16 de fev de 2008

Bob Fosse

Fazemos às vezes a classificação de filme como de "entretenimento", como uma segunda categoria para a qual não damos tanta importância e vemos apenas para passar o tempo - o que na maioria das vezes serve apenas pra gente ver filmes "intelectualmente duvidosos" na frente dos outros. Já há algum tempo desisti de classificar os filmes segundo padrões do tipo "grande arte", "cinema de autor", "imprescindível", etc., pra mudar para "chato", "bonzim", "inovador sem qualidades salientes", e sim, "imprescindível", "fantástico" também... além de "bela porcaria", "não entendi uma vírgula", "confuso travestido de complexo" e "puta que pariu, esse diretor é o maior ladrão de tempo que já vi". De acordo com o meu gosto e a minha sensibilidade. Esse aí abaixo é um dos que eu considero regular mas adorei assistir, ainda gosto. O Joel Grey como mestre de cerimônias num cabaret na Berlim dos anos 30, com o nazismo começando e se imiscuindo na sociedade alemã, decadente econômicamente e predisposta às loucuras coletivas que vieram depois... as caras do mestre de cerimônias a cada cena de violência, de intolerância, que são intercaladas ao fluxo narrativo são fantásticas, apesar do filme em si ser regular. As músicas são ótimas, e a "mein herr" é pura libertação feminina ecoando Paris dos anos 20, com a Liza querendo percorrer a Europa "inch by inch", polegada por polegada e homem por homem.. vale a pena ver.




14 de fev de 2008

Brainstorm

Entre umas e outras leituras, recebi esses dias um livro do Hopkins, poeta do “pathos terrível” e uma coletânea do Takeushi Yoshinori... de repente, a complicação foi demais e preferi voltar às besteiras e ao riso – rir de todo mestre que não ri de si também: isso é de quem, do Nietzsche, num é? Pois:

e um gran finale para pensamento keynesiano versus Alan Greenspan:



12 de fev de 2008

Peter Brook

Começo desfazendo um erro de memória: Prospero's Books NÃO é do Peter Brook, e sim do Peter Greenaway... fiz essa confusão nas brumas da memória, há tempos não revia o filme, nem pensava no Peter Brook. Foi bom para lembrar o porquê da admiração pelo Peter Brook: não só os filmes fantásticos dele, como Lord of the Flies, mas sua trajetória incessante de busca pessoal, que o levaram desde o Gurdjieff até Tieno Bokar, a tantas realizações teatrais quanto ação social militante, um verdadeiro "imperativo categórico kantiano"... sim, "Senhor das Moscas" é a tradução literal da palavra hebraica Ba'alzebul, Belzebu - o que me impressiona é que Peter Brook como pensador é frontalmente contrário à tese subjacente ao filme, da selvageria inata do ser humano. Ou talvez não: Brook talvez seja só um realista ou cético muito, muito otimista.

5 de fev de 2008

Nietzschiana

Essa tirinha (Tom the dancing bug) é daquelas americanas "indies" que começam com uma boa idéia mas não a levam até o final... A idéia é uma dupla formada por Deus-man e Humano-man (preferi a tradução com "man" mesmo ao invés de "homem" pra ficar mais parecido com as comics). Vejam:

Os superpoderes: Deus-Man: controle total sobre cada átomo do universo, mestre do continuum espaço-temporal, onisciência e onipresença. Humano-Man: locomoção bípede, sistema nervoso funcional (hmmm), polegares oponíveis (ok, não é bem isso, mas traduzam melhor opposable thumbs e me mandem - o povo da USP traduz assim...). Como se vê, não era mesmo uma parceria destinada ao sucesso. O Deus-Man tinha uma irritante mania de não-interferência. Lembrei-me de uma crônica do Veríssimo onde deus e o diabo tentam resolver o destino do universo numa partida de xadrez, que tem que ser anulada porque os bispos do diabo se recusam a atacar deus.... O título nietzschiana vem de uma poesia do Bandeira:

Meu pai, ah que me esmaga a sensação do nada!
- Já sei, minha filha... É atavismo.
E ela reluzia com as mil cintilações do Êxito intacto.

4 de fev de 2008

Mais Millôr

Aproveitando o carnaval pra ler e escrever cositas. Aí achei uns trecos do Millôr, que eu adoro. Aí abaixo vai um pedacim do História é uma istória, peça dele de 76:

ATOR I: Alguns historiadores acham que o povo mais antigo do mundo é o chinês. Pode ser. Mas está fora de dúvida que o chinês é, pelo menos, o povo mais sábio do mundo. Inventou a pólvora e não inventou a bomba. Inventou o papel e não inventou a imprensa. Inventou o barco a vela e não descobriu a América.

ATRIZ: Devido a essa milenar sabedoria ainda hoje a engenharia chinesa é uma das mais eficientes do mundo porque utiliza processos profundamente pragmáticos. Construção de túneis, por exemplo.

ATOR I: Como a China tem pouca tecnologia e muita mão-de-obra disponível, seria inutilmente dispendioso fazer planos complicados para a construção de um túnel. Então, simplesmente, coloca-se mil operários trabalhando de um lado da montanha e mil trabalhando do outro lado. Se os operários se encontram, fazem um túnel. Se não se encontram, fazem dois.

O que prova que as tais obras faraônicas da ditadura eram, desde o conceito de planejamento até a execução técnica, um negócio da china...

2 de fev de 2008

História é uma istória

Com o passar dos séculos – o homem sempre foi muito lento! – tendo desgastado um quadrado de pedra e desenvolvido uma coisa que acabou chamando de roda, o homem chegou, porém, a uma conclusão decepcionante – a roda só servia pra rodar. Portanto deixemos claro que a roda não teve a menor importância na História. Que interessa uma roda rodando? A idéia verdadeiramente genial foi a de colocar uma carga em cima da roda e, na frente dela, puxando a carga e a roda, um homem pobre. Uma idéia espetacular – inventava-se ao mesmo tempo a tração animal e o proletariado. Pois uma coisa é definitiva: a maior conquista do homem foi o outro homem. O outro homem virou escravo e, durante séculos, foi usado como transporte, ar refrigerado (abano), lavanderia, e até esgoto, carregando os tonéis de cocô dos poderosos.
Millôr em História é uma istória
Não consigo encontrar uma tirinha onde um homem das cavernas desbasta uma pedra até ficar redonda - a roda. Em seguida, coloca-a em cima de outra pedra e sai comemorando: "Querida, vem ver, inventei a mesa"

Notícia de jornal

Notícia de jornal: “Na Inglaterra, foi condenado por adultério e atentado ao pudor, um velho de 81 anos de idade". Mandamos abaixo assinado ao presidente solicitando a deportação do dito senhor para condecorá-lo por aqui, como exemplo de persistência nas antigas virtudes republicanas, quando falta de vergonha era isso que ele, valentemente, ainda tentava cometer.
PS: A notícia foi noticiada na verdade na peça "O homem do princípio ao fim", do Millôr Fernandes. Lembra um causo do Tancredo: apareceu um boato de que ele estaria tendo um caso com uma jornalista e seu assessor de imprensa queria que ele fizesse um desmentido contundente, o que ele recusou: -"deixa disso, meu filho, na minha idade isso é boato a favor"...