28 de nov de 2009

Schifaizfavoire

Esse é o nome do dicionário de português de Portugal do Mario Prata... divertido. Algumas passagens:

Apelido
Um dia o Zefirelli, o diretor de cinema, estava em Portugal e foi visitar uma amiga numa elegante quinta. Ao ser recebido pelo mordomo, se anunciou: Zefirelli. O mordomo procurou a patroa e disse o apelido dele: está aí o senhor José Firelli. Ela respondeu: não é senhor José Firelli, é senhor Zefirelli. E o mordomo retrucou: isso para a senhora que é íntima. Para mim, é senhor José Firelli.

Banheiro
Jamais, em momento algum, diga que quer ir a um banheiro. Dizer isso significa que você quer ir ao encontro do salva-vidas, aquele que fica na praia de camiseta branca com uma cruz vermelha no peito. E, se for mulher, a salva-vidas atende pelo sugestivo nome de banheira.

Avariado
Esta é uma palavra muito importante para se conhecer. Se você telefonar para a oficina e disser que o televisor está quebrado, por exemplo, eles vão achar que o aparelho caiu no chão e se partiu. Quebrar tem o sentido de partir ao meio. Se você disser que a geladeira quebrou, eles passarão dias imaginando como é que pôde acontecer uma calamidade desta. Como é que uma geladeira, daquele tamanho, pode se partir ao meio? Nada quebra, tudo fica avariado.

18 de nov de 2009

Heróis

"Para Homero e para o mundo da nobreza desse tempo, a negação da honra era, em contrapartida, a maior das tragédias humanas. Assentava nisso toda a sua ordem social: a ânsia de honra neles era simplesmente insaciável, sem que isso seja característica moral peculiar aos indivíduos como tais. Era natural e indiscutível que os heróis maiores e os príncipes mais poderosos exigissem uma honra cada vez mais alta. Ninguém receia, na Antigüidade, reclamar a honra devida a um serviço prestado; a exigência de pagamento é para eles aspecto secundário e de modo nenhum decisivo. O elegio e a reprovação são a fonte de honra e desonra. É difícil para o homem moderno imaginar a absoluta exposição da consciência, entre os Gregos. Para eles não existe, efetivamente, nenhum conceito como a nossa consciência pessoal. A ânsia de se distinguir e a aspiração à honra e à aprovação (...) aparecem aos Gregos como  a aspiração da pessoa ao ideal e suprapessoal, onde começa o valor." in Paideia, de Werner Jaeger.


......O herói se torna herói pela sua ânsia de reconhecimento e de honra, pois só assim ocupa posição destacada dentre os homens... é interessante o paralelo deste conceito de herói com o conceito grego de nomos. As coisas podem ser contextualizadas de três formas: as que brotam da natureza (phuó, de onde se origina a palavra física, physis); as coisas que se transformam ou são criadas pelas artes e habilidades da intervenção humana (techné, de onde vem técnica, tecnologia); e as coisas que adquirem seu sentido por convenção ou atribuição do grupo ou sociedade, o nomos. Acho que não é sem razão que a reputação seja construída assim, e a parte de "ilustrar o nome", tornar-se ilustre e conhecido, relacione-se com nomos, com coisa que existe por significação e atribuição coletiva.

......Mas o conceito evolui para a aquisição de consciência pessoal, e o existencialismo propugna a existência completa em si mesmo - o viver completamente, o além do homem, a superação em si e para si. Isso envolve, claro, contrariar e contradizer todos à sua volta por uma crença absolutamente pessoal - e aqui vou ceder ao apelo sentimental de meus marcos miliários: estava no meio desses pensamentos quando veio à cabeça o exemplo paradigmático de tal "herói para si" - o Dom, Nosso Senhor Quixote. Legendei o trecho com a música onde ele expressa o significado de sua "missão", que coloco abaixo.



PS: Um exemplo muito didático da divisão de classificação pré-socrática de "coisas", dada pelo prof. Robert C. Bartlett, é o de uma árvore (cresce - phuó - por si só, sem intervenção humana ), que pela ação humana se transforma em papel (techné), e que pela convenção adquire valor quando se torna uma nota de um real, por exemplo (nomos).

16 de nov de 2009

Adriano

Vou encher um pouco o saco de todos com a próxima seqüência de posts: gregos! Estou fazendo dois cursos atualmente, um chamado Mestres do Pensamento Grego e outro chamado No Excuses: Existentialism and the Meaning of Life (Sem desculpas: Existencialismo e o sentido da Vida). Os dois são interessantíssimos, e resolvi fazê-los paralelamente, de modo que o início do pensamento humano, que se debruça sobre si próprio e dá origem ao que hoje é a civilização ocidental, fique lado a lado com a experiência de repensar essa mesma civilização e seus caminhos e descaminhos, o que nos tornamos, o que nos torna incompletos, o que nos torna mais ou menos humanos, trazido até de modo bastante amargo pelos existencialistas... tem sido uma experiência reveladora.
Mas esse post era só para incluir uns trechos do livro Memórias de Adriano, que acho veio a calhar: Adriano, imperador romano, era chamado de "o estudante grego", pelo seu amor pela filosofia e civilização gregas. Com ele, dá-se um fenômeno de renascimento do império, transformando o seu reinado e os dois seguintes, com sucessores por ele escolhidos, no que o Gibbon descreve como "o único período da história da humanidade em que a felicidade de um grande povo era o único objetivo do governo" - o que não é pouca coisa. Mas além das extraordinárias realizações desse imperador que era ao mesmo tempo artista, arquiteto, poeta, engenheiro, músico, místico e aventureiro, ainda temos a sua escolha de seus dois sucessores: Antonino Pio, exemplo de dedicação e retidão, e Marco Aurélio, o "rei filósofo" platônico, que tem méritos filosóficos próprios. Desde o antecessor de Adriano, Trajano, o princípio de escolha dos sucessores foi não a hereditariedade mas o mérito: o melhor homem é o próximo a governar o império. Justamente o filosófico Marco deixa essa máxima de lado, escolhe o filho como sucessor e mergulha o império num banho de sangue devido à incompetência e sede de poder do indigno sucessor. Mas Adriano marca também uma tentativa de repensar a civilização e seus caminhos, de refrear alguns ímpetos e desenvolver outros, de contruir novas idéias, de pensar o humano voltando aos gregos, adaptando-os - algo que só volta a ser tentado, de forma laica, pelo menos, uns 15 séculos depois dele.
Alguns trechos do livro:

"Antes de mim, já alguns homens haviam percorrido a terra: Pitágoras, Platão, uma dúzia de sábios e bom número de aventureiros. Pela primeira vez, o viajante era, ao mesmo tempo, o senhor com plena liberdade de ver, reformar e criar. Era a minha oportunidade, e compreendi que talvez tivessem de decorrer séculos antes que se reproduzisse esse feliz acordo entre um cargo, um temperamento e um mundo. Foi então que me apercebi da vantagem de ser um homem novo e um homem só, muito pouco casado, sem filhos, praticamente sem ancestrais, Ulisses sem outra Ítaca além da interior. Devo fazer aqui uma confissão que nunca fiz a ninguém: jamais experimentei o sentimento de pertencer completamente a qualquer lugar, nem mesmo à minha Atenas bem-amada, sequer a Roma. Estrangeiro em toda parte, mesmo assim não me sentia particularmente isolado em lugar algum."

"Plotinópolis, Andrinopla, Antinoé, Adrianótera... Multipliquei o máximo possível essas colméias de abelha humana. O bombeiro e o pedreiro, o engenheiro e o arquiteto presidem a esses nascimentos de cidades; a operação exige também certos dons de feiticeiro. Num mundo em que mais da metade é ocupada ainda pelas florestas, pelo deserto e pelas planícies incultas, constitui belo espetáculo contemplar uma rua pavimentada, um templo dedicado seja a que deus for, balneários e latrinas públicos, a loja onde o barbeiro discute com os clientes as notícias de Roma, a tenda do pasteleiro, do negociante de sandálias, talvez uma livraria, a tabuleta de um médico, um teatro onde se representa de tempos em tempos uma peça de Terêncio... Os exigentes lamentam a uniformidade das nossas cidades. Sofrem por encontrar em toda parte a mesma estátua do imperador e os mesmos aquedutos. Não têm razão: a beleza de Nímes difere da de Aries. Mas a própria uniformidade reencontrada em três continentes alegra o viajante como a de um marco miliário. As mais comuns das nossas cidades possuem ainda seu prestígio tranqüilizador da muda, da posta ou do abrigo. A cidade: a moldura, a construção humana, monótona se quiserem — mas como são monótonos os favos de cera carregados de mel, o lugar dos contatos e das trocas, o ponto onde os camponeses vêm vender seus produtos, retardando-se para admirar, boquiabertos, as pinturas de um pórtico... Minhas cidades nasciam de reencontros: a minha, com um recanto de terra, a dos meus planos de imperador, com os incidentes de minha vida de homem."

"Poucos meses depois da grande crise, tive a alegria de ver formar-se de novo às margens do Orontes a fila das caravanas. Os oásis repovoavam-se de comerciantes que comentavam as notícias ao clarão das fogueiras onde preparavam sua comida. Ao recarregarem cada manhã suas mercadorias destinadas aos países desconhecidos, levavam consigo certo número de pensamentos, de palavras e de costumes nossos, que pouco a pouco se apoderariam do globo terrestre mais facilmente do que legiões em marcha. A circulação do ouro e o trânsito das idéias, tão sutil como o ar vital nas artérias, recomeçavam no interior do grande corpo do mundo. O pulso da terra voltava a bater."

11 de nov de 2009

1 milhão!

Meu canal do Youtube ultrapassou hoje 1 milhão de visitantes - com 371 assinantes. O canal começou como um lugar para colocar minha coleção de quinquilharias, desenvolveu-se para incluir séries como O Povo Brasileiro e, por fim, espaço para divulgação de programas, aulas e vídeos educativos em geral, especialmente em inglês, que tenho legendado e disponibilizado na rede.
Os vídeos estão sendo utilizados em vários outros canais e sites educativos, como o EJA - Educação de Jovens e Adultos, vários sites sobre filosofia, sites de universidades, sobre história, sobre cultura brasileira em geral, e, ultimamente, inclusive do governo português - recebi até agradecimento "personalizado" pelo trabalho de divulgação cultural...
Na verdade, é um prazer imenso fazer isso - essas coisas são pra se saber, dividir, contar, e não guardar em gavetas ou bibliotecas empoeiradas para usos de acadêmicos sisudos, sempre achei. Ao compartilhar isso, sinto o mesmo prazer que o contador de histórias da tribo, repassando o que viu, ouviu e aprendeu - e esperando, em retribuição, ver, ouvir e aprender dos outros, também. Coisas assim fazem a vida valer a pena.
Abaixo, os vídeos "campeões de audiência":

Brasil, Brasil - Samba to Bossa - Primeiro vídeo de uma série da BBC, em três partes, sobre música brasileira. Esse teve mais de 132 mil visitas até agora.


Joana Francesa - trecho do filme Joana Francesa, com a fantástica e única Jeanne Moreau e música do Chico, com pouco mais de 35 mil visitas:


O Povo Brasileiro - série baseada no livro homônimo do Darcy, esse é o primeiro vídeo - só esse, mais de 50 mil visitas.


Prospero's Books - Adaptação do Peter Greenaway da peça "A Tempestade", de Shakespeare, com John Gielguld, um dos melhores filmes que já vi, de uma plasticidade e beleza estonteantes, com pouco mais de 24 mil visitas.



E mais 156 vídeos até o momento, que vão desde aulas de filosofia até traduções de palestras do Prof. Donald Kagan, de Yale, documentários da BBC e aulas do Prof. Eugene Weber na WGBH, todas legendadas por mim, assim como filmes, documentários, entrevistas e muito mais... em  www.youtube.com/salmax.

4 de nov de 2009

Antropologia

Antes de comentar a morte do Lévi-Strauss, transcrevo dois textos abaixo, como forma de repensar ou pensar a antropologia - um campo de estudo que está ao mesmo tempo próximo de mim pelo interesse e objetos de estudo e distante, a anos-luz, pelo meu conhecimento sobre a matéria, que só tangenciei, poucas vezes, e usualmente em trajetória inversa e conflitante. Ao ler os textos, entretanto, vou descobrindo que, se o estranhamento continua, as direções das trajetórias já não são opostas. O trecho inicial  de um artigo do Eduardo Viveiros de Castro, um dos antropólogos nacionais de maior renome, onde ele faz uma brincadeira com o significado restrito e restritivo que a etnologia adquiriu por aqui, ao mesmo tempo em que os próprios etnólogos se erguiam na torre de marfim da pureza semi-religiosa da ciência, e entrevista dele com o Lévi-Strauss, nos anos 90.


"Sou um etnólogo, isto é, aquela espécie de antropólogo social que se interessa por sociedades simples, de tradição cultural não-ocidental etc. Na academia brasileira, isto significa que sou um "especialista em índio". Tal acepção de "etnólogo" é arbitrária; estou seguindo uma tendência que existe no meio cientifico local (e consagrada nas classificações do CNPq); em outros países, a palavra tem outras conotações. Os antropólogos que estudam sociedades indígenas são hoje uma minoria dentro da disciplina no Brasil; eles, sobretudo os que estudam coisas como parentesco, ritual ou cosmologia, são vistos por seus colegas como praticando um oficio bizarro, um pouco antiquado, simbolicamente importante mas demasiado técnico e, no fundo, irrelevante. Em troca, é possível que nos concebamos como a aristocracia da disciplina, descendentes em linha direta dos heróis fundadores - como uma espécie de brâmanes da religião antropológica, escolhidos pelo ordálio do trabalho de campo junto a primitivos autênticos, perdidos no coração da selva. Estudamos sociedades que, se não são "complexas", são completas; aprendemos línguas e costumes exóticos; tratamos de assuntos como xamanismo, aliança matrilateral, metades exogâmicas, ritos funerários, canibalismo; administramos, em suma, aqueles sacra apresentados aos noviços antes que enveredem, majoritariamente, pelas sendas profanas da antropologia em sentido lato. Para nós, as antropologias urbanas e rurais são etnologizações do alheio, obra de aventureiros que invadiram com nossa bandeira os domínios dos burgos vizinhos. Nós etnólogos continuamos morando na cidade velha da antropologia."

Entrevista (trecho):


Viveiros de Castro
Em geral, o senhor crê que a etnologia faz uma grande volta ao passado?

Lévi -Strauss
Não, eu me dirigia aos Temps Modernes, em particular. Creio que há coisas que não ousamos mais dizer, e que é preciso dizer, ou em breve não se compreenderá mais coisa alguma. É preciso afinal dizer que a antropologia é uma disciplina que nasceu no século XIX; ela é a obra de uma civilização, a nossa, que possuía uma superioridade técnica esmagadora sobre todas as outras, e que, ciente de que ia dominá-las e transformá-las completamente, disse a si mesma: é urgente que se registre tudo que pode ser registrado, antes que isso aconteça. É isso a antropologia; ela não é outra coisa: ela é a obra de uma sociedade sobre outras sociedades. E quando nos dizem que essas sociedades não são diferentes da nossa, que elas têm a mesma história que a nossa etc., esta não é absolutamente a questão. O que pedíamos a essas sociedades que estudávamos é que elas não nos devessem nada: que elas representassem experiências humanas completamente independentes da nossa. À parte isso, elas podem ter todas as histórias que se queira, mas essa não é a questão. Devem-nos elas o que são, ou não? Se elas nos devem, elas nos interessam moderadamente; se elas não nos devem, elas nos interessam apaixonadamente.

Viveiros de Castro
Nesse caso, à medida que começam a nos dever muito, elas nos interessariam cada vez menos?

Lévi-Strauss
Elas se tornam objeto de outras pesquisas, de outras disciplinas. Se você me permite uma comparação musical, eu diria que a antropologia tal como a concebo, como a conheci, como nossos mestres a praticaram, era tonal, e agora ela se tornou serial. Isto quer dizer que as sociedades humanas não significam mais nada fora de suas relações recíprocas. Porque a nossa se enfraqueceu, porque ela mostrou seus vícios, porque as outras começaram a trilhar o mesmo caminho que a nossa – isso é como as notas em um sistema dodecafônico, elas não têm mais um fundamento absoluto, elas existem apenas umas em relação às outras. Enfim, é assim que as coisas são, teremos uma outra antropologia, como a música serial é uma outra música. Uma antropologia que será tão diferente da antropologia clássica como a música serial é diferente da música tonal.

Viveiros de Castro
Então o senhor não acredita no fim da antropologia, mas em uma mutação?

Lévi-Strauss
De fato, não acredito, e por vários motivos. O primeiro é que há ainda algumas possibilidades, como você mesmo demonstrou com os Araweté, Descola com os Jívaro... Nem tudo está acabado; vai acabar logo, mas enfim... não está completamente acabado. Em segundo lugar, há ainda, em toda parte, uma quantidade de coisas a rebuscar, coisas que foram, digamos assim, negligenciadas, e que se pode recolher, que é preciso recolher. O terceiro motivo, é que esses povos mesmos vão em breve dar origem a eruditos, a historiadores de suas próprias culturas, e assim aquilo que foi nossa antropologia vai ser apropriado por eles, e ela será algo interessante, e importante. Então, nem tudo está acabado; isto posto, a velha concepção de antropologia está morta.

Download do artigo aqui.
Download da entrevista aqui.