31 de ago de 2009

Churchill

Em uma visita ao Canadá, se não me engano, Sir Winston Churchill, então primeiro ministro inglês, acabou sendo colocado ao lado de um eminente professor metodista - e Churchill nunca foi flor que se cheire, bebia bem e fumava mais, para ficar nos pecados menores. Nisso, passa uma garçonete oferecendo bebidas - daquelas garçonetes de evento, na flor da idade e de minissaia - e Churchill pega um copo de uísque. Quando a mocinha oferece bebidas ao metodista, ele responde indignado: "Prefiro cometer adultério a colocar uma gota de álcool na boca!". Churchill pula da cadeira e grita para a mocinha: "Volta aqui! Eu não sabia que eu tinha essa opção..."

Dia Nacional do Desdém - (re)lançamento


Primeiro, livre a mente das impurezas e concentre-se; fique em posição de lótus, voltado para Brasília (é fácil de localizar, é de onde vem o fedor). Depois, devagar, inspire, retenha a respiração tanto quanto possível, e, ao exalar, mantenha o foco única e exclusivamente no desprezo completo e absoluto que você devota ao governo e às “diversas esferas do poder público”, e faça um bom e sonoro “hmpf”, produzindo o melhor som de desdém que conseguir. Já pensei em lançar um livro, “Brasileiro: a arte de sobreviver apesar do governo” - mas se o Brasil nunca foi para principiantes, Lula & sequazes não precisavam transformá-lo numa espécie de arte marcial. Aliás, o governo atual, fruto doentio do cruzamento do sonho esquerdista da Era de Aquarius com o “sindicalismo de resultados”, lembra aquele caso do Brejnev: o Brejnev assume o poder na URSS, e leva a mãe para mostrar, orgulhosíssimo, a sua nova dacha, seus carros, mansões, mordomias – e a mãe, com uma ponta de medo: “mas meu filho, e se os comunistas voltarem?”...

* O post original é de 10/2007... não é que continua original? E justamente porque, infelizmente, o resto continua exatamente a mesma porcaria?

30 de ago de 2009

Dinossauros

Mais um passo da ciência em direção ao nonsense: alguns cientistas querem ativar alguns genes adormecidos das galinhas e despertar seu "dinossauro interior". O processo evolutivo fez com que alguns dinossauros bípedes resistissem à extinção, e traços dessas antigas formas encontram-se ainda no DNA das galinhas atuais. Fica cada vez mais difícil para os magos eclesiais continuar com a teoria de que somos trainees de anjos ou tocadores de harpa: até hoje, a única explicação razoável que dão para os dinossauros é que foram extintos porque não cabiam na Arca de Noé - um pequeno erro no design divino, como o Maranhão.
Mas evoluímos lentamente nessa área: os primeiros fósseis de dinossauros eram exibidos como prova da existência de dragões! A credulidade humana às vezes beira o ridículo absoluto - basta lembrar que uma boa parte da humanidade ainda acredita que uma baleia engoliu um homem, que continuou vivo e bem, tendo como único problema um certo atraso nos compromissos assumidos... é incrível que, ao invés de aceitar isso como uma alegoria óbvia, perdem o tempo deles e nosso tentando provar que não era uma baleia - era um "grande peixe"! Mostra um grande peixe aí que consegue engolir algo maior que um poodle - ou, vá lá, um rato, desde que ele continue vivo na barriga dele. Só não perco de vez a paciência com esses argumentos patéticos porque dão sempre um ótimo material de humor.
Mas os comerciantes da vida eterna não estão sozinhos nos erros de interpretação: acreditou-se, durante muito tempo, que os lemmings, pequenos roedores nórdicos, cometiam suicídio coletivo como forma de preservação da espécie. E, de fato, existem vários casos documentados e filmados desses roedores se lançando de fiordes e penhascos. O fato - lemmings penhasco abaixo - recebeu a explicação racional de que a natureza tinha achado uma solução radical para a superpopulação. E essa crença estabeleceu-se - temos desenhos animados e jogos de computador, além de metáforas em penca, baseados nela. Hoje sabe-se que o que acontece é uma espécie de "estouro de manada", onde, devido à superpopulação e à geografia da região, alguns pobres roedores acabam empurrados penhasco abaixo - contra a vontade. Infelizmente, esse conhecimento chegou tarde demais para algumas dezenas de lemmings "suicidados" pela Disney: a companhia estava fazendo um filme sobre eles, e resolveu reproduzir o tal suicídio coletivo, forçando os pobres roedores a pular de um "penhasco cenográfico" nos Estados Unidos - e os realizadores ainda ficaram intrigados com a resistência dos bichinhos...
Um relincho vale por mil silogismos

29 de ago de 2009

Fábula

Acho que uma das grandes lacunas da literatura brasileira é a nossa falta de "fabulistas", da escrita metafórica, lúdica e lúcida - da qual o maior mestre é, acredito, Calvino (Borges sendo sua contraparte). Abaixo, fragmento de As Cidades Invisíveis, essa fábula das várias formas que a realidade assume e da nossa incapacidade de restringí-la a uma regra rígida ou diminuí-la a ponto de entendê-la completamente:


*

.....Aos pés do trono do Grande Khan estendia-se um pavimento de maiólica. Marco Polo, informante mudo, espalhava o mostruário de mercadorias trazidas de suas viagens aos confins do império: um elmo, uma concha, um coco, um leque. Dispondo os objetos numa certa ordem sobre os azulejos brancos e pretos e, a partir daí, deslocando-os com movimentos estudados, o embaixador tentava representar aos olhos do monarca as vicissitudes de sua viagem, o estado do império, as prerrogativas de remotas capitais de província.
.....Kublai era um atento jogador de xadrez; seguindo os gestos de Marco, observava que certas peças implicavam ou excluíam a proximidade de outras peças e deslocavam-se de acordo com certas linhas. Transcurando a variedade de formas, ele definia a disposição de um objeto em relação ao outro sobre o pavimento de maiólica. Pensou: “Se cada cidade é como uma partida de xadrez, o dia em que eu conhecer as suas regras finalmente possuirei o meu império, apesar de que jamais conseguirei conhecer todas as cidades que este contém”.
.....No fundo, era inútil que para falar de suas cidades Marco utilizasse tantas ninharias: bastava um tabuleiro de xadrez com peças precisamente classificáveis. Para cada peça podia-se atribuir alternadamente um significado apropriado: um cavalo podia representar tanto um cavalo real quanto um cortejo de carroças, um exército em marcha, um monumento eqüestre; e uma rainha podia ser uma dama debruçada no balcão, uma fonte, uma igreja com a cúpula cuspidata, um pé de marmelo.
.....Ao retornar de sua última missão, Marco Polo encontrou o Khan a sua espera, sentado diante de um tabuleiro de xadrez. Com um gesto, convidou-o a sentar à sua frente e descrever-lhe as cidades que visitara apenas com o auxílio do xadrez. O veneziano não se desesperou. O xadrez do Grande Khan era composto de grandes peças de marfim polido: dispondo sobre o tabuleiro torres ameaçadoras e cavalos sombrios, condensando uma grande quantidade de peças, traçando avenidas retas ou oblíquas como os movimentos da rainha, Marco recriava as perspectivas e os espaços de cidades brancas-e-pretas em noites de lua.
.....Ao contemplar essas paisagens essenciais, Kublai refletia sobre a ordem invisível que governava a cidade, sobre as regras a que respondiam o seu surgir e formar-se e prosperar e adaptar-se às estações e definhar e cair em decadência. Às vezes, parecia-lhe estar prestes a descobrir um sistema coerente e harmônico que estava por trás das infinitas deformidades e desarmonias, mas nenhum modelo resistia à comparação com o jogo de xadrez. Pode ser que, em vez de insistir em evocar com o magro auxílio de peças de marfim visões de qualquer modo destinadas ao esquecimento, bastasse jogar uma partida segundo as regras e contemplar cada um dos estados sucessivos do tabuleiro como uma das inúmeras formas em que o sistema de formas se organiza e se destrói.
[...]
.....O Grande Khan tentava identificar-se com o jogo: mas agora era o motivo do jogo que lhe escapava. O objetivo de cada partida é um ganho ou uma perda: mas do quê? Qual era a verdadeira aposta? No xeque-mate, sob os pés do rei derrubado pelas mãos do vencedor, resta um quadrado preto ou branco. Com o propósito de desmembrar as suas conquistas para reduzi-las à essência, Kublai atingira o extremo da operação: a conquista definitiva, diante da qual os multiformes tesouros do império não passavam de invólucros ilusórios, reduzia-se a uma tessela de madeira polida: o nada...

28 de ago de 2009

Quixote

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Na minha época, e acho que hoje menos, uma das diversões da infância eram histórias em quadrinho - os super-heróis, Super-Homem, Batman, Lanterna Verde, Thor "o deus do trovão" e por aí vai. Um comediante americano diz que na infância esses heróis não são fantasia, são opções, e que secretamente carregamos esse desejo pelo resto da vida - desejos de um dia desses incinerar a gravata com um olhar, rasgar os céus e ir parar numa praia do Caribe. Ou a desconfiança de que algum chefe pernóstico é, na verdade, um gênio do crime que se revela depois do serviço e sai por aí cometendo delitos e roubando velhinhas - a encheção de saco durante o dia é só treino. Porque, claro, temos os supervilões também - alguns, sutis, usam o poder da mente para enfraquecer a força de vontade dos mortais comuns e são a maioria em células de telemarketing, onde tentam destruir a vontade de fazer o bem do resto da humanidade, usando o superpoder da chatura infinita.
Acho que, no fundo, temos não uma "identidade secreta", mas uma identidade sonhadora - uma reação à vida cada vez mais cheia de restrições e imposições e cada vez mas vazia de humor, fantasias, de fábula, uma identidade que supre a ausência do maravilhoso no mundo. E não há herói que encarne melhor essa vontade de vida do que Dom Quixote - o invencível, o incomparável, o invulnerável Dom Quixote. O mundo se povoa do mágico, do fantástico, e até ali o mal se estende, mas a luta permanente desse herói não dá trégua: invariavelmente derrotado, levanta-se e luta de novo, com uma crença inabalável no bem. Só perderia se deixasse de acreditar em si mesmo, e isso nunca acontece. Kafka achava que, na verdade, o Dom era uma invenção de Sancho - este, a identidade secreta que, ao ver em perigo o mundo (ou talvez achar o mundo cinza, chato), se transformava no digno cavaleiro, herói sem mácula e sem razão, e saía combatendo o mal onde este se apresentasse. Ficaria mais habitável o mundo hoje em dia se fôssemos todos Sanchos - mesmo que o cavaleiro fosse fruto da imaginação e o fiel escudeiro a identidade secreta desse daimon cheio de força e vontade de viver, temos que nos lembrar que o escudeiro o acompanhou até o fim. Uma ótima metáfora de se deixar guiar pelo fabuloso e divertido e acompanhar os sonhos. No livro, Sancho parece se dar conta de que tudo aquilo era fantasia - e defende a fantasia pelo que ela traz de experiência real e palpável, pelo que traz de saboroso à vida. O diálogo abaixo, do fim do primeiro livro, se dá quando o Dom é levado de volta para casa, alquebrado e acamado, e o Sancho é interpelado pela esposa, Joana Pança:

"- Louvado seja Deus - redargüiu ela - que tanto bem me tem feito; mas conta-me agora, que lucraste com as tuas escudeirices? que saiote me trazes? que sapatos para teus filhos?
- Não trago nada disso, mulher - disse Sancho - mas trago coisas de mais consideração e valor.
- Muito me apraz o que dizes - tornou a mulher; - mostra-me essas coisas de mais consideração e valor, para que se me alegre este coração que tão triste e desconsolado esteve sempre, durante os séculos da tua ausência."


[aqui continuam mais lamentos e cobranças e respostas de Sancho à esposa, até que ele encerra com essa belíssima fala:]

"- Não queiras saber tudo tão depressa, Joana; basta conheceres que eu digo a verdade, e dá um ponto na boca: só te direi, assim de passagem, que não há coisa mais saborosa neste mundo do que ser um homem honrado escudeiro de um cavaleiro andante, que sai a cata de aventuras. É bem verdade que a maior parte das que se acham não vêm tanto ao nosso gosto, como uma pessoa quereria, porque, de cem que se encontram, noventa e nove costumam ser avessas e torcidas. Sei-o eu por experiência, porque de algumas saí manteado e de outras moído; mas, com tudo isso, é linda coisa esperar os acontecimentos, atravessando montes, esquadrinhando selvas, calcando penhas, visitando castelos, pousando em estalagens, à discrição, sem pagar um maravedi só que seja."

26 de ago de 2009

37, not out!

(Sobre meu aniversário, hoje, 26 de agosto, acompanhado de Michael, João Lua, Max, Iara & outros mais...)

Parodiando o Millôr:

...........................Velhinho bacano
.................Ainda banca
.............................O ser humano

Mas tô longe da autocomplacência ou do medo da idade. Ainda exibo todos os sintomas da infância, inclusive um constante maravilhamento com o mundo, o encantamento com as pessoas & coisas e a completa ignorância do funcionamento de uma escada rolante. Algumas coisas passaram com o tempo, como o marxismo, o rock’n’roll, as pernas da Catherine Deneuve e o medo de alma – esse substituído por um salutar medo do que vai na alma das pessoas. Mas ainda tenho a capacidade de indignar-me com o mundo, de sofrer, de rir, de morrer de raiva das injustiças e de acreditar em amor à primeira vista ou mordida. Com o tempo ainda virão aprendizados de lidar melhor com os sentimentos, com as pessoas, com a inevitabilidade das coisas. Com o tempo e talvez!, que às vezes prefiro ficar sempre assim, que a tal maturidade de vez em quando se parece demais com acomodação e com o baixar as armas.
Nesse último ano, escrevi mais (e acho que até melhor, um pouco), pensei mais, li mais, falei mais (e demais, às vezes), e ri muito, muito. Descobri coisas fantásticas nos livros, na internet e nas pessoas. Descobri algo, principalmente, de que já desconfiava: se a gente abandonar a rotina e o medo e a segurança, a gente percebe que sabe sempre só a ponta do iceberg – principalmente das pessoas. E viver pode não ser nada perigoso, pode ser muito, muito gostoso – mesmo quando dói.
E às vezes vêm surpresas tão boas que parecem uma espécie de realismo fantástico – estar em Inhotim, por exemplo, e amar de novo, completa e inteiramente, com o sentimento de deslumbramento & gostosuras do mundo e agradecendo ao Velho Continente por ter devolvido Mari.
Então, ano novo pra mim, de armas e bagagens em cima de Rocinante, para as delícias, desafios, travessuras, dores e amores que por aí apontam. Fazer como Sócrates, que, ao ser condenado à morte, faltando cinco minutos para o fim, estava aprendendo a tocar uma ária na flauta: perguntado por um guarda o porquê de aprender aquela ária já que ia morrer em poucos minutos, ele retruca, espantado: “ora, pra saber essa ária antes de morrer!”

America

Um dos bons programas que vi nos últimos tempos foi a série "Stephen Fry in America", onde o comediante e escritor inglês faz um tour por todos os estados americanos. Além de ser um intelectual de alto coturno, o Fry também é uma pessoa extremamente aberta e calorosa, o que o leva a não ter tantos preconceitos com os americanos. E a série também aborda o "americano real", as pessoas comuns. E ele vai realizando alguns sonhos da cultura pulp, trash, de filme B, que os americanos impingiram no resto do mundo: andar a cavalo no Velho Oeste, conhecer Navajos, dar tiros com o revólver do John Wayne... outros, ao contrário, puro cult: ir no bar do Morgan Freeman, passear em Chicago com o Buddy Guy - de qualquer forma, personagens icônicos da cultura americana.
.....Mas já no final acontece um episódio que me fez rir: ele vai para o Alaska, conhecer os esquimós (nunca tinha me ocorrido que os esquimós são americanos, no fim das contas). E antes explica que os esquimós ainda vivem como seus ancestrais, que ainda caçam baleias, são os únicos que podem caçá-las por ali para preservar seu modo de vida, etc. E que caçam as baleias se orientando principalmente pelas estrelas, do mesmo modo que seus ancestrais. Bom, ele chega lá, conversa com os esquimós, um esquimó velhinho vai explicando o modo de vida deles, confirmando as coisas que o Fry já tinha explicado e tal. Mas na hora de pescar as baleias, o velhinho esquimó olha pra cima, confere as estrelas... mete a mão no bolso e tira um GPS! Fiquei morrendo de rir da cara de espanto do Fry: "Oh, my"...

25 de ago de 2009

Finais

Escrevi sobre começos de livros - começos fantásticos, que prendem a gente até o final do livro, tal a força das palavras. E os finais? Acho a sensação de terminar o livro às vezes traumatizante. Não queria que Guerra e Paz acabasse, e já o reli pelo menos uma dezena de vezes. Com o Grande Sertão: Veredas, mesma coisa - no final fui até "economizando" o livro, lendo um pouquim de cada vez...
Algumas experiências interessantes: li o Almas Mortas, do Gogol, muito cedo - cedo demais, até. E no fim do calhamaço vinha dizendo que estava incompleto, que o Gogol tinha queimado a última parte, etc. Deu vontade de matar a bibliotecária que tinha indicado o livro e que, obviamente, nunca tinha lido a porcaria. Vi esses dias uma exposição do Chagall onde ele fez uma série de gravuras influenciado pelo livro; pesquisando, descobri que o livro é considerado terminado do jeito que está, mesmo. Não reli ainda, tamanho o trauma - apesar de saber que é considerado uma das obras monumentais da literatura mundial. Chego lá - mas pelo que lembro não tem um fim definitivo, não, mesmo que seja um deleite literário.
Outro que ficou entalado na garganta: A Guerra do Fim do Mundo, do Vargas Llosa, que conta Canudos sob outra perspectiva. É que o Llosa chama o personagem Euclides da Cunha de "Jornalista", nunca pelo nome. E fiquei o livro todo, "que truquezinho barato, no final ele vai falar o nome do jornalista como se fosse um bum!, uma revelação, mágica besta...", não conseguia tirar essa birra da cabeça e não consegui prestar atenção direito no livro. No fim, não, ele não "revela" o nome... Falando em Canudos, o melhor final de toda a literatura, para mim, poderia ser o de Os Sertões, não fosse o Euclides ter continuado ainda por página e meia. Mas se tivesse parado nisso, seria inatacável e inalcançável. Onde está, continua belíssimo:

"Fechemos este livro.
Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados."

PS: Mais uma birra besta: alguém mais acha que devia ser "resistiu até O esgotamento completo"?

24 de ago de 2009

Ensino religioso

O acordo entre o Vaticano e o governo brasileiro tem dado o que falar - e agora foi "contra-atacado" pela apresentação da "Lei Geral das Religiões". Como dizem todos eles, religiosos, um pecado não justifica o outro... no meio da balbúrdia toda, vai acabar passando uma lei que obriga o ensino religioso de todas as religiões em todas as escolas e equipara todas elas no âmbito das repartições públicas, com a permissividade de penduricalhos de todos os deuses do mundo.
A idéia da Lei Geral das Religiões é que, já que há privilégios para os católicos, então se adote a máxima "ou nos locupletemos todos ou restaure-se a moralidade" - equiparação total de todas as religiões. Ótimo.
A se seguir o princípio ao pé da letra, agora as crianças vão poder aprender que certa entidade indígena botou um toco de pau pra andar, com umas penas em volta da cintura e um mundo verde pra tomar conta. Ou que os deuses se reuniram em Teotihuacán para discutir a quem caberia a missão de criar o mundo, tarefa que exigia que um deles se jogasse dentro de uma fogueira. Ou que um deus entediado e libidinoso resolveu criar uma companheira e daí acidentalmente veio a espécie humana. Ou que somos fruto da união do Sol e da Lua, que desciam à terra para pequenos rendez-vous proibidos para menores... As crianças já aprendem que um ser superior soprou num boneco falante de barro (ou o boneco de barro passou a ser falante depois do sopro?), que teve um descendente que comeu uma baleia - e que quando esses descendentes morrerem vão ficar esperando um dia do julgamento onde vão chocar da terra e sair piando pela via láctea até ser decidido se vão virar churrasco ou serem soltos nas nuvens pra tocar harpa.
Acho que ensino religioso deve ser deixado para os pais e instituições interessadas – não cabe às escolas nem mesmo discutir religião, que é questão de foro íntimo. Mas colocar o ensino religioso junto com aulas de biologia, matemática e física é dar a ele um status de ciência que não tem e no mínimo fazer da sala de aula o espelho dos preconceitos culturais e sociais do “mundo lá fora”.
A César o que é de César.

Post Scriptum: Também acho que deviam parar de dizer que descendemos dos macacos. Pelo que tudo indica, o que tivemos foram ancestrais comuns, nós e os macacos. E por tudo que vemos por aí, dizer que descendemos dos macacos ofende os macacos.

21 de ago de 2009

Macaco Pelado

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"The Naked Ape", o macaco nu, é um livro do Desmond Morris onde ele tenta uma abordagem da espécie humana como se fosse um observador de fora, um biólogo fazendo um estudo extensivo sobre um bicho qualquer - o que dá ao livro um sabor inusitado e leva a observações interessantíssimas. Começa assim: "Há 193 espécies de primatas (monkeys and apes). 192 delas são cobertas por pêlos. A excessão é um macaco pelado que se autodenomina Homo Sapiens. Se orgulha de ter o maior cérebro dentre essas espécies mas esconde o fato de que tem também o maior pênis." Aborda hábitos, crenças, comportamentos, tudo a partir do ponto de vista de um cientista. Às vezes viaja, mas mesmo assim mata de rir (me mata de rir, o livro é sério) – aliás, valeria colocar no prefácio a famosa frase do Millôr: “O homem é o único animal que ri. E rindo ele mostra o animal que é.”
Pois no meio da leitura me veio a lembrança de um meu professor, pernambucano, engraçadíssimo, que chamava os outros de “bípede”: pois o bípede falou isso, pois o bípede falou aquilo, o bípede teve a coragem de..., tem um bípede batendo na porta, etc. Já tratava os alunos como os macacos nus que éramos (e chamava o Clodovil de “bípede emplumado”). Pois dentre essa raça de macacos nus, os pernambucanos certamente são especiais – professores especialmente. Ariano Suassuna conta um caso de Tobias Barreto, que nasceu sergipano mas foi um dos maiores expoentes da Escola de Recife:
Tobias Barreto era negro, feio e pobre – uma barra pesada no final do século XIX. Fez concurso várias vezes para professor e era sempre preterido por causa do preconceito. Finalmente, os estudantes se levantaram e protestaram e ele finalmente foi aprovado – mas guardou uma grande mágoa dos colegas por conta desse episódio. E não perdia a oportunidade de contar que os professores seus colegas eram tão rotineiros, mas tão rotineiros, que um dia um deles contou uma piada em sala e todo mundo riu, menos um aluno, sentado no fundo. O professor ficou incomodado e perguntou:
- Você aí atrás, você não riu, você não achou graça não, é?
E o aluno responde:
- Né não, professor, é que eu sou repetente, já ri o semestre passado!

20 de ago de 2009

Os novos viciados


Poder corrompe: essa máxima antiga está cada dia mais válida e mais visível na política brasileira. Poder vicia, também. Ontem, num esforço ridículo e baixo, os senadores do PT votaram a favor da corrupção e do desmando e absolveram José Sarney. Como aqueles novos viciados que ainda se envergonham da baixeza onde o vício os levou, tentaram disfarçar e se esconder: Delcídio Amaral chegou a usar óculos e colocar livros na frente do rosto! Ideli Salvatti e João Pedro não chegaram nem perto do microfone, votando sorrateiramente, olhando medrosos para as câmeras de televisão, querendo se esconder do público, do eleitor. Foram um dia de um partido que se dizia progressista, honesto, de esquerda, vigilante contra os desmandos e corrupções da política brasileira. Estão agora como os viciados da cracolândia do poder - o vício sujo da corrupção, dos interesses escusos e do clientelismo está pegado a eles com o carimbo da baba viscosa do Sarney, com o peguento aperto de mão do PMDB, a carteirinha de membro efetivo e proeminente do clube da velha política.
Pelo menos um dos senadores do partido, o Flávio Arns, disse ter vergonha de estar no PT. Os senadores que votaram pediram para ser substituídos, porque têm candidatura pela frente. Não discordam! Eles não discordam do que fizeram, eles só queriam fazer essas coisas escondidos, pois pega mal uma traição tão patente ao eleitor. Mas se depender do chefe mor da quadrilha, o Lula, o eleitor ficar sabendo dessas coisas não deveria acontecer. Fala dele: "Este país teve um presidente que governou com mão dura durante 15 anos, chamado Getúlio Vargas (...) esse homem, em quatro anos de democracia, foi levado ao suicídio porque era chamado de ladrão todos os dias". Taí, esse inspirado guia genial dos povos: a culpa não é da corrupção, da jogatina, da esculhambação, das alianças espúrias. A culpa é de quem divulga isso. É por conta desses meliantes da imprensa que os senadores do PT ainda têm que se esconder para praticar esses atos vergonhosos dos viciados em poder, se vender, se prostituir em frente às câmeras, e não nos escurinhos dos corredores do Congresso... ainda vão conseguir, quem sabe, seguir o exemplo do Chaves e tapar a boca dos adversários, para que possam se refestelar e se esponjar no vício da corrupção e da prostituição moral sem se preocupar com quem está olhando.

19 de ago de 2009

Napoleão

O grande Napoleão, um dos maiores generais da história e também um dos maiores egos de todos os tempos, tinha algumas características interessantes. Baixinho, parecia o tempo todo querer dizer ao mundo que valia cada milímetro acima da Terra. Mulherengo, tinha alguns hábitos estranhíssimos – certa vez escreveu do campo de batalha para Josephine, sua paixão e depois esposa: “Chego amanhã. Não tome banho.”
Foi acusado de dezenas de coisas, desde roubar o nariz da Esfinge do Egito até saquear tesouros nacionais e artísticos de outros países, além de incendiar Moscou. Dono de um orgulho infinito, a sua maior humilhação, entretanto, não ocorreu no campo de batalha:
Acontece que Napoleão gostava de reunir a nobreza e a alta sociedade de Paris ao seu redor – adorava um puxa-saco. E dava festas estrondosas, gostava. Pois numa dessas festas, ele resolveu promover uma caçada para todos os convidados tomarem parte. E encarregou o mordomo do Palácio de comprar algumas centenas de coelhos para a ocasião, além de ter desarmado um regimento inteiro de modo que todos os convidados tivessem sua arma e a oportunidade de matar pelo menos um bichinho.
O mordomo (talvez um adepto vingativo da Revolução que Napoleão desvirtuara), ao invés de comprar coelhos selvagens – aliás, tem como comprar coelho selvagem? Tem coelho selvagem? Coelho “natural”, digamos, desses do mato mesmo – comprou coelhos criados em cativeiro. Bom, um defeito dos coelhos criados em cativeiro: eles não correm das pessoas. E na hora da festa começar, eis que um baixinho de chapéu esquisito e mão na barriga, como se estivesse carregando ração, se dirige a um descampado cheio de centenas de coelhos famintos. Napoleão descobre então que os coelhos criados em cativeiro correm para as pessoas, especialmente se acham que é hora da ração – que foi exatamente o que fizeram, centenas de coelhos correndo desesperados pra cima do baixinho esquisito, que não teve outra alternativa senão sair correndo desabalado, na frente de toda a alta sociedade e nobreza ali reunidas.
Napoleão perdeu pouquíssimas batalhas, e nunca, nunca, exceto dessa vez, foi posto pra correr... literalmente. Haja orgulho ferido.

* Antes que perguntem, o caso é verídico, sim!

18 de ago de 2009

Monoglota

Depois de ser gozado pelo post Poliglota, resolvi contar aqui um fato real de verdade que aconteceu mesmo com o nosso famoso Carlos Gomes – é, o das óperas. Um monoglota renitente, depois de adquirir certa reputação internacional foi convidado a se apresentar regendo a Filarmônica de Nova York. Foi, mas foi com um pé atrás: não falava nada de inglês. Mas lhe deram aquela cantilena de música ser “língua universal”, etc., e ele acabou aceitando. Saiu daqui com alguns conselhos e duas frases que um amigo garantiu que seriam suficientes: já que ia se apresentar num dia e voltar no outro, e só ficaria sozinho no hotel e no palco, bastaria decorar “fried eggs, please”, "ovos fritos, por favor", que era o seu café da manhã normal, e “Thank you, thank you” para agradecer os aplausos no final da apresentação.
Com isso na cabeça, chega ao Metropolitan de Nova York, faz uma esplêndida apresentação e é ovacionado por vários minutos, de pé – levado pela emoção do momento, aplaudido de pé num dos palcos mais prestigiados do mundo, dirige-se comovido à platéia: “Fried eggs! Fried eggs!”.
No dia seguinte é manchete do New York Times: “Brasileiro excêntrico encanta platéia no Metropolitan”...

17 de ago de 2009

Começos

Topei esses dias com duas "ferramentas para escritores": um "começador" de textos e um "acendedor" de idéias. Explico: dentro daquela idéia tão americana de criar bugigangas para todos os tipos de serviços (já vi um aparelhinho que apita na hora de colocar o pé na escada rolante pra não arriscar um tropeço), dois sites oferecem ajuda aos escritores em dificuldades - um, o "The Story Starter", começa o texto com uma frase aleatória, de um suposto banco de frases com mais de 370 milhões delas. Sai coisas engraçadas como "O desleixado ganhador do prêmio cantou uma canção de ninar para o caçador no supermercado", ou "o padeiro ganancioso serviu café num túnel estreito para o médico"! Imagino o tipo de escritor que segue essas idéias... Bão, serviria teoricamente para superar o terror da página em branco, que acomete tanta gente. O outro tem um nome digno do Casseta e Planeta e suas bugigangas Tabajara: The Imagination Prompt Generator, ou um gerador de idéias, ativador de imaginação, sei lá. Idéias sugeridas: "Se você pudesse inventar algo, o que seria?", "Por que você faz o que faz?", e por aí vai...
Ri um bocado até começar a lembrar dos começos de livros, e tive a curiosidade de abrir alguns deles - quase todos começam ou de maneira pomposa ou completamente comum: "Era uma quarta feira...", "A noite baixava sobre a cidade", essas coisas. Guerra e Paz começa com um diálogo, direto. Um dos meus preferidos, o Declínio do Gibbon, começa assim:

"No segundo século da era cristã, o império de Roma abrangia a mais bela parte da terra e o segmento mais civilizado da humanidade. As fronteiras daquela vasta monarquia eram guardadas por antigo respeito e disciplinada bravura."

Entretanto, dois começos para mim são insuperáveis:

"– NONADA. TIROS QUE O SENHOR ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser – se viu –; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: determinaram – era o demo. Povo prascóvio. Mataram. Dono dele nem sei quem for. Vieram emprestar minhas armas, cedi. Não tenho abusões. O senhor ri certas risadas... "
Grande Sertão, claro. E outro, que está entre os melhores que já vi, do Calvino:

"SOB AS MURALHAS VERMELHAS DE PARIS perfilava-se o exército da França. Carlos Magno ia passar em revista os paladinos. Encontravam-se ali havia mais de três horas; fazia calor, era uma tarde de começo de verão, meio encoberta, nebulosa; quem usava armadura fervia como se estivesse em panelas em fogo baixo. É provável que, naquela fila imóvel de cavaleiros, alguém já houvesse perdido os sentidos ou cochilasse, mas a armadura os mantinha empertigados na sela de modo uniforme. De repente, três agudos de corneta: as plumas dos penachos agitaram-se pelo ar parado como depois de uma rajada de vento, e logo silenciou aquela espécie de rumor do mar que se ouvira até então, e era, deu para sentir, um ressoar das gargantas metálicas dos elmos. Finalmente, vislumbraram-no avançando lá do fundo, Carlos Magno, num cavalo que parecia maior que o natural, com a barba no peito, as mãos no arção da sela. Reina e guerreia, guerreia e reina, faz e desfaz, parecia um tanto envelhecido, desde a última vez que aqueles guerreiros o tinham visto.

Parava o cavalo diante de cada oficial e virava-se para examiná-lo de alto a baixo.
— E quem é você, paladino da França?
— Salomon da Bretanha, sire! — respondia o militar a plenos pulmões, erguendo a viseira e mostrando o rosto afogueado; e acrescentava alguma informação prática, do tipo: — Cinco mil cavaleiros, três mil e quinhentos soldados de infantaria, mil e oitocentos ajudantes, cinco anos de campanhas.
— Mão firme com os bretões, paladino! — dizia Carlos, e, toc-toc, toc-toc, aproximava-se de outro chefe-de-esquadrão.
(...)
— E você? — O rei chegara à frente de um cavaleiro com a armadura toda branca; só uma tirinha negra fazia a volta pelas bordas; no mais era alva, bem conservada, sem um risco, bem-acabada em todas as juntas, encimada no elmo por um penacho de sabe-se lá que raça de galo oriental, cambiante em cada nuance do arco-íris. No escudo, exibia-se um brasão entre duas fímbrias de um amplo manto drapejado, e dentro do manto abriam-se outros dois panejamentos tendo no meio um brasão menor, que continha mais um brasão amantado ainda menor. Com desenho sempre mais delicado representava-se uma seqüência de mantos que se entreabriam um dentro do outro, e no meio devia estar sabe-se lá o quê, mas não se conseguia discernir, tão miúdo se tornava o desenho. — E você aí, que se mantém tão limpo... — disse Carlos Magno, que, quanto mais durava a guerra, menos respeito pela limpeza encontrava nos paladinos.
— Eu sou — a voz emergia metálica do interior do elmo fechado, como se fosse não uma garganta mas a própria chapa da armadura a vibrar, e com um leve eco — Agilulfo Emo Bertrandino dos Guildiverni e dos Altri de Corbentraz e Sura, cavaleiro de Selimpia Citeriore e Fez!
— Aaah... — fez Carlos Magno, e do lábio inferior, alongado para a frente, escapou-lhe também um pequeno silvo, como quem diz: "Se tivesse de lembrar o nome de todos estaria frito!". Mas logo franziu as sobrancelhas. — E por que não levanta a celada e mostra o rosto?
O cavaleiro não fez nenhum gesto; sua direita enluvada com uma manopla férrea e bem encaixada cerrou-se mais ainda ao arção da sela, enquanto o outro braço, que regia o escudo, pareceu ser sacudido por um arrepio.
— Falo com o senhor, ei, paladino! — insistiu Carlos Magno. — Como é que não mostra o rosto para o seu rei?
A voz saiu límpida da barbela.
— Porque não existo, sire.
— Faltava esta! — exclamou o imperador. — Agora temos na tropa até um cavaleiro que não existe! Deixe-nos ver melhor.
Agilulfo pareceu hesitar um momento, depois com mão firme e lenta ergueu a viseira. Vazio o elmo. Na armadura branca com penacho iridescente não havia ninguém.
— Ora, ora! Cada uma que se vê! — disse Carlos Magno. — E como é que está servindo, se não existe?
— Com força de vontade — respondeu Agilulfo — e fé em nossa santa causa!
— Certo, muito certo, bem explicado, é assim que se cumpre o próprio dever. Bom, para alguém que não existe está em excelente forma!"

14 de ago de 2009

Poliglota

[Clique na figura para ampliá-la]

.....Há coisa de duas décadas (meu deus! Já estou falando em décadas! Deve ser daí que vem decadência...), quando meu inglês era muito, muito pior do que agora – inexistente, na verdade - decidi restringir minhas viagens. O trauma com os Estados Unidos tinha fincado raízes: pedia pra ir ao Museum of Modern Art e o taxista invariavelmente me levava pra uma feira. No hotel em Nova York passei uma semana vivendo de geléia e peixe cru, e isso mesmo tendo treinado durante horas a pronúncia de filé com fritas, bife, arroz e outros que o dicionário trazia; e quando pedi pra falar com o gerente do hotel me trouxeram uma melancia.
.....Depois disso, pensei, só Portugal mesmo. E fugindo do povo do Minho, que não entendo até hoje. Mas o tal do destino inexorável me fez das suas... primeira viagem para Lisboa, na escala em Roma começaram os problemas: defeito na turbina, tivemos que trocar de avião. Que fazia escala na Finlândia... uma das minhas características desagradáveis é não dar o braço a torcer. Mesmo em português, dificilmente peço pra repetir uma frase ou pergunta: fico balançando a cabeça, de vez em quando dou um sorriso imbecil e sigo em frente. Com gente falando estrangeiro, então, a tática funciona perfeitamente: consigo sempre ser tomado por um completo imbecil quando dou meu sorriso imbecil (“Socorro! Estou tendo um ataque cardíaco! Chame uma ambulância”, em russo, e eu sorrio, balanço a cabeça compreensivo e continuo andando). Fingir que está entendo é de uma sabedoria infinita – de onde vem essas idéias, sinceramente não sei.
.....Mas foi exatamente o que fiz na Finlândia: o comandante falou alguma coisa, algumas pessoas se levantaram e eu fui atrás. Lá na frente percebi que eram pouquíssimas as pessoas que tinham saído do avião e perguntei a uma delas, no inglês macarrônico, se era pra ter descido mesmo, e depois de uma resposta incompreensível numa língua desconhecida, dei meu sorriso imbecil e saí correndo atrás do avião. Que já tinha decolado, obviamente. Aeroporto da Finlândia, um dos países mais monoglotas da Europa ao lado de Portugal – pedi informações e a atendente me deu um sorriso imbecil, balançou a cabeça e continuou andando.
.....Comecei a ficar desesperado – cada tentativa de comunicação terminava com alguém sorrindo de maneira imbecil ou fechando a cara pra mim. Pedi um sanduíche e me deram um jornal. Percebi que os banheiros não tinham símbolos, mas “homem” e “mulher” em finlandês, e quase usei uma árvore do saguão antes de um sujeito finalmente entrar no banheiro dos homens e eu correr atrás.
.....Seis horas e muitas tentativas frustradas depois, comecei a ficar nervoso. Uma última tentativa com o cara do guichê e alguns guardas mal encarados apareceram. Fiquei completamente desesperado e histérico, fui para o meio do saguão e comecei a gritar, freneticamente: “Todo mundo nessa porra de lugar é viado! Só tem bicha nessa merda! Esse é um país de filho da puta! Todo mundo nesse lugar é bicha!” Ao que uma cabecinha apareceu na porta do banheiro, levantou o dedo e falou com um distinto sotaque paraibano: Eu não!
.....Ajoelhei aos pés do sujeito, em lágrimas. Peguei o primeiro avião pra Lisboa em meia hora, fácil, fácil. E fui direto pra uma livraria comprar um curso de inglês.


* O caso é quase todo ficcional, imitando aqueles relatos naif da década de 30. Aprendendo a escrever ficção. Ficou péssimo, mas escrever é treinar, né?

13 de ago de 2009

Links - Livros

Não consigo ver o livro de pixels, na tela, mesmo que num aparelhim leve, substituindo o livro normal - como diz o Eduardo Lourenço, "há sobretudo esse tempo que é transportado fisicamente pelos livros. Esse pó que fica nos livros. O pó do tempo. Nos novos instrumentos não haverá pó. É só o que lhes falta. Esse pó quer dizer o tempo, a própria essência da nossa vida." Menos poeticamente, enquanto eu não puder levar pro banheiro, fazer uma orelha, deixar aberto em uma página pra retomar mais pra frente, não me convence. Engraçado, acho que é principalmente essa sensação de espaço do livro que me fascina - o meio do livro, o fim, quantas páginas, abrir "mais pro meio", abrir à toa. O "amor tátil" de que o Caetano fala.

Mas tenho usado mais e mais dois tipos de livros: os ebooks, livros pra serem lidos na tela, e os audiobooks, pra escutar, andando ou no carro. Os ebooks têm algumas vantagens: a pesquisa é dezenas de vezes mais fácil, as referências, índices, mesmo dicionários, são extremamente fáceis de usar em conjunto. A facilidade de clicar em uma palavra ou autor ou citação desconhecidos e ir para uma página da Wikipédia ou do Houaiss é fascinante. Os audiobooks têm a vantagem da mobilidade: eu vou para a UFMG e fico as vezes quarenta minutos, uma hora, no trânsito. Nos dois casos, livros mesmo - digo, literatura em geral - não acho tão bons e quase não uso. No caso dos ebooks, ainda vai, mesmo que ler um Tolstói com 800 páginas na tela seja um prato cheio pra qualquer oftalmo. Mas os audiobooks são chatos mesmo, não tem o "nosso" tempo, aquele tempo onde sua imaginação salta e você fica na mesma página por horas, ou as questões surgem e você se pergunta milhares de coisas ao mesmo tempo, o livro na sua frente vira uma miragem, um ponto no infinito, enquanto você devaneia solto. Mas você tem literalmente milhares de cursos, palestras e aulas disponíveis, e esses são ótimos para ouvir.

Os melhores sites em português que encontrei: no caso tanto dos ebooks quanto dos audiobooks, as grandes livrarias e os sites como Submarino têm seções específicas para eles. Mantendo o foco em fontes abertas e gratuitas (o que infelizmente não significa legais):

www.livrosparatodos.net – de longe o melhor. Encontrei de Le Goff a Marc Bloch, de Calvino a Leminski, além de Harry Potter, Jorge Amado, Machado de Assis e úscambau. Tem quase tudo que as grandes livrarias oferecem, de graça. Alguns exigem que se baixe um software para download, ou oferecem um link alternativo que te faz esperar um tempo antes de poder baixar o livro.

www.scribd.com e www.esnips.com – têm propostas semelhantes: são redes onde os usuários colocam documentos, livros, teses, etc., à disposição uns dos outros. A maior parte material escaneado, disponível em pdf ou doc. Alguns não tão bem escaneados, outros perfeitos, nesses o trabalho de busca é maior, mas oferecem também uma maior variedade de documentos. Complementam o site anterior – se não acharem nada lá comecem a pesquisar nesses. Achei Marshall Berman, Calvino, Ezra Pound e outros por aqui.

www.dominiopublico.gov.br – a proposta é parecida com o www.gutenberg.org, o “pai” de todos esses: colocar à disposição do público em geral todos os livros que são de domínio público. Enquanto o Gutenberg tem milhões de livros, o DomínioPúblico já tem algumas centenas – inclusive quase todos aqueles chatíssimos de vestibular, tipo José de Alencar, os Sermões do Vieira e Machado de Assis. O formato deixa a desejar, e só uso se não encontro edições mais recentes nos sites anteriores.

Sites para áudio:
Em português já temos bastante coisa nesse segmento, mas infelizmente o “filão” que eu gosto, que são as aulas e cursos de humanidades, ainda não apareceram. Além das grandes livrarias, os sites www.audiolivro.com.br, www.universidadefalada.com.br e plugme.vendapontocom.com.br são os sites comerciais dedicados com maior acervo. Os gratuitos são pouquíssimos e encontram-se na www.bibvirt.futuro.usp.br, www.librivox.org e no www.dominiopublico.org.br – até agora contei algo em torno de 80, a maior parte de obras “clássicas”, aquele porre. Já no segmento “olho de vidro, perna e cara de pau”, temos o Áudio Livros em MP3 e o Viciados em Livros, que têm um acervo grande e parecido com o das livrarias. Mais coisas muito interessantes e outras dicas no blog do Alessandro Martins, que a partir de hoje está na Minha Lista de Blogs - http://livroseafins.com/, como "Os 1.997 livros mais procurados no Domínio Público para baixar grátis" e "52 livros para ouvir grátis".

* se conhecerem mais sites, principalmente gratuitos, peço que me mandem email para atualizar o post.

12 de ago de 2009

Sic Transit Gloria Mundi

Mais uma semana do Senado: sic transit gloria mundi, se a glória do mundo é passageira, a mediocridade veio para ficar. Agora começa novamente a delicada valsa dos calhordas: movimentos suaves de acomodação em uma e outra direção, até que a opinião pública se distraia e todos voltem aos seus lugares... Afinal de contas, divulgou-se malfeitos também da oposição (que surpresa!), e agora o melhor é que todos se acalmem, conversem, etc.
Aqui fica transparente a mais perversa das posições: se atacamos todos, não conseguimos nada. Para conseguirmos algum avanço contra a corrupção, o clientelismo, o patrimonialismo, devemos esquecer os pecadilhos dos “amigos”, para melhor fustigar os inimigos. Aí, um pouco sem graça, a imprensa emite notas, fala um pouco com uma luz medianamente simpática do acontecido – dois pesos e duas medidas, mas tudo para o “bem maior”. E ficamos reféns da mediocridade “menos ruim”. Não funciona!
Os petistas em geral – digo os militantes e simpatizantes – e a maioria dos eleitores conscientes do Lula têm vivido esse dilema: descobriu-se que a cúpula do partido é leniente e negligente, quando não corrupta com força, e não se diz nada para não entregar o governo a “eles”, a oposição demonizada. Nas conversas, sempre vem a história do “mas pelo menos”. Que medíocre, que baixo, que horror que as nossas melhores aspirações, nossos sonhos e utopias de crescimento social, de inclusão, liberdades democráticas, luta contra desigualdades econômico-sociais, tenham se reduzido à aceitação bovina de desmandos em nome de caraminguás jogados na arena, pão e circo para a massa ignara... a explicação ou desculpa é que não há alternativa. Não? Não mesmo? E a militância que saía às ruas, não pode ser repetida? E as passeatas, as bandeiras, a luta – ficou fora de moda acreditar em alguma coisa, lutar, gritar, reclamar?
Acho que essa dicotomia onde a condenação das alianças, corrupções e desmazelos do atual governo corresponde a uma defesa da volta dos corruptos anteriores tem que acabar. É o espantalho colocado diante de nós: “somos os melhores corruptos disponíveis”, parecem gritar como se fosse vantagem. Ao mar com todos eles, e começamos de novo. De vez em quando devíamos fazer como nossos ancestrais fizeram com o bispo Sardinha – devoramos, cagamos os restos e mandamos o recado: mandem outros.

11 de ago de 2009

Links

Continuando a publicação de links interessantes - principalmente nas áreas de cultura, ensino e informação:

Porta Curtas, iniciativa da Petrobrás que mantém um grande acervo de curtas, sendo que mais de 600 estão disponíveis para assistir on line. Através de um cadastro, pode-se exibir os curtas em qualquer site ou blog - como os que estou colocando hoje.

Livroclip - segundo os próprios: "LivroClip é a moldura digital do livro, incluindo uma animação sobre a obra, trechos, biografia do autor e uma seção especial que transforma o livro em material pedagógico gratuito para uso de professores em salas de aula do ensino fundamental, médio e superior." Quando acessei a primeira vez assisti logo ao do "Inferno de Dante", e quase morri de rir - eles imitam um jogo para falar do livro, uma piada. Abaixo:



Dois curtas muito bons que estão disponíveis no PortaCurtas, inclusive para download:

Ilha das Flores - Um ácido e divertido retrato da mecânica da sociedade de consumo. Acompanhando a trajetória de um simples tomate, desde a plantação até ser jogado fora, o curta escancara o processo de geração de riqueza e as desigualdades que surgem no meio do caminho.



A Pessoa é Para o Que Nasce - A vertigem da visão. A ausência que provoca excesso. O compromisso com a sobrevivência. A experiência da vida através da falta. Três irmãs cegas cantam em troca de esmola em Campina Grande, Paraíba. (Tem um longa passando no Canal Brasil, de mesmo nome, que se originou desse curta)

10 de ago de 2009

O Poder da Arte

Minissérie da BBC abordando 8 grandes artistas - segundo seu realizador:
"Esta série não representa uma simples visita a uma galeria de arte em busca da obra-prima mais bela de todos os tempos. É, pelo contrário, uma descida ao vulcão da imaginação criativa, aos fogos ardentes onde os humanos trabalharam e moldaram alguns dos seus feitos mais importantes." Simon Schama
Reuni os vídeos em "playlists", o que significa que os vídeos de cada artista irão passar um após o outro, não sendo necessário clicar em cada um deles - devido às limitações do Youtube, o maior segmento pode ter no máximo 10 minutos.
[dos 8 programas, somente 5 estão disponíveis no Youtube - assim que conseguir os demais (David, Turner, Kothko), atualizarei o post]

Nascido em Groot-Zundert, Holanda, Van Gogh passou os primeiros anos de sua vida como comerciante de arte, professor e pastor na Inglaterra, Holanda e Bélgica. Seu período como artista começou em 1881 quando decidiu estudar arte em Bruxelas, começando com aquarelas e rapidamente migrando para tinta a óleo. As paisagens francesas foram uma influência importante em sua vida e seus primeiros trabalhos eram dominados por sombras, cores terra retratando trabalhadores camponeses dentre os quais o famoso é Os Comedores de Batata, de 1885.
A visão de Caravaggio da pintura era incomum. Ele evitou o método padrão de fazer cópias das velhas esculturas e em lugar disso passou a pintar diretamente sobre a tela sem antes esboçar. Ele também usou pessoas da rua como seus modelos. Seus quadros dramáticos eram realçados com luz intensa e teatral.
O destino de Caravaggio foi selado em 1606 quando assassinou um homem num duelo. Fugiu para Nápoles onde tentou escapar dos problemas com a pintura, tornou-se um Cavalheiro, mas foi então aprisionado em Malta e depois finalmente chegou à Sicília. Foi perdoado pelo crime em 1610, mas morreu de febre tentando retornar a Roma.
Rembrandt teve sucesso na juventude como pintor de retratos para os ricos cidadãos de Amsterdam numa época em que a cidade estava se transformando de um obscuro porto para a capital do mundo. Seus quadros históricos e religiosos também lhe deram ampla aclamação. Apesar de ser conhecido como pintor de retratos, Rembrandt usou seu talento para expandir as fronteiras da pintura. Essa atitude fez dele impopular nos últimos anos de sua carreira conforme deixava de ser a principal atração da cidade para ser abandonado pela cena artística de Amsterdan e ser criticado por seus companheiros.
Nascido em Málaga, Espanha, seus vários estilos e a farta produção marcaram Picasso como um dos mais reconhecidos artistas do século 20. Não se limitou a apenas uma mídia, criando esculturas, entalhes e gravuras. Sua carreira artística começou a crescer depois de mudar-se para Paris em 1900. Seu Período Azul, refletindo a cor e seu humor à época, foi seguido pelo Período Rosa, trabalho inspirado pela arte primitiva e depois o Cubismo, que chocou os críticos, mas que ao final das contas lhe trouxe a fama.
Nascido em Nápoles, Bernini era um talento precoce e dominou o mundo artístico na Roma do século 17. Seu trabalho sintetizava o estilo barroco e suas esculturas, interiores e exteriores de igrejas e planejamento urbano podiam ser vistos em todo lugar. Bernini trabalhou sob a tutela de vários Papas: Gregório XV fez dele um Cavaleiro e Urbano VIII o tinha como seu melhor amigo. Foi reverenciado em sua época até que num acesso de ciúme retalhou o rosto de sua amante depois de descobrir seu romance com com seu irmão. Sua reputação caiu ainda mais depois que seus campanários para a Catedral de São Pedro começaram a rachar em 1641. Redimiu-se e recomeçou sua carreira novamente com seu mais famoso trabalho, O Êxtase de St. Teresa, em 1652.

9 de ago de 2009

Minhas coleções no Youtube

Há pouco mais de um ano tenho reunido vários vídeos sobre assuntos diversos colocando-os no Youtube - alguns, como os documentários da BBC ou da WBGH, tive de legendar antes, trabalhão grande. Mas valeu a pena, principalmente pelos contatos com tantas outras pessoas que se dispõe a divulgar esse tipo de informação. Abaixo, algumas das minhas coleções:

Stephen Fry - 50 not out

Ótimo documentário sobre Stephen Fry. Pouquíssimo conhecido por aqui, ele é um "homem renascentista", ator, comediante, escritor, diretor, entre tantas outras atividades - e brilha em todas elas. Uma figura humana de rara elegância e intelecto ainda maior do que o coração.
Brasil, Brasil - Samba to Bossa

Um documentário fantástico da BBC, que postei no Youtube há alguns meses. São três partes - Do Samba à Bossa, Revolução Tropicalista, Um Conto de Quatro Cidades. Traça um panorama interessante da música brasileira usando a música como metáfora para a identidade do brasileiro: o fusionismo musical refletindo e reverberando a mistura de raças e culturas. Essa é a primeira parte (os últimos dois vídeos - são seis nessa parte - ainda não tive tempo de legendar, mas dá pra acompanhar), experimentando a Lista do Youtube - um vídeo se segue ao outro automaticamente, não havia utilizado ainda esse recurso.
O Povo Brasileiro - Matriz Tupi

Baseado no livro homônimo de Darcy Ribeiro, com o próprio, Chico Buarque e outros. Primeira parte com a nossa "herança índia" até a chegada dos portugueses. Um documentário fantástico, um mergulho profundo no Brasil e na alma brasileira, suas raízes, culturas, belezas e mistérios.
Broadway Bexiga

Broadway Bexiga 5 Videos
Especial "Bexiga Broadway", fantástico. Os teatros do Bexiga, peças, atores, Cacilda Becker, Zé Celso, Ruth Escobar, Chico Buarque... Era de Aquarius, Hair. Muuuuito bom. O nascimento do teatro brasileiro moderno, em uma de suas muitas florações - talvez a mais influente e permanente delas
Brasil, Brasil - Tropicália Revolution

Um documentário fantástico da BBC, que postei no Youtube há alguns meses. São três partes - Do Samba à Bossa, Revolução Tropicalista, Um Conto de Quatro Cidades. Traça um panorama interessante da música brasileira usando a música como metáfora para a identidade do brasileiro: o fusionismo musical refletindo e reverberando a mistura de raças e culturas.

Mapas Urbanos - São Paulo

"Tradução" de São Paulo através das visões e opiniões de Arrigo Barnabé, Luiz Tatit, Paulo Vanzolini, Arnaldo Antunes, Tom Zé, Regis Bonvicino, Nelson Ascher, Itamar Assunção... metrópole como work in progress. Lembra um pouco o Marshall Berman falando sobre a Nova York modificada pelo Moses.
Fernanda Torres no Estúdio Brasil

Similar ao Inside the Actor's Studio, entrevista com atores sobre carreira, papéis, teatro, cinema, etc. Fernandinha faz jus à fama e à genética
Nietzsche - Aula do Oswaldo Giacóia

Aula do Prof. Oswaldo Giacóia sobre O Impacto de Nietzsche no Século XX. Muito bom - apesar de pouco profundo devido ao tempo, aborda uma variada gama de assuntos e tópicos levantados pelo louco de água e estandarte, em sua filosofia a golpes de martelo.
Brasil, Brasil - A Tale of Four Cities

Documentário da BBC sobre música brasileira. A partir dos anos 80, a cena musical brasileira reflete de diferentes maneiras a sociedade e suas contradições, e em quatro cidades começa a tomar corpo novos estilos e ritmos que são a essência da nova música brasileira. Nessa parte, Recife e o Mangue Bit, depois Mangue Beat; a influência de Chico Science, Nação Zumbi, Siba e Mestre Ambrósio; descendo para São Paulo, Racionais MC. Para "portas abertas" e fusões em Pernambuco, sugiro ver Quinteto Armorial e Antônio Nóbrega, também.
Os Gregos

Os Gregos 7 Videos
O Prof. Donald Kagan explica por que deveríamos estudar os gregos antigos - não só devido às suas grandes realizações e contribuições para a civilização ocidental (como nos domínios das ciências naturais, direito e política), mas também porque oferecem uma perspectiva única sobre a humanidade. Para eles, o homem era tão nobre e importante quanto mortal e falível, capaz das maiores realizações e dos piores crimes. Uma figura trágica, poderosa, mas limitada. Por isso, ao estudá-los, temos uma visão sobre a tensão que tem dominado e moldado o Ocidente e o resto do mundo. Em suma, estudar os gregos é estudar a própria natureza da experiência humana.

O Povo Brasileiro - Completo

O antropólogo Darcy Ribeiro (1913-1997) foi um dos maiores intelectuais brasileiros do século XX. Esse DVD duplo traz todos os 10 programas da elogiada série baseada na obra central de Darcy: O Povo Brasileiro, em que o autor responde à questão "quem são os brasileiros?", investigando a formação do nosso povo.
Co-produzida pela TV Cultura, a GNT e a Fundar, a série conta com a participação de Chico Buarque, Tom Zé, Antônio Cândido, Aziz Ab´Saber, Paulo Vanzolini, Gilberto Gil, Hermano Vianna, entre outras personalidades.
O Povo Brasileiro é uma recriação da narrativa de Darcy Ribeiro, e discute a formação dos brasileiros, sua origem mestiça e a singularidade do sincretismo cultural que dela resultou. Com imagens captadas em todo o Brasil, material de arquivo raro e depoimentos, a série é um programa indispensável para educadores, estudantes e todos os interessados em conhecer um pouco mais sobre o nosso país.

Disponível [em 02/08/09] em http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/produto.dll/detalhe?pro_id=192375&ID=BD6529857D90803083A330517
Além do Cidadão Kane

Além do Cidadão Kane 4 Videos
Video da BBC sobre as articulacoes politicas da REDE GLOBO no Brasil desde o tempo da ditadura militar. [vídeos do usuário teixeraf]
Falcão - Meninos do Tráfico
Falcão - Meninos do tráfico
Documentário desenvolvido pelo Rapper Mv Bill, tratando da realidade diária do tráfico de drogas no Brasil. [vídeos do usuário cristianrosa21]

Guimarães Rosa - Mestres da Literatura
Guimarães Rosa - Mestres da Literatura 3 Videos
Documentário da TV Escola sobre a vida e a obra de Guimarães Rosa. Disponível para download no site www.dominiopublico.gov.br.

João Cabral de Melo Neto - Mestres da Literatura

João Cabral de Melo Neto é de longe o maior poeta brasileiro - racional, seco, seu "artesanato furioso" é contido, limpo, tem uma "antiestética do belo", um "escrever com pedras", que é belíssimo.
Disponível para download no site www.dominiopublico.gov.br.

8 de ago de 2009

Marina Silva

No Blog da Amazônia:

Antes da entrevista, Marina Silva fez questão de ponderar que tem procurado “ser o máximo econômica possível” por conta do momento de uma decisão vital em sua trajetória, mas não economizou palavras para defender a necessidade de compromissos com a utopia na política:

- Eu me mobilizo pelo avivamento da utopia para a economia do século XXI. É esse trânsito que precisa ser feito e que não existe em lugar nenhum, precisa ser criado para algo diferente.

- Não estou fazendo cálculos. Se eu ficasse fazendo cálculo de tempo em programa eleitoral, jamais teria sido candidata. Você sabe que já fui candidata com um tempo de um minuto, que tinha que ser dividido com o Chico Mendes. Trinta segundos para ele e trinta segundos para mim. Tínhamos que nos apresentar ao vivo. Isso não tem nada pragmático. Prefiro continuar acreditando que o sonho remove montanhas. Foi isso que fizemos em 30 anos. Removemos algumas montanhas, mas não removemos outras porque não nos expusemos com a radicalidade necessária.

- Não vou me iludir achando que alguém que lida com temas considerados secundários ou de minorias, possa colocar em risco uma candidatura que tem todo o peso e respaldo que tem a candidatura da ministra Dilma. Eu estaria sendo pretensiosa se eu embarcasse nessa avaliação.

- Todas as pessoas que estão sabendo disso e que me conhecem, sabem que não se trata de um processo fácil. Mas a história se faz por homens e mulheres que se dispõem a transformá-la. Essa transformação não prescinde a contribuição do sujeito. Neste momento estou vivendo uma dupla situação: a do sujeito que precisa se colocar e, ao mesmo tempo, do agente que sabe que as mudanças não acontecem única e exclusivamente pela ação dos indivíduos.

Leia mais:
Marina Silva pode abalar planos de Lula para 2010, diz ‘El País’

7 de ago de 2009

Outros

Eu achei fraca a atuação do Collor: queria que ele girasse o pescoço pra trás e vomitasse verde!
[José Simão, na Folha]
...
No Blog da Giorgia, um amigo dela já está rezando para Nossa Senhora assim: "Eu podia estar pecando, eu podia"... adorei.
...
Na coluna do Sarney de hoje:
“Enquanto discutimos essas coisas, a natureza floresce e Brasília está linda, os paus-d'arco em flor.”
São os caras de pau em flor!

6 de ago de 2009

A Metamorfose dos Valores – O Lado Negro

A mesma tradição ocidental que colocou como valores universais a igualdade, a liberdade, os direitos naturais e a democracia colocou em campo também o mais destrutivo e niilista dos modos de produção – o capitalismo. O que Marx chama de “princípio sem princípios” da livre troca tem sinais trocados no marxismo – pra mim Marx parece sempre ouvir o galo cantar, mas além de usualmente não saber aonde, às vezes toma o galo por cisne ou por corvo. Marx parece acreditar que o capitalismo resulta também numa sociedade de livre pensamento, uma vez que os valores passam a ser também mercadorias, e, uma vez que tenham mercado, qualquer coisa, idéia, valor, objeto ou matéria devem ter permissão de circular – de certa forma uma síntese acurada do “bom” capitalismo.
As velhas idéias libertárias da tradição ocidental realmente tiveram sua expressão máxima e sua nêmesis com o capitalismo – a livre troca deveria ser uma das liberdades fundamentais, mas a “vontade de poder” encontrou nela também a sua mais eficiente e mais baixa forma de expressão. Mas adotando a idéia marxista como metáfora simplificadora, poderíamos agir como consumidores exigentes de valores – no caso, a honestidade, a eficiência, idéias, posições e outras características básicas que deveríamos exigir na hora de “comprar” um deputado ou senador. Nessa mesma simplificação, o Sarney (é, rodeei, rodeei...) por exemplo está agindo como um vendedor espertalhão – a corrupção no Senado é só uma mais valia do mandato. Se ainda assim ele se “vende” como senador, se ainda encontra compradores, por que deveria sair do mercado? Nós, sociedade, estamos agindo como aqueles compradores que faziam a alegria dos comerciantes algumas décadas atrás: sem direito a reclamação, sem direito a troca, enfim, indefesos. A verdade é que enquanto houver consumidores de tais sujeitos, não poderemos devolvê-los como mercadoria estragada à lata de lixo da história.

Post Scriptum: abaixo, em sequência, o texto do Marshall Berman que eu estava lendo e que inspirou o post, dividido em quatro partes. É um capítulo do livro (ótimo) Tudo que é sólido desmancha no ar: A aventura da modernidade. Aliás, o post tá rescendendo a uma linguagem meio formal demais que é, acho, influência da produção pós leitura.

Metamofose dos Valores I

O problema do niilismo emerge mais uma vez na última linha do texto de Marx: “A burguesia transmudou toda a honra e dignidade pessoais em valor de troca; e em lugar de todas as liberdades pelas quais os homens têm lutado colocou uma liberdade sem princípios — a livre troca”. O primeiro ponto aqui é o imenso poder do mercado na vida interior do homem moderno: este examina a lista de preços à procura de respostas a questões não apenas econômicas mas metafísicas —questões sobre o que é mais valioso, o que é mais honorável e até o que é real. Quando afirma que todos os demais valores foram “transmudados” em valor de troca, Marx aponta para o fato de que a sociedade burguesa não eliminou as velhas estruturas de valor, mas absorveu-as, mudadas. As velhas formas de honra e dignidade não morrem; são, antes, incorporadas ao mercado, ganham etiquetas de preço, ganham nova vida, enfim, como mercadorias. Com isso,qualquer espécie de conduta humana se torna permissível no instante em que se mostre economicamente viável, tornando-se “valiosa”; tudo o que pagar bem terá livre curso. Eis aí a essência do niilismo moderno.

Metamofose dos Valores II

(...)
Marx se mostra chocado com a destrutiva banalidade que o niilismo burguês imprime à vida, porém acredita que essa brutalidade possui uma tendência recôndita a se autotranscender. A fonte dessa tendência é o paradoxal princípio “sem princípios” da livre troca. Marx admite que a burguesia realmente crê nesse princípio — ou seja, num incessante,irrestrito fluxo de mercadorias em circulação, uma contínua metamorfose dos valores de mercado. Se, como ele acredita, os membros da burguesia de fato desejam um mercado livre, sua opção será forçar a livre entrada de novos produtos no mercado. Isto implica, em contrapartida, que toda sociedade burguesa desenvolvida de maneira plena seja uma sociedade genuinamente aberta, não apenas em termos econômicos mas também políticos e culturais, de modo que as pessoas possam sair livremente às compras e à procura dos melhores negócios em termos de idéias, associações, leis e compromissos sociais, tanto quanto em termos de coisas. O princípio sem princípios da livre troca forçará a burguesia a garantir até mesmo aos comunistas o direito básico deque todo homem de negócios desfruta, o direito de oferecer, promover e vender seus produtos ao maior número de consumidores que conseguirem atrair.

Metamofose dos Valores III

Com isso, graças ao que Marx chama de “livre competição no campo do conhecimento”, até os produtos e idéias mais subversivos — como o próprio Manifesto — devem ser autorizados a oferecer-se, na suposição de que pode haver compradores para eles.
Essa dialética oferece algumas dificuldades. A primeira diz respeito à adesão da burguesia ao princípio sem princípios da livre troca, seja em economia, em política ou em cultura. De fato, na história burguesa esse princípio tem sido mais honrado na violação do que na observância. Os membros da burguesia, sobretudo os mais poderosos, em geral se esforçam por restringir, manipular e controlar seus mercados. Realmente, muito de sua energia criativa, ao longo dos séculos, tem sido canalizada para arranjos nesse sentido — monopólios por concessão, companhias acionistas,trustes, cartéis e conglomerados, tarifas protecionistas, subsídios estatais abertos ou disfarçados — tudo isso acompanhado de hinos em louvor do livre mercado. Mais ainda, mesmo entre aqueles poucos que de fato acreditam na livre troca, uma porcentagem ínfima estende o princípio da livre competição às idéias assim como às coisas. Um padrão mais típico da burguesia é clamar por liberdade, quando na oposição, e reprimi-la,uma vez no poder. Aqui Marx pode correr o perigo — um surpreendente perigo para ele — de ser arrastado pelo que dizem os ideólogos burgueses e de perder o contato com o que os homens de dinheiro e poder realmente fazem. Isto é um problema sério,pois, uma vez que não ligam a mínima para a liberdade, os membros da burguesia trabalharão no sentido de manter fechadas a novas idéias as sociedades sob seu controle, tornando ainda mais difícil o caminho para o comunismo. Marx diria que sua necessidade de progresso e inovação os forçaria a abrir suas sociedades até mesmo a idéias que os atemorizam. No entanto, sua engenhosidade pode impedir isso, através de uma inovação verdadeiramente insidiosa: um consenso em termos de mediocridade imposta de maneira generalizada, destinada a proteger cada indivíduo burguês dos riscos da competição e à sociedade burguesa, como um todo, dos riscos de mudança.