28 de out de 2009

O surgimento da Civilização Grega

 O surgimento da civilização grega representa o ponto de partida da civilização ocidental e uma ruptura com o padrão até então conhecido de organização social e política - baseado em monarquias e tiranias. Pela primeira vez na história humana, pensou-se nos princípios e direitos fundamentais do homem, assim como houve um método de educação generalizado e um princípio de valor, a arete, que podia ser adquirido por todos - aliás, derivada da observação nas Guerras Persas de que homens extraordinários surgiram de várias classes, lugares e formas de governo, então tais qualidades fundamentais que os fizeram extraordinários não eram imanentes ao nascimento, mas aprendidas - e se tal aprendizado pudesse se estender a outros, que magnífica criação tal educação não seria...
Não tive tempo de legendar (ainda) esses vídeos onde o Professor Eugene Weber fala sobre o surgimento da Civilização Grega. Conjuntamente ao curso do Professor Donald Kagan, de Yale, disponível aqui, fornece uma base de conhecimento bastante completa sobre essa civilização que é nossa avó e a pedra fundamental do humano - pelo menos do humano válido. Para quem entende inglês, links abaixo. E trecho da palestra do Prof. Donald Kagan:

"As muitas civilizações criadas pela raça humana têm partilhado características básicas. A maioria tem tendência para a uniformização cultural e estabilidade. A razão, embora tenha sido empregada para todos os tipos de efeitos práticos e intelectuais em algumas dessas culturas, ainda carece de independência da religião e de status alto o suficiente para desafiar as mais elementares idéias estabelecidas. A forma padrão de governo tem sido a monarquia. Fora do Ocidente, repúblicas são desconhecidas. Líderes são considerados divinos ou porta-vozes de divindades. Crenças e instituições políticas e religiosas foram exaustivamente entrelaçadas como uma estrutura unificada e se apoiam mutuamente. O Governo não tem sido objeto de análise secular fundamentada - tem repousado sobre autoridade religiosa, tradição e poder. O conceito de liberdade individual não tem importância na grande maioria das culturas na história humana.

A primeira e nítida ruptura com esta experiência humana comum surgiu na Grécia antiga. As cidades-Estado gregas chamados poleis eram repúblicas. As diferenças de riqueza entre os seus cidadãos eram relativamente pequenas. Não houve reis com a riqueza suficiente para contratar soldados mercenários. Assim, os cidadãos tiveram de travar seus próprios combates e decidir quando lutar. Como defensores independentes da segurança comum e do interesse comum, eles exigiram um papel mais importante nas decisões políticas. Desta forma, pela primeira vez, a vida política realmente foi inventada. Observe que a palavra "política" deriva da palavra grega polis. Antes a palavra não era necessária, porque não existia tal coisa. Esta vida política veio a ser partilhada por uma parte relativamente grande da população e a participação na vida política era muito valorizada pelos gregos. Esses estados, evidentemente, não tinham necessidade de uma burocracia, não havia grandes propriedades reais ou estatais que precisavam de gestão e não havia excedente econômico para apoiar uma classe burocrática. Não havia uma casta separada de sacerdotes, e houve muito pouca preocupação, não digo nenhuma preocupação, mas muito pouca preocupação com a vida após a morte, que era universalmente importante em outras civilizações."

Os gregos adoravam e reverenciavam os deuses - mas somente os deuses. Ao contrário dos persas e de outras civilizações, nenhum homem seria adorado, eles não se curvariam perante ninguém, apenas e somente aos deuses.






27 de out de 2009

Alban

N'Goran Alban Kikiish era de Camarões. Tinha feito Sorbonne e agora era meu colega na Ciência da Computação - falava inglês, francês e oito línguas africanas, mas português que é bom foi aprender só depois que chegou. Ficou folclórico na turma pelo sotaque esquisito e as tiradas mais que malucas, no que parecia uma reedição belorizontina do "Príncipe em Nova York". Na primeira festa em meu apartamento, na hora de ir embora ele saiu se despedindo de todos com uma palavra que soava como "tmahrumá", fazendo uma reverência. Engraçadíssimo, pois todo mundo respondia fazendo uma reverência idêntica e respondendo "tmahrumá" - "tmahrumá", "tmahrumá", etc. Dia seguinte, fui tentar aprender a cumprimentar em camaronês e ele me olha espantadíssimo: tinha aprendido a palavra aqui, todo mundo falava isso quando se despedia dele. E a reverência era porque estava bêbado, mesmo. Com algum custo, descobrimos que ele queria dizer "tomar uma", e realmente, é aquela coisa de mineiro engolir os pedaços das frases: vamos tomar uma depois, ou combinar de tomar uma cerveja depois, vira "tomar uma", com o resto implícito...
De outra feita, ele me perguntou intrigadíssimo "o que ser essa palavra você falar quando ver eu", e eu não conseguia imaginar qual fosse. Olá? Não. Bom dia, boa tarde, como vai? Não... Tudo bem, oi... nada. Fiquei um tempão tentando imaginar qual era a tal palavra e ele me afirmando que eu dizia isso com freqüência, e que ele não achava em dicionário de jeito nenhum. Até que chegamos num bar e ele pulou da cadeira quando eu cumprimentei o garçom: Bão, fi! - Essa, é essa, bãofí! Que ser bãofí? Difícil explicar a corruptela de "filho", mais ainda por que chamar um completo desconhecido - e ele - de "filho". E, além do mais, por que bãããão, com um tanto de a? Foram litros e horas antes dele esquecer o assunto.
Ele ficou completamente apaixonado com pequi - adorava, eu trazia de Salinas e ele ficava deliciado, comia dúzias como se a sesta dependesse disso. Quando o levei a Salinas, ficava ansioso pra saber se teríamos ou não pequi para almoço – e uma vez, numa fazenda, disfarçadamente seqüestrou um saquinho de pequis e foi comer escondido, todos devidamente ainda crus – voltou com o rabo entre as pernas e aquela cara de criança-malina-que-pegaram-no-pulo. De outra vez, assim que chegamos na fazenda de um primo, foi logo intimar o dono da casa, com aquele sotaque fortíssimo: E os pequi?, ao que meu primo respondeu impávido: Nou, ai dônti!, sacando seu inglês salinense para responder ao que ele interpretou como (do) you speak english?

20 de out de 2009

Sagarana - Conversa de Bois

"Quase como um homem, meio maluco"



Que já houve um tempo em que eles conversavam, entre si e com os homens, é certo e indiscutível, pois que bem comprovado nos livros das fadas carochas. Mas, hojeem-dia, agora, agorinha mesmo, aqui, aí, ali e em toda a parte, poderão os bichos falar e serem entendidos, por você, por mim, por todo o mundo, por qualquer um filho de Deus?!
- Falam, sim senhor, falam!... - afirma o Manuel Timborna, das Porteirinhas, - filho do Timborna velho, pegador de passarinhos, e pai dessa infinidade de Timborninhas barrigudos, que arrastam calças compridas e simulam todos o mesmo tamanho, a mesma idade e o mesmo bom-parecer; - Manuel Timborna, que, em vez de caçar serviço para fazer, vive falando invenções só lá dele mesmo, coisas que as outras pessoas não sabem e nem querem escutar.
- Pode que seja, Timborna. Isso não é de hoje: ... "Visa sub obscurum noctis pecudesque locutae. Infandum!..." Mas, e os bois? Os bois também?...
- Ora, ora!... Esses é que são os mais!... Boi fala o tempo todo. Eu até posso contar um caso acontecido que se deu...

Assim começa um dos contos geniais de Sagarana - Conversa de Bois. E a epopéia do boi Rodapião, uma espécie de Lúcifer-boi, ou Prometeu lá da raça bovina. Rosa, como sempre, tece e entretece tramas e palavras, chegando numa fábula quase mito, enredada na trama do menino que se faz boi, levando a vida ruminada, sofrida e limitada de um boi de carro:

(...)
... "Comigo, na mesma canga, prenderam o boi Rodapião... Chegou e quis espiar tudo, farejar e conhecer... Era tão esperto e tão estúrdio, que ninguém não podia com ele... Acho que tinha vivido muito tempo perto dos homens, longe de nós, outros bois... E ele não era capaz de fechar os olhos p'ra caminhar... Olhava e olhava, sem sossego. Um dia só, e foi a conta de se ver que ninguém achava jeito nele. Só falava artes compridas, idéia de homem, coisas que boi nunca conversou. Disse, logo: - Vocês não sabem o que é importante... Se vocês puserem atenção no que eu faço e no que eu falo, vocês vão aprendendo o que é que é importante... - Mas, por essas palavras mesmas, nós já começamos a ver que ele tinha ficado quase como um homem, meio maluco, pois não..."

17 de out de 2009

Choques culturais

Há cerca de trezentos anos, o czar Pedro, da Rússia, visitou o Ocidente, e ao dançar com algumas das mulheres numa das cortes visitadas, comentou: "Essas mulheres têm os ossos mais duros que já vi!" - tinha segurado as damas pelo espartilho, confundindo a armação com o corpo das senhoras. Mas isso foi há trezentos anos, e sem nenhuma conotação além do espanto - e só mostra o choque cultural entre a Rússia ainda semifeudal e a Europa em pleno desenvovimento.
Agora, alguns fundamentalistas somalis resolveram chicotear mulheres por usar sutiã. Até aí, dado o histórico de loucuras desses fundamentalistas, entendível - quem já chicoteia mulheres em outras paragens por mostrar os cabelos ou qualquer outra parte do corpo que não os olhos é capaz de qualquer coisa. Mas o motivo é que eles estão se sentindo enganados! Podem ver uma mulher com os seios empinados e, depois, descobrem que estava usando um sutiã para levantá-los... um código de direito do consumidor completamente torto e ridículo. Imaginem esses botocudos soltos numa cidade ocidental, com todos os apetrechos disponíveis de embelezamento - perigoso saírem fuzilando todo mundo por aí.
Mas na verdade não entendi: será que eles estão se sentindo enganados por uma falsa libido? Não entendo esses fundamentalistas religiosos, pois não deveria ser pecado ficar olhando pras mulheres?! Ou eles estão com medo de casarem sob falso pretexto - mas nesse caso uma tara por seios não é um tipo de desvio de desejos da carne? Ou é a institucionalização da mulher objeto com vigilância do PROCON?
A reportagem, na Folha de hoje:

Grupo aplica chicotadas em mulheres de sutiã na Somália
DA REUTERS

Mulheres somalis que usam sutiã estão sendo chicoteadas em público pelo grupo radical islâmico Al Shabaab, acusadas de violar as leis do islã ao enganar outras pessoas, segundo relataram ontem moradores da capital do país, Mogadício.
As testemunhas contaram que homens armados cercam qualquer mulher que aparente ter um busto firme. Após ser chicoteada, ela ainda é obrigada a retirar o sutiã.


[reportagem completa para assinantes em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft1710200913.htm]

15 de out de 2009

Mesóclises

Eu acharia de bom tom banir a palavra "mesóclise" da língua portuguesa e transformá-la em nome de rio no Oriente Médio. O som foi feito pra isso - ou nome de cidade: "os hunos invadiram Mesóclise no quarto século" soa mais verdadeiro do que o uso em gramática.
.....Mas estou viajando. O Pasquale Cipro Neto, na Folha:
"Vamos por partes. Comecemos pelo "já encontra-se". O caro leitor conhece algum brasileiro que, no dia a dia, num bate-papo, diga algo como "Ele já avisou-me" ou "Ela já arrependeu-se"?
(...) Para ir direto ao ponto: um belo dia, a criança escreve uma redação em que há um período que começa com algo como "Me convidaram para...", em que ocorre um "crime", isto é, o emprego de pronome oblíquo átono (o "me", no caso) no início de um período.
O tal "crime" consiste em violar uma "regra" de colocação pronominal: não se inicia período com pronome oblíquo átono (me, te, se, lhe, lhes, o, a, os, as, nos etc.).
(...) Em Portugal, esse procedimento também é comum na língua oral. Um portuguesinho de tenra idade diz "Convidaram-me para uma festa". E diz isso por uma razão muito simples: é o que ele ouve em casa, na rua, na escola etc. Na oralidade do nosso português, há muito tempo não se diz isso. O que se usa efetivamente é, por exemplo, o que se ouve na comovente "Maninha", de Chico Buarque: "Se lembra da fogueira / Se lembra dos balões / Se lembra dos luares dos sertões"."

.....Essa colocação pronominal sempre me encheu o saco! Me dá aí um motivo pra não começar a frase assim, com "me", tirando "os gramáticos não deixam"? A língua escrita deve ser um registro ou transcrição da língua oral, não uma tradução dela. A gente fala de determinada maneira e quase temos que contratar um especialista com conhecimento de ABNT pra transformar essa fala em palavra escrita, se formos obedecer aos gramáticos. Tenho implicância com isso. E nem se fala na mesóclise, ao estilo Jânio, que tascava uns "fá-lo-ei", "segui-lo-ia", "comê-lo-ia" em conversas informais... temos que espanar a língua dessas velharias e deixá-la mais viva e próxima, mais pronta a ser moleca, brincalhona, viva. Tirar esses "não pode", "não se usa". Língua é pra gente se comunicar, e expulsa por si só as formas e usos que não se prestam a isso - uma espécie de sobrevivência do mais apto filológica.
.....Me lembrei de um caso do Tancredo: ele era governador de Minas e resolveu convidar um sujeito que tinha alcançado algum destaque na cena política mineira para ser secretário de governo. Como não conhecia o tal sujeito, marcou uma reunião para fazer o convite. O sujeito veio, conversou, conversou, tascou uns "ser-me-ia", "tirá-lo-ia", e a conversa ia andando e nada do convite ser feito. Meio sem graça, o sujeito se levantou, despediu-se e foi embora sem entender nada. Como, aliás, os assessores que tinham arranjado a reunião. Um deles tomou coragem e perguntou a Tancredo o que tinha acontecido. "Ele usa mesóclises!",  disse Tancredo, para espanto dos assessores. Diante do silêncio e das caras de incompreensão, encerrou: "um sujeito que é capaz de usar mesóclises numa conversa é capaz de qualquer coisa".

14 de out de 2009

Jorge Luis Borges

Tenho uma certa antipatia por Borges. Ele me transmite uma aura de velhice, como se tivesse sido sempre aquele velho encarquilhado, com a poeira de mil bibliotecas sobre os ombros. Parece aqueles personagens do Nelson Rodrigues, que já nasciam de suspensórios e bengala, segurando um monóculo: e nem é a impressão de antiguidade de uma pirâmide ou coluna grega, é de casa abandonada.
......Certa vez, Garcia Lorca estava visitando a Argentina (estou contando o caso de orelhada), e ficou incomodado com a pretensiosidade e arrogância intelectual de Borges. Começou então a contar um caso quando Borges estava perto, sobre um personagem que ele, Lorca, considerava como a síntese das virtudes e defeitos do Novo Continente, um personagem seminal da imaginação criativa das Américas, etc. Borges não se agüentou de curiosidade, se aproximou e acabou perguntando quem era o tal personagem. "Mickey Mouse", respondeu Lorca gargalhando, para, segundo ele, ver Borges se afastar indignado "arrastando seu manto de erudição e sabedoria". Acho que é essa a impressão: Borges arrasta um manto pesado de erudição, sempre.
......Mas que imaginação criativa, que cadeia de referências, que labirinto de imagens! Tece caminhos e trilhas entre passado e presente, enreda a imaginação do leitor e constrói um arcabouço de citações e personagens que fascinam e mesmerizam como nenhum outro. Borges constrói edifícios que talvez entendamos como sendo construídos na localização errada, meio deslocados, mas que são, inegavelmente, estupendos.
......Em um dos contos do Aleph (O Imortal), um tribuno romano parte em busca da imortalidade. Encontra a Cidade dos Imortais, habitada pelo que parecem ser trogloditas sem conhecimento da palavra falada. Borges faz do conto um trampolim para discutir a memória, a experiência humana, a duração e interação do tempo, espaço, palavra, ser:

(...)
A humildade e a miséria do troglodita trouxeram-me à memória a imagem de Argos, o velho cão moribundo da Odisséia, e assim lhe pus o nome de Argos e tentei ensiná-lo. Fracassei e tornei a fracassar. Os arbítrios, o rigor e a obstinação foram de todo inúteis. Imóvel, com os olhos inertes, não parecia perceber os sons que eu procurava inculcar-lhe.

(...) (vem a chuva)
...a tribo, não menos feliz que eu, oferecia-se aos vívidos aguaceiros numa espécie de êxtase. Pareciam coribantes possuídos pela divindade. Argos, olhos postos na abóbada celeste, gemia; torrentes rolavam-lhe pelo rosto, não só de água, mas (soube-o depois) de lágrimas. Argos, gritei, Argos.

Então, com mansa admiração, como se descobrisse uma coisa perdida e esquecida há muito tempo, Argos balbuciou estas palavras: "Argos, cão de Ulisses". E depois, também sem olhar-me: "Este cão atirado no esterco".

Facilmente aceitamos a realidade, talvez por intuirmos que nada é real. Perguntei-lhe o que sabia da Odisséia. A prática do grego lhe era penosa; tive de repetir a pergunta.

"Muito pouco", disse. "Menos que o rapsodo mais pobre. Já terão passado mil e cem anos desde que a inventei."

13 de out de 2009

Vik Muniz


No filme que acompanha a mostra, Vik diz que o primeiro artista da humanidade foi o homem das cavernas que, tendo saído um dia para caçar, confunde um cupim ou formigueiro com um bisão; percebendo o erro, volta para a caverna e avisa aos demais que tem um bisão lá pelo lado tal, se esconde atrás de uma moita e fica rindo enquanto vê os demais atirarem suas lanças no cupim. Assim como o artista ancestral, parece que suas obras buscam essa multiplicidade do ver - aliás, a multiplicidade da interpretação ao ver, enquanto o próprio artista se diverte em iludir o olhar para conseguir esse efeito. Fotos famosas, referências, personagens, situações, são mimetizados em outros tantos materiais como chocolate, diamantes, linhas, arames, sucatas. Meninos caribenhos vítimas da monocultura do açucar são representados usando açúcar sobre papel preto - "doce" demais, principalmente porque o apresentador da mostra resolve "explicar" o fato, mas eficiente. Uma vaca com uma vaca pintada no corpo: a brincadeira do homem das cavernas está presente em toda a obra, mas de uma maneira que o espectador está sempre convidado a descobrir o truque, o efeito, a perceber como está vendo a obra - paisagens modificadas por retroescavadeiras misturadas com intervenções em terra de 30 centímetros, produzindo traços semelhantes: a brincadeira com escala, quase um "mundo-modo-de-usar". Finalmente, um artista conceitual com conceitos inteligíveis. Vale a pena ver, está no Museu Inimá de Paula, na Rua da Bahia (esquina com Álvares Cabral).

PS: Um cuidado especial com o apresentador da mostra: igorem o sujeito. Depois de ler duas frases suas me lembrei do Umberto Eco em "Como ser um apresentador de catálogos de arte", no Segundo Diário Mínimo. Eco constata que os requisitos necessários para tal "arte" são: ter uma profissão intelectual (biólogos e físicos nucleares são solicitadíssimos) e possuir um telefone em nome próprio. Não se explica o que se deve descobrir, não se dá uma visão simplista de uma obra que tira grande parte de sua força pela surpresa e novidade, nem se adoça o olhar crítico do autor com platitudes doces. Pelo menos, não se devia.

8 de out de 2009

Casos - O Ganso e o Capeta

O GANSO do título, no caso, era um grande amigo, falecido recentemente. Que, entre todas as (muitas) idiossincrasias, tinha medo do escuro. Certa vez, quando eu morava em uma chácara em Santo Antônio do Leite, o hospedei por alguns dias. Num desses dias, tendo me demorado mais do que o normal no trabalho, cheguei em casa já mais tarde da noite e vi tudo - tudo mesmo! - aceso. Parecia uma festa: televisão ligada, fogão com todas as bocas acesas, todas as luzes existentes ligadas, o rádio numa altura doida e o carro dele todo torto no caminho da casa com farol aceso, iluminando a parte de trás da chácara. Quando entrei em casa ele deu um pulo como aqueles de gato de desenho animado, que fincam as unhas no teto, com os olhos quase saltando das órbitas de tão arregalados."Que foi que aconteceu?!", perguntei, e ele, disfarçando, "Nada não, nada não...".
......Em Ouro Preto, onde ele estava morando, me pedia para dormir na casa dele sempre que a esposa se ausentava - pra ajudar a "tomar conta da casa". Como ele morava em apartamento, recusava, e ele quase se ajoelhava pra pedir pelamordedeus e eu acabava cedendo, depois dele confessar que tinha medo do escuro.
......Mas resolvi confrontá-lo e tirar isso a limpo:
- Você tem medo de escuro mesmo?
- Bom... não de escuro, escuro, mesmo... mais de ficar sozinho.
- Mas do que é que você tem medo?! De alma?
- Não! De alma não...
......Depois de muita, muita insistência, ele acabou contando:
- Tenho medo é de capeta...
- De CAPETA?!?!
- É, tenho medo do capeta aparecer de noite, explicou ressabiado, meio envergonhado.
- Mas o que diabos você acha que eu posso fazer se o capeta aparecer?
- Você, nada. Mas você tá gordo, e se o capeta aparecer, eu corro mais do que você!
......Pois o miserável, a quem por amizade e consideração eu fazia companhia nessas noites de terror dele, não estava querendo minha companhia nada não. O féadaputa estava era me usando de isca de capeta!!!

7 de out de 2009

A aventura do conhecimento

O conhecimento humano é, provavelmente, a maior e mais deliciosa aventura que conheço. Chamam a prensa de Gutemberg de "a máquina que nos fez", e com razão. Quando a aventura humana deixou de ter que ser vivida pelos participantes, ou passada de geração em geração na mesma tribo ou clã, e passou a ser escrita e trocada e traduzida e levada aos quatro cantos do mundo, expandiu de tal forma os horizontes do ser como provavelmente nenhuma outra invenção ou evolução tecnológica jamais conseguirá. Passamos a dividir toda e qualquer experiência de praticamente todas as raças e épocas, numa espiral cada vez mais apaixonante e interessante.
Edmund Wilson personificou esse fascínio pelo humano - tinha uma curiosidade insaciável pelo mundo e suas experiências, pelas pessoas, feitos, história e pensamentos humanos. Seus livros são formidáveis, e denunciam o gosto do autor por essa busca incessante. Em nenhuma parte isso é tão explícito quanto em Rumo à Estação Finlândia, onde ele descreve como Michelet, historiador francês, descobre Vico e sua obra, numa passagem que ecoa o gosto pela palavra escrita, pela descoberta e pelo pensamento transformador do mundo:
"Num dia de janeiro de 1824, um jovem professor francês chamado Jules Michelet, que ensinava filosofia e história, encontrou o nome de Giovanni Vico numa nota do tradutor do livro que estava lendo. A referência a Vico interessou-o tanto que começou a estudar italiano imediatamente."
(...)
"Mesmo hoje, ao lermos Vico, podemos sentir algo do entusiasmo de Michelet. É estranho e comovente encontrar, na Ciência Nova, uma inteligência sociológica e antropológica moderna despertando em meio à poeira de uma escola de jurisprudência provinciana do século XVII e expressando-se pelo antiquado meio de um tratado semi-escolástico. Aqui, através da visão precisa de Vico - quase como se contemplássemos as próprias paisagens do Mediterrâneo - vemos dissiparem-se as névoas que obscurecem os horizontes dos tempos mais remotos, vemos evanescerem-se as nuvens da lenda. Nas sombras há menos monstros; heróis e deuses evaporam-se. O que vemos agora são os homens tal como os conhecemos, no mundo que conhecemos. Os mitos que nos fizeram sonhar são projeções de uma imaginação humana como a nossa, e - se procurarmos a chave em nós mesmos e aprendermos a lê-los corretamente - esses mitos nos apresentarão a história das aventuras de homens como nós, um relato a que antes não tínhamos acesso."

6 de out de 2009

Gramática

A nossa gramática enche o saco. Normativa, não é rápida o suficiente pra se adaptar à lingua, de que devia ser apêndice, mas se pretende guia, senhora e mestra. E os gramáticos demoram a dar o braço a torcer, que ao invés de uma espécie de antropólogos da língua se pretendem generais das letras. O Stephen Fry diz que não há má gramática, só má sintaxe, e está certíssimo. Como tudo o mais no Brasil e seus congêneres íberos, tudo tem que ser regulado - a nossa gramática é uma espécie de cartório da língua. A reforma ortográfica não vai ajudar em nada nisso, uma vez que é muito mais pra português ver. O dia a dia, as contrações, invenções, adaptações e maneirismos ficam de fora, uma pena - espero chegar um dia em que a ênfase esteja não em escrever corretamente (segundo princípios arcanos), mas escrever bem. Um manifesto:

"O usuário deve usar a ortografia com total liberdade e mesmo rebeldia. Quanto à gramática, deve ser rejeitada qualquer uma imposta pelos gramáticos. Nenhuma língua morreu por falta de gramáticos. Algumas estagnaram por ausência de escritores. Nenhuma sobreviveu sem povo."
Millôr

4 de out de 2009

Pedro

Meu sobrinho vai fazer sete meses - mal e mal engatinha, mas tenta andar como um novo Neil Armstrong, dando passos incertos na superfície da Lua. Curioso, todo e qualquer objeto é alvo de suas investidas - uma versão aprimorada de São Tomé que só acredita vendo, tocando e pondo na boca. Também fala uma espécie de subdialeto klingon, que pelas sobrancelhas cerradas e a cara de bravo, não entende como é que a gente não entende o que ele quer.Um telefone, uma pêra, um imã de geladeira, lâmpadas, ventiladores de teto, pilão (esse, um fetiche especial), bolas: atraído imediatamente por qualquer deles, já demonstra um pragmatismo inato e vai pulando de colo em colo até chegar aonde quer. Ninguém resiste aos bracinhos levantados e àquela carinha e pega no colo, morrendo de orgulho por ter sido alvo de uma manifestação espontânea de afeição do pestinha - e já ele levanta os bracinhos de novo, "pulando" pra outro colo e revelando a intenção verdadeira que é chegar perto dos imãs de geladeira, de uma fruta, de uma coisa qualquer que se mexeu. Depois de encantar todo mundo e bagunçar, pular, brincar, chorar, pegar, rir, falar, desmaia e vai dormir. E a gente, criança de novo, faz aquela coisa de minino pequeno, ahhhhhhh....


2 de out de 2009

Faroeste e Cavalaria

Ah, Zé Bebelo era o do duro – sete punhais de sete aços, trouxados numa bainha só! Atirava e tanto com qualquer quilate de arma, sempre certeira a pontaria, laçava e campeava feito um todo vaqueiro, amansava animal de maior brabeza – burro grande ou cavalo; duelava de faca, nos espíritos solertes de onça acuada, sem parar de pôr; e medo, ou cada parente de medo, ele cuspia em riba e desconhecia.

.....Zé Bebelo é uma das grandes criações de Guimarães Rosa - em Grande Sertão: Veredas, junto com Joca Ramiro, parece ter vida própria, assombrando o livro com suas estripulias, suas valentias e fanfarronices. Não aceitando nunca errar, uma vez se perde e reclama: “Ei, que as serras estas às vezes até mudam muito de lugar!..." Tenta conquistar o sertão, botar ordem no caos de jagunços e coronéis, perde, é julgado e poupado por Joca Ramiro, numa cena antológica. Aliás, Grande Sertão está cheio dessas cenas de uma tensão e beleza que maravilham qualquer um, cenas de cinema, e ainda com uma carga emocional e uma densidade dignas da melhor literatura mundial, sem falar na construção lingüistica de Rosa. Como nos romances de cavalaria medieval, os jagunços se comportam por um código particular de conduta, onde a bravura e a honra são as estrelas-guias dos homens.
.....Zé Bebelo é derrotado por Joca Ramiro; exilado em Goíás "até a minha morte" - de Joca Ramiro - quando este é assassinado a traição, volta pra vingar o benfeitor. E volta em grande estilo, numa cena de arrepiar - a coragem e valentia de um homem que acredita que sua vontade é superior ao mundo e que a honra é o tempero e o norte do universo:
(...)
Mas, depois de janta, quando estávamos outra vez reunidos – Marcelino Pampa, eu e João Concliz, – não se teve nem o tempo de principiar. Pelo que ouvimos: um galope, o chegar, o riscar, o desapeio, o xaxaxo de alpercatas. Sendo assim o Feliciano e o Quipes, que traziam um vaqueirinho, escoltado. Que vieram quase correndo. O vaqueirinho não devia de ter mais de uns quinze anos, e as feições dele mudavam-de mestre pavor. – “Arte, que este tal passou, às fugas, meio arupa. Pegamos. Aí ele tem grande coisa pra contar...” – e empurraram um pouco o vaqueirinho. De medo – a gente olhava para ele – e de nossos olhos ele se desencostava. Afe, por fim, bebeu gole de ar, e soluceou:
– “É um homem... Só sei... É um homem...”
– “Te acerta, mocinho. Aqui você está livre e salvo. Aonde é que está indo?” – Marcelino Pampa regrou.
– “É briga enorme... É um homem... Vou indo pra longe, para a casa de meu pai... Ah, é um homem... Ele desceu o Rio Paracatu, numa balsa de buriti...”
– “Que foi mais que o homem fez?” – então João Concliz perguntou.
– “Deu fogo... O homem, com mais cinco homens... Avançaram do mato, deram fogo contra os outros. Os outros eram montão, mais duns trinta. Mas fugiram. Largaram três mortos, uns feridos. Escaramuçados. Ei! E estavam a cavalo... O homem e os cinco dele estão a pé. Homem terrível... Falou que vai reformar isto tudo! Vieram pedir sal e farinha, no rancho. Emprestei. Tinham matado um veadinho campeiro, me deram naca de carne...”
– “Qual é que é o nome dele? Fala! Como é que os outros dizem? Aí e que jeito, que semelhança de figura é que ele tem?”
– “Ele? O jeito que é o dele, que ele tem? Em é mais baixo do que alto, não é velho, não é moço... Homem branco... Veio de Goiás... O que os outros falam e tratam: `Deputado’. Desceu o Rio Paracatu numa balsa de buriti... – ‘Estávamos em jejum de briga...’ – ele mesmo disse. Ele e seus cinco deram fogo feito feras. Gritavam de onça e de uivado... Disse: vai remexer o mundo! Desceu o Rio Paracatu numa balsa de buriti... Desceram... Nem cavalo eles não têm...”
(...)
Riu redobrado. De repente, desriu. Refez pé para trás.
– “Vim de vez!” – ele disse; disse desafiando, quase.
(...)
Zé Bebelo rodeou todos, num mando de mão, e declarou forte o seguinte:
– “Vim por ordem e por desordem. Este cá é meus exércitos!...”
Prazer que foi, ouvir o estabelecido. A gente quisesse brigar, aquele homem era em frente, crescia sozinho nas armas.
Vez de Marcelino Pampa dizer:
– “Pois assim, amigo, por que é que não combinamos nosso destino? Juntos estamos, juntos vamos.”
– “Amizade e combinação, aceito, mano velho. Já, ajuntar, não. Só obro o que muito mando; nasci assim. Só sei ser chefe.”
Sobre curto, Marcelino Pampa cobrou de si suas contas. Repuxou testa, demorou dentro dum momento. Circulou os olhos em nós todos, seus companheiros, seus brabos. Nada não se disse. Mas ele entendeu o que cada vontade pedia. Depressa deu, o consumado:
– “E chefe será. Baixamos nossas armas, esperamos vossas ordens...”

E daí se seguem mais algumas aventuras de Zé Bebelo, o rompe-racha, cabra da peste, homem entre os homens, herdeiro de Medeiro Vaz, o rei dos Gerais, e Joca Ramiro - e, por que não?, Rolando, Parsifal e outros valentes das gestas.

1 de out de 2009

Belau dos Dois Capões

Narciso Durães, salinense da Matrona, poeta e literato, autor de vários livros que estão entre a melhor produção recente da região (e não só), escreve abaixo num contraponto ao post anterior sobre a (boa) poesia provençal, tão antiga e tão contemporânea:


Caríssimo, já percebeu que não consigo responder diretamente para seu blog, não sei porquê. Então vai por e-mail um fragmento do Auto de Belau dos Dois Capões, repentista norte mineiro que encantava os sertões com seus versos até ser assassinado num sábado de feira numa corruptela da Serra do Espinhaço e que se apresentava assim:

Eu não descendo de espermatozóide assustado
nem desci do céu numa tipóia de cegonha
vi a luz quando o orangotango meu antepassado
se apercebeu entre a verdade e a vergonha.


Não confundo louva-a-deus com pai de cobra
mas pretendo reencarnar num urutu alado
sair por ai feito um jararacuçu desembestado
pelos cafundós do Vale do Jequitinhonha!

Encantava o mundo com versos dessa natureza:

Um dia Dulcinéa mostrou a Dom Quixote
as almanjarras do moinho girando nas idéias
e no redemoinho rodopiavam cordeiros e alcatéias
feito a rodilha da serpente em seu bote.


Cervantes não misturava medusas e medéias
nem Dante se imaginava o sumo sacerdote
ando ambananado feito oropas sem colméias
mas sei em que ponto do repente entra o mote.


Peitava os coronéis com estrofes magníficas:

Eu me posiciono sem estardalhaços
repartindo espaços com baobás e querubins
ventos que varrem caparaós e espinhaços
levarão o pó dessa carcaça a Deus por mim.


Então a gazela tirará vingança do mastim
e o dragão fará São Jorge em estilhaços
certas vitórias se parecem com fracassos
certos abraços são afagos de judas e caim!


Já em outro plano psicografou o verso que encerra sua trajetória:

Tive a existência abreviada pela mão facista
de um cangaceiro chucro, traiçoeiro e louco
o meio do inferno pr´esse fi de rapariga é pouco
eu quero vê-lo nos assombros da penumbra cardecista.


Breve e pura e doce feito mel é a alma repentista
a do jagunço, ao contrário, amarga mais do que quitoco
e mesmo na sombra de uma tumba desencarnado e brôco
o desgraçado de acusava: cocaleiro, poeta e marxista!


Pois é, como se nota, a valentia de um menestrel provoca mais estragos que muita bravata de general por aí.
Abraços.

Narciso Durães