todos os seus professores dirão a vocês que a ciência se desenvolveu mais rapidamente depois que Bacon sugeriu o exame direto dos fenômenos e depois que Galileu e outros cessaram de discutir as coisas em excesso e começaram a olhar realmente para elas e a inventar instrumentos (como o telescópio) para vê-las melhor". O exame direto e comparativo da poesia, da literatura, sem preconceitos. Ressuscitou continentes poéticos como os provençais. Descobriu a poesia chinesa para o ocidente. Vanguarda da vanguarda. "Certa vez", conta Luciano Ancescchi, "apresentaram a Pound um famoso livro de estética filosófica". Ao restituí-lo, o poeta disse no seu italiano peculiar: "Tutto belissimo, ma non fonctiona". Estou traduzindo e legendando um vídeo chamado Ezra Pound - Voices and Visions. A primeira parte abaixo, seguida de alguns trechos do seu ótimo ABC da Literatura:



"Para Pound, o método adequado de estudar literatura é o método dos biologistas: exame cuidadoso e direto da matéria, e contínua COMPARAÇÃO de uma lâmina ou espécime com outra. Este o seu método ideogrâmico (crítica via comparação e tradução). Derivou-o do estudo de Ernest Fenollosa sobre o ideograma chinês (The Chinese Written Character as a Médium for Poetry): "Em contraste com o método da abstração ou de definir as coisas em termos sucessivamente mais e mais genéricos, Fenollosa encarece o método da ciência, "que é o método da poesia", distinto do método da "discussão filosófica", e que é o meio de que se servem os chineses em sua ideografia ou escrita de figuras abreviadas.""
(...)
"Os escritores são por ele classificados nas seguintes categorias: 1 — Inventores. Homens que descobriram um novo processo, ou cuja obra nos dá o primeiro exemplo conhecido de um processo; 2 — Mestres, Homens que combinaram ura certo número de tais processos e que os usaram tão bem ou melhor que os inventores; 3 — Diluidores. Homens que vieram depois das duas primeiras espécies de escritor e não foram capazes de realizar tão bem o trabalho; 4 — Bons escritores sem qualidades salientes (a classe que produz a maior parte do que se escreve). Homens que fazem mais ou menos boa obra em mais ou menos bom estilo do período. Sonetistas do tempo de Dante, etc. "Ils n'existent pas, leur ambiance leur confert une existence."; 5 — Belles Lettres. Os que realmente não inventaram nada, mas se especializaram numa parte particular da arte de escrever 6 — Lançadores de modas. Aqueles cuja onda se mantêm por alguns séculos ou algumas décadas e de repente entra em recesso, deixando as coisas como estavam."
(...)
"Há três modalidades de poesia: 1 — Melopéia. Aquela em que as palavras são impregnadas de uma propriedade musical, (som, ritmo) que orienta o seu significado (Homero, Arnaut Daniel e os provençais). 2 — Fanopéia. Um lance de imagens sobre a imaginação visual (Rihaku, i.é, Li Tai-Po e os chineses atingiram o máximo de fanopéia, devido talvez à natureza do ideograma). 3 — Logopéia. "A dança do intelecto entre as palavras", que trabalha no domínio específico das manifestações verbais e não se pode conter em música ou em plástica (Propércio, Laforgue)."

Talvez sobre Pound pudesse ser dito o que o trovador Giraut de Bornelh disse sobre Raimbaut D'Aurenga: Er'es morta bela foldatz - eis que está morta a bela loucura.

14 de abr de 2010

Sem choro

         é como se fosse uma guerra
onde o mau cabrito briga
         e o bom cabrito não berra

                                    *Paulo Leminski, Travelling Life

         Death without weeping é um livro da antropóloga Nancy Scheper-Hughes sobre o Nordeste brasileiro. Morte sem chorar, título que vem da tradução de um verso de Disparada, de Geraldo Vandré:

Aprendi a dizer não
Ver a morte sem chorar
E a morte, o destino, tudo
A morte e o destino, tudo
Estava fora do lugar
Eu vivo prá consertar...


         Descobri o livro através do curso Peoples and Cultures of the World, do Prof. Edward Fischer, da Vanderbilt University. O título do livro refere-se à (in)capacidade das mães de expressar dor pela perda de suas crianças - a comunidade onde ela viveu e pesquisou (Alto do Cruzeiro, Timbaúba-PE) tinha uma taxa de mortalidade infantil acima de 50%, fazendo com que a morte das crianças fosse a regra, não a exceção. As mães não mais choravam quando as crianças morriam, numa rotineirização da morte, se desapegando de seus filhos e investindo emocionalmente apenas naquelas que tinham maior chance de sobrevivência ou que atingiam determinada idade. A autora diz que o pensamento corrente de que há uma ligação instantânea entre mãe e criança é uma "crença burguesa" ocidental e está longe de ser um fenômeno universal.
         Tive uma reação forte a essa tese - de um lado a descrição que o Prof. Fischer faz das condições de pobreza da população nordestina em questão foi de um espanto que me espantou: acho que acabamos nos acostumando com as notícias de morte, pobreza e fome em grande parte do país, e ficamos cada dia menos preocupados, porque afinal temos programas de renda mínima, a economia cresce, etc., etc., acabamos nos distanciando e racionalizando esse distanciamento e alheamento em relação ao outro. Ajuda quando o outro está confinado a grotões nordestinos, não é? Aí vem o Prof. Fischer e faz uma descrição espantada de como é morrer de fome - "alguém pode imaginar como é ficar tanto tempo sem comida que o corpo literalmente começa a devorar a si próprio?!", indaga, com espanto. Deve ser realmente difícil para um americano preocupado com as taxas de obesidade da própria sociedade imaginar uma situação dessas. O óbvio horror e espanto na voz do professor trouxe à tona meus próprios espantos e horrores há tanto calados ou adormecidos, me deixando extremamente desconfortável: realmente, na oitava economia do mundo, é um espanto, um horror, uma indignidade, uma desumanidade. Como podemos chegar a um ponto de alheamento com o próximo de que até quando morrem como moscas - e crianças! - não nos indignamos mais?
         A outra parte da reação veio das vantagens (ou, no caso, larga desvantagem) de ter uma memória quase-eidética: lembrei-me de uma reportagem da Veja da minha infância, que me horrorizou na época (consegui resgatar essa reportagem hoje, no acervo digital da Veja). E o que tinha me horrorizado então era exatamente o distanciamento dos pais  - a reportagem era sobre os efeitos da seca nas famílias nordestinas, mais exatamente a mortalidade infantil, que o repórter chama de "genocídio" - a reportagem começa com a frase "Meus filhos são muito morredor". Logo mais, o mesmo pai olha sua filha mais nova e completa: "Essa aí mesmo não sei se vinga". (reportagem completa aqui).
         Achei isso tudo de uma violência inaudita. A pobreza e as condições de vida que forçam mães a se desapegarem de seus filhos, a morte não chorada, o investimento emocional em crianças que podem "vingar" - a antropóloga diz que isso é uma cultura burguesa, o amor materno, etc., mas não acredito inteiramente nisso não. A espécie humana é a de maior tempo de desenvolvimento da cria até a independência total dos filhotes - uma espécie marcadamente seletiva, com características biológicas que impelem as mães à seleção cuidadosa do macho, que é primordialmente monogâmica talvez até para um investimento conjunto no capital genético mútuo do casal (estou extrapolando um tanto do comportamento de gorilas e chimpanzés, além de conhecer muito pouco sobre o assunto)... de qualquer modo, são participantes de uma cultura, religião e sociedade que valorizam esses "instintos", sejam eles culturais, biológicos ou uma sobreposição ou interposição dos dois. Dentro disso, a vida madrasta fazer com que essas mães passem a "guardar o choro", a se desligarem emocionalmente dessa maneira, acho violentíssimo, uma violação completa da dignidade humana. As palavras de Irene Preta, moradora do Alto do Cruzeiro (Timbaúba, PE):

"Não chore pelas crianças que morreram aqui no Alto do Cruzeiro. Não gaste suas lágrimas com elas. Tenha pena de nós, chore pelas mães condenadas a viver".
Em um artigo da UFPE (aqui), a visão é um pouco diferente:
         “Um estudo premiado internacionalmente, realizado pela antropóloga americana Nancy Scheper-Hughes examina as atitudes de moradoras de uma cidade da Zona da Mata Pernambucana diante de altíssimos índices de mortalidade infantil. Muito admirada com o grau de pobreza no local (neste sentido, a visão da antropóloga lembra as comparações dos demógrafos entre continentes para ressaltar a pobreza do Nordeste) ela classifica a convivência com a mortalidade infantil como parte da “violência da vida cotidiana”, e insiste em como ocorre um endurecimento das mães diante de processos de adoecimento e de morte de filhos. Discute o abandono da esperança de sobrevivência de filhos em estados adiantados de desnutrição. Nos enterros, descreve as atitudes estóicas das mães - a pouca demonstração aberta da perda. Não cabe aqui abordar as muitas implicações interpretativas sobre a fome, a valorização da vida humana e sobre os processos de desenvolvimento desigual que este trabalho levanta. Mais uma vez, isto seria alvo de outro estudo fascinante e doloroso.
         O trabalho de Scheper-Hughes ainda suscitou uma resposta de outras antropólogas, mais culturalistas e menos estruturalistas, alegando que o estudo tinha errado o alvo porque a Professora Scheper-Hughes não soube entender os significados de certas crenças sobre as implicações de lamentações muito emotivas com derrame de muitas lágrimas. No artigo chamado “Anjos com asas molhadas não voam” estas antropólogas mostram que, de acordo com a visão nordestina do caminho percorrido por "anjinhos" para chegar no céu, uma lamentação com muitas lágrimas poderia impedir que os bebês que morreram chegassem a alcançar o seu devido lugar no céu. E há diversas outras implicações culturais discutidas.”
         Para mim, essa idéia de que "anjos de asas molhadas não voam" é uma violência ainda maior, uma vez que racionaliza a perda com a perspectiva de ida direta para o céu, desde que a mãe fique de boca calada e olhos secos. Um crime de lesa-humanidade cometido pela sociedade como um todo. Mas o que um estudo de 89 (entre 65 e 89) e uma reportagem de 83 tem a ver com o momento atual? Não estamos surfando a "onda BRIC"? Não temos o bolsa isso e aquilo?
         Pois semana passada a ONU divulgou um estudo em que o Brasil, oitava economia do mundo, aparece novamente como o 75º em desenvolvimento humano. "Os indicadores do Brasil em saneamento básico são, na área urbana, inferiores aos de países como Jamaica, República Dominicana e Territórios Palestinos ocupados". Mais: "O Brasil rural amarga índices africanos. O acesso a saneamento básico adequado é inferior ao registrado entre camponeses de nações imersas em conflitos internos, como Sudão e Afeganistão". E isso numa época de bonança econômica sem precedentes.
         Agora, na próxima vez que Maluf, Arruda & Cia se locupletarem com milhões, no dia em que deputados e senadores aprovarem medidas de "alívio tributário" a gigantes empresariais, ou Lulinha ganhar milhões em uma empresa de jogos por conta do papai, ou José Dirceu "assessorar" uma empresa a comprar cabos a R$ 1,00 e depois vender ao governo por R$ 6.000.000.000,00 - deviam ser todos julgados em Haia, além de condenados a ir em todos os enterros de anjinho do país, compungidos, segurando velas - e chorando! Cada vez que desviam centavos ou milhões ou legislam em causa própria, podiam muito bem cortar os intermediários - fome, miséria e congêneres -, pegar um machado e matarem eles mesmos as criancinhas. E cada um que votar nesse povo pega numa pontinha do machado e na alcinha do caixão. Pronto, desabafei. Ando comunista de tudo esses dias (mas, como dizia Tancredo, pra esquerda eu não vou, não adianta empurrar).


*Alguns capítulos do livro aqui.

* Link para o livro no Google Books aqui.

* Reli e o post tá uns dois tons acima do desejável... tô parecendo um Gustavo Corção de Salinas. Mas vá lá, essa moça e o estudo tiveram um impacto emocional forte em mim.

13 de abr de 2010

Expectativas

..........Uma pesquisa relativamente recente chegou às minhas mãos, com alguns dados esclarecedores: 19% do americanos acham que estão entre os 1% dos americanos de maior renda do país, o topo do topo da pirâmide. E outros 20% acham que estarão entre os 1% de maior renda em algum momento da vida. Somados, 39% dos americanos acham que estão ou estarão entre os 1% de maior renda no país, algo em torno de 2 milhões de dólares por ano. Outros quase 40% acham que mudarão de estrato social e subirão na pirâmide de renda. Tal nível de expectativa pode explicar boa parte da ojeriza americana frente à distribuição de renda, políticas inclusivas ou aumento de impostos - se juntarmos a isso a "ética protestante", em que o trabalho (e a acumulação) é dever e dignidade do homem e a riqueza quase uma distinção moral, temos uma sociedade extremamente individualista - quase um aglomerado de indivíduos com altas expectativas - e chance quase zero de um consenso em torno de objetivos comuns ou comunitários. Se isso reforça os laços comuns e as exigências de retorno de impostos em forma de serviços em comunidades ou grupos menores, propaga-se como exigência de manutenção do status quo quando se trata de políticas de maior alcance global. Os exemplos de revolta contra o "intervencionismo" do estado podem ser notados desde os protestos contra "invasão" em assuntos locais, como educação ou porte de armas, até a quase revolta contra o novo sistema de saúde, que incluirá mais de 10 milhões de pessoas que antes não tinham acesso a qualquer tipo de assistência médica.
..........Essa simplificação acima pode explicar os americanos, mas não nós. Aqui acredito que devamos o atraso e a desigualdade de renda não só ao modo capitalista de produção, mas à replicação de estruturas sociais caquéticas que se multiplicam desde os tempos coloniais. Caciques e coronéis, sesmarias e cartórios, um completo alheamento da coisa pública em relação ao público, séculos de estratificação social - Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Darcy Ribeiro já faziam retratos acurados dessa "doença" uns quase 80 anos atrás (Casa Grande, por exemplo, é de 33). Mas o diagnóstico não é novidade - o interessante é a capacidade das "classes superiores" de propagar a manutenção desse sistema excludente mesmo em sistemas liberais democráticos onde teoricamente tais questões poderiam ter uma decisão comunitária e por voto. Lula, ávido pelo poder, assinou uma Carta aos Brasileiros onde fez um mea culpa e jurou ao capital internacional que não faria nada radical em favor dos 60 milhões de miseráveis de então. As outras propostas passam por um sistema arcaico de totalitarismo com implantação de engenharia social estatal, como nos regimes comunistas uma vez defendidos pela Dilma - os avanços de Cuba, China e União Soviética passam pela contabilidade dos milhões de assassinatos em prol do bem maior... um colega comunista fez uma contabilidade assustadora de quantos brasileiros que morrem de fome, de drogas (não tinha viciados na União Soviética?), violência urbana, etc., seriam "salvos" pela cubanização do país, algo em torno de milhões. Não aceitou que eu colocasse do outro lado da coluna contábil os milhões de Stálin e Mao, nem os milhares de Fidel - só as centenas dos paredões, justificados porque estavam "em guerra".
..........As expectativas dos americanos e brasileiros e as estruturas, laços, arquétipos e autoimagens sociais são os principais adversários de qualquer política real de inclusão social. O convencimento de que algo deve ser feito e pode ser feito, entretanto, devia começar comigo! Não vejo nenhuma proposta real de mudança, de nenhum lado. Nem mesmo os sonhos totalitários são apresentados como alternativa. O "Estado Grande" é só mais uma figura paternalista, coronelística e cartorialista que vai ser montado pelas máquinas partidárias. O mantra do Mencken - de que ninguém nunca perdeu dinheiro apostando contra a decência humana - ganha contornos de verdade salutar se acrescentarmos que a decência humana sempre cede ao interesse individual. Entretanto, não faltam sonhadores - porque a realidade é obviamente dissonante? Tem sido assim já há milênios! E há dois séculos temos a indignação dos sonhadores socialistas... eu tenho grande simpatia pessoal pelos socialistas utópicos e científicos, mas não pelas suas soluções. Quem dentre nós, vendo toda essa miséria, desigualdade e injustiça, não se sentiria como Engels, que "em Londres viu o maior aglomerado humano que jamais conhecera, porém aquelas pessoas lhe pareciam átomos. Aquelas "centenas de milhares de indivíduos de todas as classes e categorias que se acotovelavam" não eram, não obstante, "seres humanos com as mesmas capacidades e faculdades, e com a mesma vontade de serem felizes? E, em última análise, não serão eles obrigados a buscar a felicidade do mesmo modo, através dos mesmos meios? E assim mesmo acotovelam-se como se nada tivessem em comum, como se um nada tivesse a ver com o outro, como se o único entendimento que houvesse entre eles fosse o acordo tácito de que cada um deve ficar em seu lado da calçada, para não atrapalhar a correnteza que vai no sentido oposto, e jamais ocorre a ninguém a idéia de conferir a um de seus semelhantes um olhar que seja. A indiferença brutal, o isolamento insensível de cada um em seus interesses pessoais, é tanto mais repelente e ofensivo quanto maior o número de indivíduos arrebanhados num espaço limitado."

12 de abr de 2010

Comentarii

No post "Memórias, labirintos, mulheres" citei a Viúva de Bath, do Chaucer:


"Mas agora, por Santo Tomás, vou contar-lhes a verdade por que rasguei aquela folha do livro dele e levei a bofetada que me deixou surda. Tinha ele uma obra que noite e dia estava sempre lendo com gozo e satisfação; dizia chamar-se Valério e Teofrasto, e suas páginas lhe provocavam boas gargalhadas. Além disso, havia outrora em Roma um clérigo, um cardeal, de nome São Jerônimo, que escrevera um livro contra Joviniano, que ele também possuía; e mais Tertuliano, Crisipo, Trótula, Heloísa, que era abadessa perto de Paris, os Provérbios de Salomão, a Arte do Amor de Ovídio, e muitos outros... e todas essas obras estavam encadernadas num só volume. E, como eu disse, noite e dia, sempre que dispusesse de um momento de lazer ou folga em suas ocupações, era seu costume tomar desse calhamaço e ficar lendo a respeito de mulheres pérfidas. Sabia mais lendas e casos sobre elas que sobre as mulheres virtuosas da Bíblia. Porque,podem crer, é impossível encontrar um letrado que fale bem das mulheres (a não ser nas biografias das santas; fora isso, nunca). É a velha fábula de Esopo: “Quem pintou o leão? Vamos, digam-me!” Por Deus, se, em vez dos doutos nos claustros, fossem as mulheres que escrevessem as histórias, veríamos mais maldade entre os homens do que todos os representantes do sexo de Adão poderiam redimir. Os filhos de Mercúrio e Vênus sempre operam em sentidos contrários: Mercúrio ama a sabedoria e a ciência, enquanto Vênus prefere as festas e o esbanjamento. Devido a essas posições opostas, cada planeta tem sua queda na exaltação do outro; conseqüentemente, – sabe Deus, – Mercúrio se enfraquece em Peixes, signo em que Vênus se eleva, e Vênus cai onde Mercúrio está exaltado. Eis aí porque nenhuma mulher recebe elogios de um douto. E o douto, por sua vez, quando fica velho e não consegue mais prestar serviço a Vênus, mais inútil que um par de botinas rotas, tudo o que faz é ficar sentado o tempo todo, escrevendo, em sua caduquice, que as mulheres são infiéis no matrimônio."


O leão da fábula pergunta "Quem pintou o leão?", indicando que se a pintura fosse feita por um leão, o desfecho certamente seria outro. Agora me ocorreu que a idéia não é nova - aliás, velhíssima: Xenófenes, em sua Teologia, diz:

"Dizem os Etíopes que os seus deuses são negros e de nariz chato,
fazem-nos os Trácios de olhos azuis e cabelos ruivos;
Mas se mãos tivessem os bois, os cavalos e os leões
E pudessem com as mãos desenhar e criar obras como os homens,
Os cavalos semelhantes aos cavalos, os bois semelhantes aos bois,
Desenhariam as formas dos deuses e os corpos fariam
Tais quais eles próprios têm.”


A idéia de que a "verdade" é relativa e dependente do referencial adotado só viria a adquirir importância determinante séculos mais tarde, mas pode-se ver por Xenófanes, Esopo e Chaucer que a idéia de verdade absoluta nunca contou com adesão unânime.

Aliás, o "salto lógico" de Xenófanes é interessante: começa por observar que as cidades da Grécia têm cada uma o seu próprio Deus, o que indicaria que cada Deus favoreceria a cidade que o reverenciava; como as leis de cada cidade (que para Xenófanes indicavam ou incorporavam o espírito da sociedade) eram diferentes, ele arguía que cada Deus obedecia ou favorecia leis relativas, e que tipo de Deus é um Deus relativo? Daí o salto lógico em direção a um deus único, superior aos demais... que vai se inflar e englobar ou incorporar tantas porções do universo que, quando chega em Spinoza, acaba se confundindo com o próprio universo e perde o livre arbítrio.

* Os Contos da Cantuária, em tradução do Paulo Vizioli, aqui.

9 de abr de 2010

Memórias, labirintos, mulheres

O homem pode ter vindo do macaco. Mas todas as notícias de Brasília indicam que já está pegando o caminho de volta.

.....Há algum tempo escrevi sobre a peça Casa de Bonecas, do Ibsen (download aqui) - onde a personagem Nora, no final, diz que não quer ser feliz como mulher, mas como ser humano - não quer se limitar ao papel de esposa, à circunscrição social então imposta como papel da mulher. A obra é de 1879 e deve ter causado certo impacto na época.
.....Mas o que despertou a minha lembrança foram dois fragmentos: o nome Marguerite de Navarre, numa dedicatória de Rabelais, e um blog que recebi via rss, do JBOnline. A lembrança do nome de Marguerite de Navarre é mais antiga, e procurei a respeito dela já há algum tempo - a Wikipédia em português traz somente que ela é "irmã de Francisco I". Foi muito mais que isso: amiga de Rabelais e Erasmo, protetora de João Calvino, mandou traduzir Bocaccio para o francês, e, inspirada no Decamerão, escreveu sua própria obra, chamada L'Heptaméron. Já foi considerada a "primeira mulher moderna" - se há coisa de um século ainda era tratada como uma figura menor do Renascimento, hoje é vista como uma pioneira da narrativa feminina e já com uma visão essencialmente moderna, onde a veracidade da narrativa é decidida não só pela realidade mas pelo ponto de vista de quem fala. A crítica Patrícia F. Cholakian vê o Heptaméron como uma transição do romance de cavalaria para uma história do ponto de vista da mulher sobre as escolhas, sofrimentos e lutas femininas. Parece mais feminista do que é: os contos são basicamente historias "morais" onde a virtude do amor casto, da pureza, do amor platônico, levam a melhor sobre o sexo, os desejos e intenções "tipicamente masculinas". Mas a narrativa oferece os dois pontos de vista, embora invariavelmente os argumentos a favor do primeiro tendam a vencer. Desnuda a relação homem-mulher de uma forma levemente maniqueísta, onde os homens tendem a obedecer a impulsos mais "selvagens" e sexuais e as mulheres a serem mais platônicas, puras e românticas, o que não deixa de ser estereotípico de ambos os lados. Mas isso num livro publicado em 1559 e escrito provavelmente uns 20 anos antes. Versão em inglês aqui.
.....Com isso veio a lembrança da peça de Ibsen, e, depois, da viúva de Bath, do Chaucer: a viúva (de cinco maridos) "prova" com sua narrativa que os casamentos podem e são bem sucedidos, desde que o marido "renda-se" à soberania da mulher. Sobre todos os ditos sobre submissão feminina (especialmente hilário o uso que ela faz de São Jerônimo), ela conta uma historinha sobre um leão a quem é mostrado uma pintura de um homem matando um leão: "quem desenhou isso, um homem?", pergunta o leão, rindo-se da confirmação, como a dizer que obviamente um homem faria o desenho dessa maneira, mas se fosse um leão a ter feito o desenho o enredo seria diferente... de novo, como em Ibsen, em uma história escrita por homens, o que leva à percepção de que pelo menos parte da nossa "raça homem" não é assim tão simplória como pinta-se.
.....Claro, isso é uma gota no oceano literário, mas pelo menos mostra como a questão não foi em nenhum momento pacífica. Aliás, pouquíssimo pacífica: a liberação feminina em Languedoc e Provença chegou a ser citada como um dos motivos da Cruzada Albigense, no século XIII, que esmagou os cátaros,  albigenses e seus costumes famigerados, como mulheres herdarem e cuidarem de suas posses, ou, heresia ainda maior, casarem com quem quisessem.
.....Bom, vamos à madeleine: essa digressão toda voltou a ser pensada por conta do tal blog, que se chama Cara de Marido. Uns trechos abaixo e o link aqui. Mas como a frase que abre o post, em certos momentos a evolução parece uma chacota e não uma teoria.

"Ouviram minhas lamentações e me deram conselhos diferentes, porém complementares. A pergunta em questão era: “Vocês concordam com a máxima que diz: para esquecer um ‘amor’, só arranjando um novo?”.


Minha amiga de pronto disse que concordava, que achava praticamente impossível se desligar de alguém, sem que um alguém novo entrasse em jogo. E então, puxou minha orelha com a frase: “Van, solteiro não pode ter preguiça”. Eu fiquei pensando no quanto isso fazia sentido. Muitas vezes ficamos esperando o cara de marido bater na nossa porta, e baby, ele não vai bater. Pelo menos, não assim do nada."

.....Mais um trecho de pura sabedoria oriental:

"Entretanto, o seu cara de marido está aí fora, em qualquer lugar, apenas esperando uma brechinha do destino pra te encontrar. E SE naquele dia, você resolveu ficar em casa? Ou pior, SE naquele dia, você resolveu sair de qualquer jeito de casa? Você vai dizer, “mas Van, eu sou mais do que uma aparência, uma roupa, uma make up”. "

.....Ok, ok, depois faço um post "puro" sobre Marguerite & Rabelais e paro de perder tempo lendo tudo quanto é besteira que me mandam. Mas que de vez em quando parece que desperdiçamos séculos, parece.

7 de abr de 2010

Pelas barbas de Darwin!

Pesquisa Datafolha publicada em 02/04 revela que 59% dos brasileiros acredita ao mesmo tempo em Deus e em Darwin - atribuindo a Deus desde um "chute inicial" até a formulação de leis que levaram à evolução. 25% acreditam em Adão e Eva e que a Terra tem menos de 10 mil anos - e 67% dos neopentecostais acreditam em evolução! 7% dos ateus brasileiros acham que a Terra tem menos de 10 mil anos e se declaram criacionistas. Com o perdão do trocadilho, uma confusão dos diabos. 

Nos Estados Unidos, 44% são criacionistas "puros". E foi lá, na década de 20, que um professor foi preso por ensinar a teoria da evolução - "acusado" de caluniar o homem como descendente dos macacos. Mencken, que cobria o julgamento, se levantou e declarou que, nesse caso, os macacos é que deviam estar processando o professor... em alguns estados americanos, os criacionistas ainda hoje tentam passar leis que obriguem o ensino da teoria bíblica nas escolas, juntamente com a teoria da evolução - nas aulas de ciência.

Essa esquizofrenia brasileira pode ser explicada pelo desconhecimento das questões apresentadas, pela metodologia da pesquisa ou por puro e simples "jeitinho", uma acomodação entre o que se percebe como "conhecimento científico" e a crença pessoal. Entretanto, o fundamentalismo arraigado dos americanos não tem a mesma força aqui. O que tem força por aqui, de forma mais avassaladora, são o preconceito e o obscurantismo. No último sábado, fui ao Espaço TIM/UFMG do Conhecimento, na Praça da Liberdade (mais informações no Boletim UFMG e no Blog do Marcelo Bicalho). E lá, na instalação Cosmogonias, há cinco painéis com esculturas em papel com os mitos de criação das culturas yorùbá, maxakali, maia-quiché, grega e judaico-cristã. Um dos guias estava explicando, de maneira bastante didática e politicamente correta, cada um dos mitos para um grupo de crianças. A mãe veio furiosa e calou o guia com um "eles não têm idade para escutar essas coisas" e levou as crianças diretamente ao painel da cultura judaico-cristã. Pena que não tinha um puxadinho para a Ku Klux Klan, com cruzes queimadas e enforcamentos, para essa criatura iluminada se sentir em casa.

Mas acredito que essa descendente direta das lagartixas dos pântanos represente o âmago do espírito brasileiro que explica a pesquisa. Branca, classe média alta, provavelmente católica, pelo crucifixo, levava os filhos a um espaço universitário de divulgação do conhecimento. Esse mesmo conhecimento em que, na forma de teoria darwinista, ela diz acreditar nas pesquisas e provavelmente em público. A autoridade do conhecimento científico se mostra tão forte quanto o antigo patriarcalismo dos senhores de engenho. Frente a esse conhecimento se abaixa a cabeça, se concorda e não se confronta: outras pesquisas já mostraram o respeito dos brasileiros pelos "doutores" e pela ciência. Mas é o mesmo respeito que um babuíno ou um papua da Nova Guiné mostraria pelo poder de fogo superior do invasor. No recôndito seguro da casa ou nas relações protetoras com os filhos abre-se a porta para se sentir mais em casa queimando cruzes e livros heréticos, disseminando preconceitos milenares, do que concordando com qualquer possibilidade de respeito ou diálogo com outras culturas e saberes.

6 de abr de 2010

Em defesa dos EUA

Paulo Francis não era para principiantes: o artigo que dá nome ao post mostra como ele se tornou um ícone de parte da esquerda, antes de "pular a cerca" e se converter num ícone de determinada direita, escrevendo ou, global, falando no quadro "Diário da Corte" da Rede Globo - sendo a tal corte, obviamente, Nova York. O protagonismo de Francis encontra paralelo nos jornalistas americanos do início do século XX, como Mencken, ou até mesmo Noel Coward e Edmund Wilson. Aqui, talvez só o Nelson Rodrigues tenha angariado tanta antipatia quanto ele - mas o Nelson nunca escondeu suas preferências, e não fez a hipérbole ideológica do Francis, que percorreu todo o espectro político.
Entretanto, acho injusto considerá-lo, como fez a "esquerda festiva" que ele açoitava, um direitista puro-sangue: era antes um liberal-democrata que atacava à direita e à esquerda, ou a esquerda, com "pena embebida em cicuta", para ressuscitar uma imagem barroca. O artigo abaixo, parte de um livro que engloba suas colunas do período 1971-1975, mostra Francis em ação - para quem não se lembra da sua peculiaríssima maneira de falar, aqui,  aqui e aqui vídeos com "amostras"...
Francis também foi responsável por um dos episódios mais hilários, na minha opinião, já exibidos pela Rede Globo. Quando do primeiro arrastão nas praias cariocas, um escândalo para a época, o então governador Leonel Brizola (outra figura, com um sotaque quase tão divertido quanto o do Francis), foi na Marília Gabriela se explicar. Acuado, quando perguntado por sua versão dos fatos e cobrado por soluções, saiu-se com essa: "Não, Marília, os garotos queriam somente se divertir, ir à praia, Marília... a solução Marília, é fazer piscinas nos CIEPs, Marília...". A cara de incredulidade da Marília Gabriela foi impagável, enquanto tentava interromper a catarata de asnices com um "Governador! Pára aí, governador! Governador! Ô Governador! Nem tanto, Governador!!!".
Mas a réplica do Paulo Francis foi ainda melhor: no quadro do Fantástico, aparece um Francis puto da vida, com aquele falar característico, indignado: "Brizola agora quer ensinar pivete a nadar! O único lugar seguro no Rio de Janeiro será o ar! Mas não se acomodem: Brizola ainda vai dar curso de asa delta pra pivete!"...

O livro Paulo Francis Nu e Cru para download aqui, no ótimo site LetrasUsp.

Em defesa dos EUA
* O texto, se não me engano, é de 72 – republicado em 76 no livro “Paulo Francis Nu e Cru”


Agora que as cravelhas americanas estão caindo em alguns lugares, nenhum muito importante, falando nisso, até publicações conservadoras como The Economist acusam os EUA de uma política externa inepta e destrambelhada.


Peço vênia para discordar. Nunca houve uma política externa que funcionasse tanto como a americana, quando consideramos, a bem da verdade e da justiça, os handicaps que tem de enfrentar.


Considerem: durante 23 anos, de 1949 a 1972, Washington conseguiu convencer a 2/3 do mundo que a ilhota de Taiwan era A CHINA, enquanto que a China propriamente dita não passava de ilusão de ótica, sendo populada por 800 milhões de energúmenos cuja única ocupação consistia em correr de um lado a outro do imenso e desperdiçado território, sem Beba Coca-Cola discernível nas ruas, brandindo um livrinho vermelho.


Se a China desapareceu 23 anos, o que dizer do inflacionamento da ilha de Cuba, que, entre 1959 e 1963, ameaçou militarmente o nosso champã, inclusive pretendendo converter Búzios em campo de colheita de cana, quando se tornaria insuportavelmente shangai? É com nostalgia sentida que recordo as manchetes de “O Globo” e outros diários democráticos em nossa pátria sobre o “barbudo tirânico” e a “cubanização do hemisfério”. Olhem o mapa e vejam o perigo de que escapamos graças à fiel praxis da máxima o preço da liberdade é a eterna vigilância.


E há a infinita criatividade americana em face de circunstâncias extremamente adversas.


Frustrada na tentativa humanitária de convencer a amarelos, marrons, negros, latinos e outras pessoas de cor, cuja tonalidade específica não me tenha ocorrido (ficam aqui, antecipadamente, minhas desculpas aos omitidos), a enfiarem anticoncepcionais nas respectivas mulheres, Washington, temendo que do jeito que os nativos iam procriando em breve os americanos médios não poderiam mais comer 50 quilos de carne de boi ao ano, Washington começou a resolver o problema de maneira pronta e cirúrgica. Um bom exemplo é o controle da natalidade na Indochina, menos 1 milhão de cambojanos de um total de 7 em 5 anos de jornadas, e milhões, ninguém sabe ao certo quantos, de outra variedade de amarelos, os chamados vietnamitas. Ingredientes: TNT, herbicidas, pesticidas e napalm. Há ainda incontáveis mutilados, esfomeados e envenenados na região que se continuam vivos, por assim dizer, dificilmente poderão procriar, aumentando o excesso populacional. E demonstrando que não há hard feelings, nenhuma animosidade do povo americano na sua missão civilizadora. Washington, em bom tempo, importou alguns milhares de órfãos, tornados tais pelos ingredientes acima referidos, como souvenirs. Em breve, nas escolas públicas locais, serão apedrejados pelas mamães e papais das crianças brancas, mas com a experiência que adquiriram em escapar de bombas no Vietnam, o que é um paralelepípedo a mais ou a menos, sem falar do fato incontestável que estarão vivendo em muito melhores condições, pois, sob a chuva de pedras, terão o conforto de ler editoriais liberalíssimos no “New York Times” em defesa dos seus direitos de estudar, intitulados invariavelmente Irracionalismo em... segue-se o nome da cidade, já tendo sido sugerido que o “Times”, aderindo à nossa era eminentemente visual, coloque ao lado da palavra Irracionalismo o mapa completo dos EUA.


Washington é pragmática. O que é bom para o Vietnã nem sempre funciona em toda parte. Assim é que houve enorme alegria em Washington, traduzida na frase do então Presidente Lyndon Johnson, “uma grande vitória do mundo livre” quando o governo marrom da Indonésia, em 1965, eliminou 1 milhão de marrons da lista dos aspirantes à comida, revelando uma iniciativa insuspeitada da parte de marrons, principalmente porque os marrons “dispensados” pertenciam às hostes do principal inimigo da humanidade e preocupação suprema de Washington, a “conspiração comunista internacional”, ora, sem sede fixa (já se baseou em Moscou, Pequim, Praga e em Havana), pois demônios contam entre as artes que dominam a capacidade de desaparecer temporariamente da nossa vista. Mas estão sempre conosco. Eles se infiltram, eles se mascaram.


Há também a alternativa aplicada nos marrons da índia. Essa, sutil e rotineira. A fim de produzir uma agricultura de subsistência, já que dão à luz com maior assiduidade que o gado que adoram, uma bárbara e pitoresca religião, imaginem só um deus que faz “mu”, os marrons lá precisam de um dos produtos do gênio americano, os fertilizantes. Sempre disposta a auxiliar os menos favorecidos (vide parágrafo acima sobre os órfãos vietnamitas), Washington despachou para lá a Standard Oil da Califórnia (ou será de Indiana? Não tem importância, mudam os nomes apenas. “Uma rosa se chamada por outro nome”, como diz o mais famoso poeta daquela deliciosa ilhota que os EUA administram, a Inglaterra, permitindo generosamente aos ilhéus a ilusão de que se autogovernam), de propriedade do filantropo Nelson Rockefeller, da fundação do mesmo nome. A líder marrom local achou os preços dos fertilizantes um tanto caros. Considerando que o freguês tem sempre razão, a Standard Oil não insistiu. Washington, porém, acredita que às vezes um pouco de energia é necessária no trato dos nativos, para o bem deles próprios, e suspendeu créditos (empréstimos, não doações. A caridade é um estímulo à preguiça) até que a líder marrom aceitasse os preços da Standard Oil. Isso feito, os créditos e os fertilizantes foram prontamente fornecidos. Tudo OK. O Calcutá!


Washington sente-se profundamente incompreendida pelos que beneficia e protege. Um exemplo é o Chile. O país, em plena liberdade, coisa a que os latinos não estão habituados, admitindo eles próprios que quem nunca comeu melado quando come se lambuza começou a adotar as sinistras práticas ditadas pela “conspiração comunista internacional”., encampando diversas empresas dos EUA, o que, evidentemente, provocou o caos na economia chilena. No afã de ensinar uma lição proveitosa aos latinos, Washington usou a influência que tem no chamado Banco Mundial e outras chamadas instituições internacionais de crédito, cortando completamente empréstimos ao governo responsável pelo crime contra a economia chilena, e, apertando o parafuso, enviou en masse funcionários da maior agência filantrópica dos EUA, a CIA, a Havana, digo, a Santiago, os nomes latinos são fáceis de confundir, e esses abnegados distribuíram 13 milhões de dólares suados dos contribuintes americanos às forças democráticas locais, não lhes cobrando recibo ou imposto de renda, como é típico de Washington, porque a generosidade em alguns casos rende mais proventos a longo prazo do que rigores fiscais. A conseqüência disso foi a emergência do governo Pinochet, que rapidamente eliminou todos os focos de subversão, restabelecendo a democracia, que será implantada com todos os formalismos de praxe (formal trappings) nos próximos 40 ou 50 anos, a julgar pelo predecessor e êmulo de Pinochet, o generalíssimo Franco da Espanha que, há 37 anos, apesar de ele próprio já estar queimando óleo 70, aos 81 anos de idade, impede que o povo espanhol, irresponsavelmente, seja seduzido pelas blandícias da “conspiração comunista internacional”.


Acredito que os exemplos supracitados sejam suficientes para demonstrar os êxitos da política externa dos EUA e o espírito que a anima. Eu poderia citar outros, mas me contenho porque penso no preço do papel, que o Brasil importa a dólares, e não quero pesar sobre o PASQUIM, que colabora com as nossas importações, aceitando a desvalorização mensal do cruzeiro em face do dólar, o que estimula as exportações americanas para nossa pátria e, garantindo dest'arte a riqueza dos EUA, de tabela damos nossa modesta contribuição à segurança e integridade do Mundo Livre.