30 de dez de 2008

Promessas para o Ano

No ano que vem
vou fazer um check-up,
reformar os meus ternos,
vou trocar os meus móveis,
viajar no inverno,
como convém.

No ano que vem
vou me fantasiar,
desfilar na avenida,
decorar samba enredo,
vou mudar minha vida,
como convém.

No ano que vem
faço vestibular,
vou tocar clarineta,
aprender dançar valsa,
fox-trot ou salsa,
como convém.

E vou me converter
no ano que vem,
registrar a escritura,
vou pagar a promessa
e andar mais depressa.
Como convém.

No ano que vem
vou tratar dos meus dentes,
visitar uns parentes,
vou limpar o porão,
vou casar na igreja,
como convém.

No ano que vem
vou soltar busca-pé,
empinar papagaio,
vou comer manga-espada
e sentar na calçada,
até.

No ano que vem
vou pagar minhas dívidas,
apagar minhas dúvidas
e trocar o meu carro
e largar o cigarro.
Como convém.

No ano que vem
vou fazer um regime,
e vou mudar de time,
viajar para a França
e estudar esperanto.
Como convém.

Vou plantar uma rosa
no ano que vem
e escrever um romance
e fazer exercício,
desde o início,
como convém.

E entrar pra política
e me candidatar,
no ano que vem,
fazer revolução,
lutar na Nicaragua,
por que não?

E fazer uma plástica,
no ano que vem
e ficar destemido,
decorar um poema
e escrever pra você,
como convém.

Se não der certo, no entanto,
neste ano que vem,
vou deixar de cobrança
do que fiz ou não fiz.

Neste ano que vem
quero, como convém,
ser, apenas, feliz.

* Poema de Sérgio Antunes

24 de dez de 2008

Divagações

Estou relendo o Paidéia, do Werner Jaeger: da primeira vez me perdi muito, pulei pedaços, me confundi um pouco. Ao mesmo tempo, estou passando para o Youtube O Povo Brasileiro, série de programas baseado no livro do Darcy Ribeiro. Não foi consciente, mas escolhi duas obras quase paralelas: o nascimento de um povo, do Darcy, e o nascimento de um ideal de povo (ou do indivíduo formador do povo), do Jaeger. Achei ótimo comparar esses dois “partos”, principalmente porque ainda trazemos o olhar ocidental, branco, mesmo que tenhamos interiorizado partes do negro e do índio; o modernismo fez a propaganda errada, a antropofagia já tinha sido toda feita, a digestão é que estava complicada. Muito do que somos e que nos diferencia do ideal grego poderia ser aplicado no modernismo se se considerasse a proposta antropofágica uma des-priorização da visão branca ocidental, cristã e latina, substituída pela sagração da visão mestiça resultante da formação do nosso povo. A individualidade e a “pensação” gregas em sua evolução purtuga, agregada aos ritmos, sons, cores, sensações e forças do índio e do negro. Parece um bocado a confusão do Descartes no Catatau do Leminski: distraídos venceremos. Os vídeos são os seguintes (colocando só os hiperlinks; a divisão se deve ao limite de tempo de 10 minutos):
Matriz Tupi -
Matriz Tupi A, Matriz Tupi B, Matriz Tupi C
Matriz Afro -
Matriz Afro A, Matriz Afro B, Matriz Afro C
Matriz Lusa -
Matriz Lusa A, Matriz Lusa B, Matriz Lusa C
Encontros e Desencontros -
Encontros e Desencontros A, Encontros e Desencontros B, Encontros e Desencontros C
Brasil Crioulo -
Brasil Crioulo A, Brasil Crioulo B, Brasil Crioulo C
Brasil Sertanejo - Brasil Sertanejo A, Brasil Sertanejo B, Brasil Sertanejo C
Brasil Caipira - Brasil Caipira A, Brasil Caipira B, Brasil Caipira C
Brasil Sulino - Brasil Sulino A, Brasil Sulino B, Brasil Sulino C
Brasil Caboclo - Brasil Caboclo A, Brasil Caboclo B, Brasil Caboclo C
Invenção do Brasil - Invenção do Brasil A, Invenção do Brasil B

* Republicado a pedidos - primeira publicação em 09/2007, agora com todos os vídeos

20 de dez de 2008

Contrapontos II

CURVA PSICODÉLICA
a mente salta dos trilhos
LÓGICA ARISTOTÉLICA
não legarei a meus filhos

* Leminski x Sebastião Salgado

18 de dez de 2008

A fascinação do difícil

O prazer do difícil tem secado
A seiva em minhas veias. A alegria
Espontânea se foi. O fogo esfria
No coração. Algo mantém cerceado
Meu potro, como se o divino passo
Já não lembrasse o Olimpo, a asa, o espaço,
Sob o chicote, trêmulo, prostrado,
E carregasse pedras. Diabos levem
As peças de teatro que se escrevem
Com cinqüenta montagens e cenários,
O mundo de patifes e de otários,
E a guerra cotidiana com seu gado,
Afazer de teatro, afã de gente,
Juro que antes que a aurora se apresente
Eu descubro a cancela e abro o cadeado.

The fascination of what's difficult, do Yeats, traduzido por Augusto de Campos, e uma fotografia do Cartier-Bresson, que adoro. Duas idéias: uma, que o poema acima não deixa de ser uma bela carapuça para mim; outra, a idéia original, era usar as montagens do Eisenstein como modelo pra frases, poesias e aforismos lado a lado com pinturas e fotografias... contrapontos. Funcionou? Pra mim a imagem é fantástica, mininim feliz, bunito!, orgulhoso, confiante... e o poeta já cansado, mas ainda querendo "descobrir a cancela e abrir o cadeado".

14 de dez de 2008

Salinas

... dito isto, é inútil determinar se Zenóbia deva ser classificada entre as cidades felizes ou infelizes. Não faz sentido dividir as cidades nessas duas categorias, mas em outras duas: aquelas que continuam ao longo dos anos e das mutações a dar forma aos desejos e aquelas em que os desejos conseguem cancelar a cidade ou são por elas cancelados.

Ítalo Calvino in As Cidades Invisíveis
Não cheguei ao ponto de fazer como o poeta e dar "adeus, para nunca mais!". Antigamente, brincava de fazer com as cidades como Murilo Mendes fazia com os rios; no caso dele, quando avistava um rio fazia um gesto largo e dizia: "Rio Tal, o Paraíbuna saluda-te" e no meu, quando chegava às cidades: "Salinas saluda-te", num cumprimento. Recife, Salinas saluda-te! Paris, Salinas saluda-te! Bixim, Salinas saluda-te... tantas e tantas... Ainda hoje, em livros de visitas de museus, hotéis, etc., escrevo: Origem - Salinas. "Mas você viajou isso tudo?!" "Não, vim de BH mesmo, mas aí tá pedindo a origem, a origem é lá..."
A origem continua aqui - mas as ruas, pessoas, cores, dias, luares e músicas que compõem minha cidade cada vez mais atravessam a cortina entre realidade e memória, e existem cada vez mais só pra mim. E eu me torno cada vez mais um Ulisses sem outra Ítaca além da interior.

13 de dez de 2008

Tédio elevado a uma forma artística...

Sexo, humor?
Luxúria, libidinagem?
Romance, sacanagem?
Aventura, mistério?
Você encontra no AURÉLIO!




*Aumentei o Millôr, de A Bíblia do Caos. A imagem é do www.desencannes.com.br

10 de dez de 2008

Elomar e Pasquim

Meu reino por uma coleção do Pasquim!
Estou lendo o primeiro livro do Elomar Figueira Mello, um dos meus músicos prediletos, um compositor que mistura cultura medieval ibérica, cultura popular sertaneja, música erudita e viola, fazendo uma alquimia que me encanta desde que o conheci. O livro, Sertanílias, foi empréstimo do neto dele, Rodrigo - agora com 8 anos, não chegou ainda à "quadra propícia" para tal leitura, como o avô colocou na dedicatória. Me lembrei então dos primeiros discos (disco mesmo, LP) que consegui comprar do Elomar, raríssimos, e quando, ainda nas Lavras dos idos de 88,o Beto me emprestou um Pasquim com uma entrevista com o Elomar - fiquei deliciado. O pessoal do Pasquim era fantástico, eles faziam essas descobertas de músicos, artistas, escritores, faziam umas entrevistas com a turma toda junta, Henfil, Jaguar, Tárik de Sousa, Millôr, Paulo Francis, tantos outros que passaram por aquele jornal...
Aí deu vontade de ler de novo - sou um leitor tardio do Pasquim, mas ainda cheguei a ser assinante entre 1988 e 1990, já "nos finalmente" do jornal. Ler coisas do Millôr, como a seção Falsa Cultura:
"A mulher de Sócrates, Xantipa, era tão chata que Sócrates vivia nos bares tomando cicuta", ou aforismos fantásticos como esse:
Vício X Virtude:
A virtude é sempre premiada. O vício não precisa.
E os Fradim, do Henfil? Cumprido e Baixim, merecem toda uma seção só de lembranças das risadas que já dei com eles. Abaixo algumas das tirinhas, tem que clicar na imagem para ampliá-las (pra quem veio ainda depois e não conhece, "biografia" dos Fradim aqui - são antípodas, um comprido e bonzim, ingênuo, com uma firme crença na bondade e na graça divina; o outro, sádico, sacana, com uma crença inabalável na falta de decência do ser humano e sempre desafiando as convenções e mesmo Deus):



6 de dez de 2008

Casos Salinenses - O Engenheiro e o Poeta

        Título mais parecido com João Cabral de Melo Neto... na verdade, os dois eram poetas. Só que o Engenheiro, além de poeta, ocupava também um cargo alto numa estatal, tinha progredido bastante na carreira, era uma autoridade em sua área. Mas, em determinado momento, deu vontade da terrinha, vontade de trabalhar por lá, de fazer algo pela terra natal.
        Aceitou um cargo menor para poder voltar - só não contava com a política da terra. Chegava nas localidades onde havia projetos da estatal e dizia: "Esta obra aqui foi feita com o dinheiro do povo, não é mais do que obrigação do governo, é direito garantido na constituição! Vocês não devem NADA a qualquer político daqui, os políticos é que têm décadas de atraso pra pagar pra vocês!". E assim, claro, angariou inimigos à esquerda, direita, centro, acima e abaixo: afinal de contas, quem estava e quem não estava no poder dependia dessas obras & feitos pra manter os currais eleitorais, e foi um deus-nos-acuda. O final foi previsível: botaram o homem pra correr. Tinha sido chefão administrativo mas não tinha força política - acabou exilado em outras paragens.
        Fizemos uma festa de despedida e desagravo, participaram todos os amigos, a turma de movimentos culturais, direção da estatal, colegas, enfim, foi uma demonstração e tanto de apreço tanto pelo Engenheiro quanto pelo que tentou fazer.
        Bão, o que não vai mencionado na história bonita aí de cima é que o dito Engenheiro era também um daqueles sacanas: irônico, irreverente e brincalhão - espírito de menino, talvez o que o tenha feito ter brincado de Dom Quixote.
        Estávamos eu, o Poeta, e mais outras pessoas da cidade em uma das mesas, enquanto o Engenheiro estava numa mesa com autoridades, um deputado, um diretor da estatal, enfim, gente graúda. Acho que vislumbrou uma oportunidade e veio, saltitante, até nossa mesa: começou a cochichar algo no ouvido do Poeta, que ia ficando visivelmente vermelho de raiva - e antes que este esboçasse uma reação, vapt!, correu e sentou-se na "mesa dos graúdos", onde o Poeta não poderia retaliar. Ficou lá, com aquele risinho sacana de gente que acabou de aprontar e gostou disso.
        O Poeta na mesa, remoendo a impotência, alvo de nossa gozação pelo acontecido, até que, de repente, veio um brilho nos olhos! Levantou-se, despediu-se da gente e foi diretamente à mesa do Engenheiro, despediu-se e disse, com a maior calma, mas alto o bastante pra gente ouvir:
        - Meu caro, o negócio está de pé, só estou esperando uma posição sua!
        Acho que a turma da mesa dele é que não entendeu porque caímos na gargalhada: o duplo sentido da sacanagem ficava evidente só pra quem sabia que não havia "negócio" nenhum entre eles... e agora era o Engenheiro que não podia retrucar nada pra não entregar a conotação pornô para os companheiros de mesa. Adorei a retaliação.

3 de dez de 2008

Les Amants

Les Amants é um filme da Jeanne Moreau que não consigo em português de forma nenhuma - o filme, de 1958, passou por aqui nos cinemas nos idos de 1960, mas não saiu em VHS ou DVD, pelo que eu saiba. Consegui a versão original e estou legendando - vai demorar horrores, que "francês em voz alta" definitivamente não é o meu forte. Mas compensa - afinal, é Jeanne Moreau! E além disso, tem esse trecho, uma cena sutil de uma carga erótica fantástica - o rosto de Jeanne Moreau, aqueles olhos de ressaca (não a ressaca de mar, como a nossa Capitu, ressaca mesmo), olhos de mistérios e profundidades, uma boca de deusa grega, vai entrando em êxtase enquanto seu amante desce pelo seu corpo até sumir da tela, deixando a mão crispada no final como uma explosão minimalista de prazer e... desculpa, babei.
A cena:


Luiz Carlos Merten:
"Em 1958, ela fez Ascensor para o Cadafalso, de Louis Malle, e o filme é considerado um dos marcos da revolução da nouvelle vague, o movimento de renovação do cinema francês que, como uma onda, terminou por atingir as praias cinematográficas de todo o mundo. No mesmo ano, Jeanne e Malle filmaram Os Amantes e a famosa cena de sexo oral - o rosto dela em êxtase, enquanto o amante vai descendo por seu corpo até desaparecer da imagem - provocou escândalo na época."
Ruy Castro:
"Para o público, seu personagem era ela mesma: a mulher inteligente, madura e independente. Mas os diretores sabiam que aquela era apenas uma de suas facetas como atriz e que Jeanne era capaz de fazer qualquer papel. E os íntimos garantem que, na vida real, ela sabia também miar, se necessário.
Jeanne Moreau completa hoje 80 anos (*23/01/08), lúcida, firme e na ativa. Como Humphrey Bogart para as mulheres, ela ensinou aos homens que a beleza feminina mais duradoura podia estar nas imperfeições."

30 de nov de 2008

Cultura Popular

Um dos grandes quixotes e das minhas grandes admirações, o Ariano Suassuna, fez em uma de suas aulas espetáculos uma definição fantástica sobre a luta entre cultura popular, cultura erudita, cultura alienígena: o que a gente tem que fazer é fortalecer a nossa cultura, de modo que qualquer cultura que venha de fora não seja uma influência que nos diminua, enfraqueça ou descaracterize, mas sim uma incorporação que nos enriqueça. Aí abaixo vão os vídeos com essas digressões do Ariano. Acrescento umas poucas linhas: o rap, hip hop e rock foram aqui deglutidos e incorporados, dando origem a versões brasileiríssimas; o Mangue Beat está aí como um resultado de fusões que em nada perdeu da sua raiz popular, assim como anteriormente a MPB tinha se beneficiado não só das raízes brasileiras mas da cultura erudita e do jazz americano e influências européias. Na década de 80 o Brasil sofreu uma "invasão cultural", uma imposição de cultura de massa, Rock in Rio, úscambau. Hoje praticamente 70%, talvez mais, das músicas que tocam nas rádios são nacionais. A discussão sobre qualidade, etc., continua válida, claro. Produzimos e imitamos muita porcaria, a maior parte é porcaria. Mas o axé, tão criticado, foi uma fusão derivada de percussões de raízes africanas, ritmos caribenhos e música tradicional nordestina. Tudo fundido e na minha opinião, é ruim (além de alto, estridente e irritante). Mas é uma reação e uma prova de vitalidade da nossa cultura e da inventividade nativa - muito melhor que a aceitação passiva. A própria força da nossa cultura se encarrega de, com suas armas, reagir à invasão alienígena e degluti-la. Isso, como bem diz o Ariano, sem ninguém fazer nada a respeito. Imaginem se fizéssemos alguma coisa! O tal "gosto popular" é manipulado, sempre foi. O fácil vence quase sempre; o novo precisa de espaço, de ajuda. Não conheço respostas, só perguntas... fazer como o Ariano nessas aulas pode ser uma das gotas dágua no oceano, mas como no poema zen, a lua inteira brilha numa gota de orvalho.
Aqui, a fala final da aula, que achei extremamente acurada e justa:



Aqui, ele mostra as composições populares em contraponto às formas eruditas, desautorizando a opinião de que a arte popular é uma arte simples, simplória e sem apuro estético.

27 de nov de 2008

Noel Nutels

Noel Nutels foi um judeu ucraniano que veio para o Brasil ainda criança; aqui tornou-se médico, sanitarista e indigenista. Junto com os irmãos Vilas Boas, participou da Marcha para o Oeste, foi um dos primeiros a documentar a cultura indígena e ter com esta uma posição humanista, mais que simplesmente paternalista. Na época da ditatura, já respeitado no Brasil e no exterior, recebe no leito de morte a visita do Alto Comando do Exército, pelos serviços prestados à pátria, etc. Ao seu lado, no leito de morte, os poderosos generais lhe perguntam: - "Então, Nutels, como está?" Ao que ele junta suas forças, se empertiga e responde: - "Igual ao Brasil, na merda e cercado de general!" Não se renderia.
Nesses últimos dias, aqui em Salinas, tenho sentido um conflito crescente entre correntes de pensamento, um embate entre teorias que tive e tenho, uma vontade crescente de fazer como Guevara, que sentia sob os calcanhares as costelas de Rocinante. Ao contrário dele e da maioria dos teólogos comunistas, desconfio demais de qualquer salvacionismo - concordo com o Mencken quando diz que ninguém nunca perdeu dinheiro apostando contra a decência humana. Não por qualquer inferência de inteligências superiores ou guias geniais dos povos: acho simplesmente que toda pessoa, em sua plena capacidade e razão, tende a lutar primeiro pela sua sobrevivência, depois pelo seu conforto, o conforto e segurança de sua prole, e por aí vai... e pra fazer isso é capaz das maiores barbaridades. A natureza, entretanto, é educável; a sociedade se organiza de forma a que todos sobrevivam, esses "contratos sociais" que assistimos por aí. O que acontece há milênios é que um grupo forte se propaga, os fortes, os espertos e os maus prosperam mais - não por serem mais capazes ou melhores, mas por serem mais egoístas. Só uma sociedade onde haja completa transparência terá capacidade para se organizar de forma menos imperfeita - a educação como construção do ser, o ser como parte consciente de um organismo social. E provavelmente mesmo essa utopia vai naufragar na primeira onda de fome que houver nessa sociedade... Vargas Vila, outro autor semi-esquecido, dizia: A civilização é obra dos mais fortes, dos mais maus, isto é, dos homens superiores. Que resta aos fracos e aos bons? Resignar-se a ela ou perecer sob ela. Entre a selva e a corrente, optam pela corrente. E formam essa multidão de servos que fazem a delícia de seus senhores e a vergonha da história: os povos civilizados.

25 de nov de 2008

Ideologia


Não é prudente nem econômico abandonar uma ideologia só porque saiu de moda. Pois, no fundo, ela é a própria moda. O que você tem a fazer é encurtar um pouco a bainha, mandar tingir de outra cor, alargar um pouco nos ombros, apertar aqui assim na cintura, colocar uns babados e, pronto! a ideologia está de novo ápitudeite; você pode sair à rua com ela. Ninguém vai notar que já está com mais de dez anos de uso.
Isso aí é do Millôr. Estou em Salinas, onde a inércia pode ser definida como a força que a política faz para matar qualquer tentativa de progresso. Um microcosmos do país como um todo. Na verdade, onde foram parar as ideologias? Onde foram parar as bandeiras? Eram perigosas, às vezes imbecis, eram instrumentos de dominação ou de tentativas de abarcar o poder, mas também eram formas de organizar o mundo, de ver o mundo, formas de mudar, idéias, ainda que deturpadas. Ou utopias inocentes. Ou utopias, pura e simplesmente. Disfarces de garras autoritárias, às vezes. Mas formavam conjuntos propositivos. Se como diz o Millôr, ideologia é a própria moda, andamos todos nus hoje em dia. Não é melhor, pois enquanto povo estamos longe de sermos bons selvagens.
Ou como diria o Lula se explicando: o diabo é que toda ideologia tem que ser baseada num orçamento...

21 de nov de 2008

Palavras

      Mallarmé, o grande poeta simbolista francês, foi também um dos primeiros modernistas verdadeiros - compreendia a poesia como linguagem elevada à sua máxima carga significativa. E isso não envolvia sentimentos, ou Idéias Elevadas, como aquelas virtudes alemãs com letras maiúsculas. Degas, pintor, disse certa vez a ele: "Mallarmé, tenho dezenas de idéias para poesias simplesmente maravilhosas!" Ao que ele retrucou: "Mas Degas, não são com idéias que se fazem poesias, mas com palavras." Essa máxima carga significante eu ainda estou engatinhando atrás dela, não como poeta, mas como criador de aforismos. Como poeta não andei muito: quase tudo que eu fazia precisava de tanta explicação que eu desisti por hermético demais. E comecei com Mallarmé justamente por que ia colocar um desses cometimentos aqui: o poema que fez Mallarmé mundialmente reconhecido como o primeiro dos modernistas foi um poema onde ele utiliza o espaço, tipografia, tamanho e cores para dar novas dimensões de significado ao poema, e chama-se Un coup de dés, Um lance de dados, e o mote central é:
            un coup de dés
            jamais n'abolira
            le hasard
- um lance de dados/jamais abolirá o acaso. Um dos grandes mestres japoneses do Hokku, mais conhecido como Hai Kai, um tipo de poema curto, é o Bashô, criador de um poema famoso, furuike ya/ kawazu tobikomu/ mizu no oto. Literalmente: O velho tanque - Uma rã salta. Barulho de água. Que pode ficar mais ou menos assim:
      um sapo
            um velho poço
      tchibum
      (eu, acho)
ou
      silencioso lago
            o sapo salta
            tchá
      (Carlos Verçosa, tradutor de Octavio Paz: Oku: viajando com Bashô,1996)
As traduções variam muuuuito, pois pra passar ideogramas para escrita linear ocidental é fogo. Aí Leminiski brincou de juntar os dois mestres:
            Um salto do sapo
      Jamais abolirá
            O velho poço.
A discussão toda é sobre a importância da linguagem, desses mestres inventores e suas peças de toque, esses poemas. Num dia de frustração amorosa, aproveitando o fato de que o orgasmo em japonês é chamado poeticamente de "momento das nuvens e chuva" fiz esse abaixo:
                  nuvens e chuva:
            mas o orgasmo
                  jamais abolirá
            o desejo

20 de nov de 2008

Acidente de Carro

Tive um acidente de carro há dois dias atrás - dos feios, com capotagem, pedaços de carro voando, etc. Eu mesmo não tive nada: o ombro um pouco dolorido, por conta do cinto de segurança. E agora consegui um computador para escrever corroborando a tese do Seinfeld de que acidente de carro é como o orgasmo feminino: ninguém sabe exatamente como determinar o ponto exato onde o carro saiu de controle e o que aconteceu a seguir. Determinar o ponto exato do orgasmo feminino é como perguntar o que a gente viu quando o carro saiu de controle: "bom, não sei, comecei a ouvir vários sons esquisitos e estridentes, tudo começou a chacoalhar e de repente meu corpo foi jogado pra um lado". Devido às circustâncias do meu acidente, não só concordo em gênero, número e grau como vou levar um cinto de segurança pra cama na próxima vez (não ao invés, junto).

17 de nov de 2008

Antônio Maria

      Ontem, por acaso, me lembrei de uma frase do Antônio Maria - hoje um personagem semi-esquecido, foi jornalista, escritor, compositor, desenhista, radialista, homem de televisão... mas, como vários outros, interessa mais como viveu do que o que fez: o que gosto dele mesmo são os casos, com Vinícius, Aracy de Almeida, Chatô, vários outros. Não tenho nada dele a não ser na memória; fui procurar na rede de onde vinha a tal frase, achei que fosse de algum livro e no final era de uma música... acabei encontrando no Projeto Releituras uma biografia e uns textos dele, vai aqui um trecho curto sobre ele e abaixo o link para o Projeto Releituras.
      Aracy de Almeida foi uma de suas grandes amigas. Sabia tudo sobre Antônio Maria e, mesmo assim, como dizia brincando, continuava a gostar dele. Era desprovido de qualquer cerimônia: uma vez pediu a ela ajuda para colocar um supositório ("Já tentei todas as posições e não consegui nada."). Em outra oportunidade, ele e Vinícius de Morais, também seu grande amigo, tentavam cumprir um compromisso assumido: fazer um jingle para o lançamento de um regulador feminino. Estavam com inúmeros outros trabalhos e foram pedir ajuda a Aracy. Ela, sem pensar muito, tomando emprestada a melodia de O orvalho vem caindo, de Noel, atacou de pronto: "— O ovário vem caindo...". Carlos Heitor Cony dizia que se o autor fosse mandado para cobrir a posse do papa, voltaria cardeal.
      Cony conta: "Um dia, Maria me telefona: — Carlos Heitor, Carlos Heitor, você nunca me enganou." Disse então que, vindo de São Paulo, viu no avião uma mulher linda lendo o livro Matéria de Memórias, de Cony. Aproximou-se, se apresentou como o autor do livro, e a mulher, uma típica apaixonada, acreditou. Pintou para ela um quadro bastante dramático: era um desgraçado, que nunca tinha tido sucesso com as mulheres, que as mulheres o abandonavam. "— Mas, Maria..." era tudo o que o espantado Cony conseguia dizer. "— Fica tranqüilo, Cony, fica tranqüilo porque em seguida nós fomos pra cama. Ou melhor, você foi pra cama." E Cony, curioso: "— E ai?" "— E aí foi que aconteceu o problema" — gargalhava Maria. "— E ai você broxou, Cony, você broxou!"

Biografia: Projeto Releituras - Antônio Maria

16 de nov de 2008

Álbum do Pedro

Vou ser tio - do Pedro. Essa semana minha irmã ficou sabendo o sexo do bebê, apesar de minhas brincadeiras com quem perguntava se já sabia se era homem ou mulher: - "Não faz pressão! Não faz pressão! Deixa a pessoinha decidir lá pelos 15 anos!"...
Comecei agora a mandar uns emails do Calvin para ela - para animar a futura mãe, uma vez que Pedro em etrusco significa "pequeno visigodo". Calvin é um meninim de seis anos, hiperativo e com uma imaginação fantástica, que tem como amigo um tigre imaginário. Abaixo dois momentos para animar futuras mamães:
(Cliquem nas imagens para ampliá-las)





13 de nov de 2008

Contos Zen


O Koan é normalmente uma pequena história, uma pergunta ou um diálogo que é utilizado no Zen para atingir aspectos de entendimento que não são acessíveis racionalmente - uma forma de aprendizado, de iluminação e de desnudamento. Misturando culturas, o koan japonês leva à aletéia grega: aletéia é a desocultação da verdade, seu desnudamento. Acho essa palavra fantástica: a idéia é que a verdade está presente, sempre esteve, só precisa ser revelada, desocultada. Realmente ver as coisas - quando Schopenhauer traduziu do seu jeito o budismo no Ocidente o título que lhe deu foi "O mundo como vontade e representação"...
Eu utilizo as tirinhas, algumas modificadas, como uma forma de koan - os instantâneos da realidade, revelam muito mais numa risada do que páginas de filosofia. Mas às vezes volto para essas histórias, esses koan, e vou colocá-los aqui também:
Tanzan e Ekido certa vez viajavam juntos por uma estrada lamacenta. Uma pesada chuva ainda caía, dificultando a caminhada. Chegando a uma curva, eles encontraram uma bela garota vestida com um quimono de seda e cinta, incapaz de cruzar a intercessão.
"Venha, menina," disse Tanzan de imediato. Erguendo-a em seus braços, ele a carregou atravessando o lamaçal.
Ekido não falou nada até aquela noite quando eles atingiram o alojamento do Templo. Então ele não mais se conteve e disse:
"Nós monges não nos aproximamos de mulheres," ele disse a Tanzan, "especialmente as jovens e belas. Isto é perigoso. Por que fez aquilo?"
"Eu deixei a garota lá," disse Tanzan. "Você ainda a está carregando?"

Sobre essas percepções de realidade, um escritor que as utilizava demais era o Guimarães Rosa. Aliás, Rosa salpica todos os seus livros com citações de mestre Eckhart, do Corão, contos orientais, taoísmo, confucionismo... em um dos livros, já não me lembro qual, ele conta de um doidinho que estava escutando uma parede(!), com o ouvido colado à parede, muito compenetrado. Passa um sujeito e vê a cena, não diz nada; volta daí a um tempo, o doidinho continua lá. Algumas horas depois, o mesmo sujeito passa novamente e o doidinho continua lá, aí ele não se aguenta e pergunta: - mas o que é que você está ouvindo?! Ao que o doidinho responde: - Escuta aqui pra você ver! O sujeito encosta o ouvido na parede, fica um tempo e diz: - Mas não estou ouvindo absolutamente nada! Ao que o doidinho responde maravilhado: - Faz mais de três horas que está assim!
O que se procura com os koan é esse tipo de estranhamento, de descoberta que uma parede faz silêncio, que não se deve nunca confundir regularidade com leis imutáveis, nem tradição com distinções corretas da verdade.

10 de nov de 2008

Casos Salinenses - A Havana

         Esse “causo” eu ouvi de uma das pessoas mais interessantes de Salinas: Geraldo Borges, pai. Borges foi sempre um piadista, contador de casos, brincalhão; e os filhos, “os Borges”, são grandes amigos e grandes pessoas, todos eles; um, Lula, é praticamente um irmão, daquelas pessoas que fazem parte da vida da gente. Uma das últimas vezes que vi Borges, atualmente morando em Montes Claros, ele saiu-se com essa:
– Brasília parece uma colméia, não é, Max?
– Por quê, seu Geraldo, o povo muito ocupado?
– Não, metade voando e metade fazendo cera!
         Sempre com essas tiradas, uma piada. Mas vamos ao caso (mudei os nomes e circunstâncias):
         Eram três grandes amigos, amigos da vida inteira: Borges, Moacir e Bernadino. Amigos de tempos bons e ruins, de cachaça, de coisa séria, de conversa, de compadrio, enfim, bons amigos. E tinham um tesouro enterrado: uma Havana, ganhada por um deles, enterrada havia já uns dez anos no quintal de Moacir. Guardada para uma grande ocasião, para uma celebração daquelas, coisa especial mesmo. Tão especial que a tal ocasião nunca chegava: os três nunca concordavam que as ocasiões que apareciam eram especiais o suficiente para justificar desenterrar a tal Havana. O que levava Bernadino, o pau d’água da turma, às raias do desespero, amaldiçoando os outros dois, ameaçando céus e terra, pedindo, xingando... mas era sempre voto vencido.
         Até que Moacir adoeceu – e gravemente: câncer. Cada vez pior, recebeu um diagnóstico de pouco tempo de vida, voltou pra casa pra descansar entre os seus, passar seus últimos dias em casa, com esposa, filhos e netos. E amigos, claro: assim que chegou em casa fez a convocação dos outros dois – Borges logo atendeu, mas Bernadino, pau d’água como ele só, deixou-se ficar nos butecos, alongando o dia, afastando o momento da despedida, também.
         E quando finalmente foi para a casa de Moacir – que ficava em uma ladeira, numa das ruas principais da cidade, a que levava ao Colégio – encontra com Borges já vindo embora:
- E aí, Borges, o caso é sério mesmo? Sem escapatória?
- Sério, sério... nas últimas. Foi uma despedida mesmo – vai descansar, muito sofrimento...
E já emendou, que não ia deixar passar:
- E sabe o que que nós fizemos, Bernadino? Sabe aquela Havana?
- NÃO! Vocês abriram a Havana!?! Sem eu estar junto?!!!
- Uai, não teve jeito, o homem naquelas condições, eu nem tive coragem de negar...
Bernadino agora estava indignado:
- Mas, Borges, são mais de dez anos de combinação! São mais de 60 anos de amizade! Não podiam esperar metade de um dia, caramba?
- Até falei com Moacir, mas ele disse que você já devia estar bebendo mesmo, não ia nem saber a diferença de uma Havana pra uma 51...
Bernadino estupefato. Desolado. Desesperado:
- Então deixa eu correr lá, Borges, deixa eu ir logo despedir de Moacir! Beber minha parte com ele, ocasião especial mesmo...
Borges se divertia em futucar a ferida:
- E estava uma maravilha, Bernadino! Era especial mesmo! E dez anos enterrada... rapaz, aquilo foi um mel dos deuses. Pena que acabou...
- ACABOU?! Como acabou?!?!!! Além de abrir sem eu estar junto de vocês, vocês ainda beberam tudo? Não acredito! Desfeita! Despropósito! Falta de companheirismo! 60 anos de amizade na lata do lixo! Esconjuro!
Borges já estava se deliciando com a reação:
- E olha Bernadino, confesso que nunca tomei uma daquela... uma maravilha... delícia das delícias... nunca mais outra vez... ainda tô sentindo o gosto dela aqui na boca... passando a língua dá pra sentir o resto do gostinho.. hummm...
Aí Bernadino perde as estribeiras, chega a ficar na ponta dos pés, e com o dedo em riste, na cara de Borges, solta:
- Borges, me escuta! Pela consideração que você ainda me tem...
E mais alto:
- Pelos nossos mais de 60 anos de amizade, por tudo que nós passamos juntos...
E mais:
- por nossos filhos, por nossos netos, Borges! Me escuta, Borges, pelamordedeus...
E afinal:
- ME DÁ UM BEIJO NA BOCA, BORGES!!!!

6 de nov de 2008

Mais árido que três desertos

O título do post é do Nelson Rodrigues - o estilo dele, exagerado, teatral, dá quase para perceber que as frases são para serem faladas gesticulando, abrindo os braços: mais árido que três desertos! Estudo e pratico há algum tempo o zen, com suas formas de pensar, suas disciplinas mentais e suas visões de mundo - e às vezes sinto essa aridez de três desertos em algumas partes ou passagens. Agora mesmo estava tentando encontrar uma reunião de conhecimentos budistas chamada Cânone Páli, e quando consegui fazer o download e abri o arquivo, descobri que o Cânone Páli está em... páli. Fantástico: a imagem do burro olhando pra palácio. Deve ser alguma idéia de ironia e riso do zen. Mas nessas pesquisas encontro cada vez mais nomes de uma beleza poética: Japão é a "Terra do Sol Nascente", Coréia é a "Terra da Quietude da Manhã"... bunito!
Outro achado: um dos primeiros imperadores budistas do Japão, Shotoku (regente, na verdade), publicou em 604 d.c. uma Constituição de Dezessete Artigos que diz em seu artigo X:
"Vamos abandonar o ódio e evitar olhares enraivecidos. Também não fiquemos ressentidos quando outros diferirem de nós. Pois todos os homens têm coração e cada coração tem suas próprias inclinações. Seu certo é nosso errado e nosso certo é seu errado. Não somos inquestionavelmente sábios, nem eles são inquestionavelmente tolos. Somos todos simplesmente homens comuns. Como pode uma pessoa estabelecer uma regra por meio do qual distinguir o certo do errado? Pois somos todos nós, uns com os outros, sábios e tolos, como um anel que não tem fim. Dessa forma, embora outros cedam à raiva, que nós, ao contrário, temamos nossas próprias faltas".
Talvez fosse interessante colocar isso na nossa própria constituição... ah, essa Constituição do Shotoku começa assim: a harmonia deve ser valorizada e deve-se respeitar a escusa de uma oposição gratuita. Todos os homens são influenciados pelo faccionalismo e poucos são os inteligentes. Mas quando os de cima são harmoniosos e os de baixo são amistosos, e há concordância na discussão das questões, a concepção correta das coisas alcança espontaneamente aceitação. Pois o que há aí que não pode ser realizado?
Não é?

3 de nov de 2008

Sobre cartoons e significados

Ando tão imerso em minhas últimas aquisições - aulas de filosofia mundial em audiobooks, curso sobre gregos ilustres de um professor americano, entre outros trecos - que comecei a ficar sério... o que é um péssimo sintoma. Nesse ponto eu volto sempre para os meus cartoons, minhas tirinhas & besteiras acumuladas ao longo dos anos, pra rir um bocado, e também pra sintetizar os pensamentos. Incrível como algumas tirinhas têm essa capacidade de síntese, uma situação que descreve todo um pensar. Um exemplo (não tenho mais essa tirinha): Calvin na banheira, sua mãe tentando colocar a água na temperatura que ele quer - Está muito quente, está muito fria - muito quente - quente - muito fria - e a mãe com aquela cara de fúria, hilário. De repente aparece uma nuvenzinha com a mãe fazendo vapt fatzp vupr e colocando a água numa "sintonia fina", e pergunta, triunfante: E agora? Ao que o Calvin responde desconsolado: Agora está muito funda!... Apelidei essa tirinha de "mente feminina": no momento onde acho que está tudo se ajustando e que vai dar tudo certo, aparece uma variável que eu desconhecia. Mas vejo agora que não é só mente feminina, não: as variáveis de vida é que são muitas, e quando a temperatura está ideal acaba ficando muito fundo... reconstrua-se! Ri de todo mestre que não riu de si também... ainda mais se não soubesse dançar.

PS: Acabei de escrever o post e me lembrei de que uma das aquisições é justamente o Calvin and Hobbes de 1985 a 1995... quase 4.000 cartoons. Consegui achar a tirinha:

Eu me lembrava de forma diferente... agora, essa abaixo decididamente desperta o sentimento de que Herodes tinha razão:

No original:

31 de out de 2008

As cidades invisíveis

       Os lábios comprimidos contra o tubo de âmbar do cachimbo, a barba esmagada pela gargantilha de ametista, os dedões do pé nervosamente dobrados dentro dos chinelos de seda, Kublai Khan ouvia os relatórios de Marco Polo sem se mover. Era uma daquelas noites em que um vapor hipocondríaco premia o seu coração.
      - As suas cidades não existem, Talvez nunca tenham existido, Certamente não existirão nunca mais, Por que enganar-se com essas fábulas consolatórías? Sei perfeitamente que o meu império apodrece como um cadáver no pântano, que contagia tanto os corvos que o bicam quanto os bambus que crescem adubados por seu corpo em decomposição, Por que você não me fala disso? Por que mentir para o imperador dos tártaros, estrangeiro?
      Polo reiterava o mau humor do soberano,
      - Sim, o império está doente e, o que é pior, procura habituar-se às suas doenças. O propósito das minhas explorações é o seguinte: perscrutando os vestígios de felicidade que ainda se entrevêem, posso medir o grau de penúria. Para descobrir quanta escuridão existe em torno, é preciso concentrar o olhar nas luzes fracas e distantes.
      Outras vezes, o Khan era acometido por sobressaltos de euforia. Ficava de pé sobre as almofadas, media com longas passadas os tapetes estendidos sobre os canteiros, debruçava-se nos balaústres dos terraços para abranger com os olhos deslumbrados a extensão dos jardins do palácio real iluminados por lanternas penduradas nos cedros.
      - Todavia - dizia -, sei que o meu império é feito com a matéria dos cristais, e agrega as suas moléculas seguindo um desenho perfeito. Em meio à ebulição dos elementos, toma corpo um diamante esplêndido e duríssimo, uma imensa montanha lapidada e transparente. Por que as suas impressões de viagem se detêm em aparências ilusórias e não colhem esse processo irredutível?       Por que perder tempo com melancolias não-essenciais? Por que esconder do imperador a grandeza de seu destino?
      E Marco:
      - Ao passo que mediante o seu gesto as cidades erguem muralhas perfeitas, eu recolho as cinzas das outras cidades possíveis que desaparecem para ceder-lhe o lugar e que agora não poderão ser nem reconstruídas nem recordadas. Somente conhecendo o resíduo da infelicidade que nenhuma pedra preciosa conseguirá ressarcir é que se pode computar o número exato de quilates que o diamante final deve conter, para não exceder o cálculo do projeto inicial.


Esse livro do Calvino, As Cidades Invisíveis, é ao mesmo tempo um exercício imagístico e filosófico: Marco Polo, tornado embaixador pelo Grande Khan, Kublai, vem a este com histórias das cidades do seu império, para entretê-lo; entretanto, não são cidades reais, são as almas das cidades, cidades (im)possíveis, cidades-pessoas, cidades-almas... um livro de uma poesia singela, e de imagens fantásticas.

29 de out de 2008

Meditações, de Marco Aurélio: Experiências

Terminei a segunda parte das "Meditações": valeu a experiência. Não ficou como tinha imaginado, levei um susto com o tempo. Como 10 minutos duram! E o susto com a própria voz também - ou com a imagem no vídeo, essas coisas. Mas as inserções, transições, controles, acho que já consigo fazer - o que não significa fazer bem. E o tema, que me toca profundamente, não diz ou não dirá nada para a maioria: Marco é um personagem por assim dizer secundário, hoje em dia. Mas eu amo apaixonadamente o Império Romano, aquela época de gigantes, e Marco é um dos melhores, vem depois de Augusto e Adriano, até hoje exemplos do Além do Homem nietzschiano pra mim... bom, o vídeo já está viajante o suficiente! Aguardo sujestões, risadas, críticas e contribuições!

27 de out de 2008

Sentidos

O famoso psicólogo Mihaly Czikszentmihalyi pergunta: qual a fonte da felicidade? E chega na seguinte resposta: a partir de um certo ponto (que não é longe), dinheiro não afeta muito a felicidade. Ao invés disso, suas pesquisas mostram que tendemos a ser mais felizes quando estamos imersos, quase perdidos mesmo, em ser criativos e dando o melhor de nós. É um estado de espírito que ele chama de "flow", fluxo, o fluir - não acho uma palavra correspondente em português que seja simples e sonora como no inglês. E não tenho tempo de traduzir e legendar todas essas coisas, peço desculpas, mas vou colocar só o link para o vídeo em inglês mesmo. Quem puder assistir, é ótimo, vale a pena. Não sei se ele já tem livros em português, mas os Flow: The Psychology of Optimal Experience e Finding Flow: The Psychology of Engagement with Everyday Life estão disponíveis na Amazon. Não defende uma coisa ao invés da outra, não: mas a experiência de que o máximo de contentamento, de felicidade, vem quando utilizamos ao máximo nosso potencial, e submergimos no fazer criativo. Quem já ficou imerso em pensamentos & atividades ligados a algo que a gente valoriza acho que sabe que isso é verdade: não substitui dinheiro, mas é muito melhor.


Ah, a página onde está esse vídeo (e dezenas de outros) chama-se TED (Talk Every Day, ou "uma conversa todo dia" ou "por dia") - idéias que vale a pena espalhar! Olha que fantástico, já é uma idéia que vale a pena espalhar ter uma página assim em português, não é?

*Fonte: openculture

24 de out de 2008

Aula experimental - Meditações, de Marco Aurélio

Uma experiência de aula, que pretendo estender a outras áreas, inclusive. A primeira experiência, a Ilíada, não havia feito backup e perdi, junto com algumas coisas dessa "Meditações" - tinha usado um programa de software livre e ao desinstalá-lo, os arquivos criados foram junto. Pena. As experiências, feitas com recursos mínimos, envolviam editar cenas, editar áudio, manusear títulos, tamanho de vídeo, etc. Não envolveu filmagem nem nada, por enquanto - realmente recursos minimalistas - sem luz, sem som, etc., usando a função de filmagem da máquina fotográfica mesmo. A transposição de uma aula de 50 minutos para dois vídeos de 10 min não ficou muuuuito bem delineada ainda... precisa de muito trabalho. A idéia original era para uma aula de 1 hora e quarenta minutos, a aula padrão. Achei que não haveria sentido - pela minha experiência, uma aula de 40 minuntos ou meia hora é o suficiente para explicar qualquer assunto, ou no caso de não ser suficiente, é melhor que seja dividida em duas. Mais do que isso a gente não presta atenção, e mesmo se usássemos a melhor prosa e os melhores recursos, acima disso a atenção torna-se difusa. Daí para passar para trechos de 10 minutos é um salto enorme. Existia a possibilidade de fazer quatro trechos, mas não funciona direito essas sequências no youtube - lá, como em quase tudo, menos é mais. Mas como estou começando, vou colocar assim mesmo. A da Ilíada tinha ficado bem melhor, mas vou ver se a segunda parte desse já sai com "upgrade"...


22 de out de 2008

Eterno Retorno


Há alguns dias, os economistas em consenso apostaram que os números mostrariam que estávamos entrando em uma recessão mundial, e as bolsas despencaram... agora, saíram os números e, surpresa, os economistas acertaram: estamos entrando em uma recessão mundial. Aí a bolsa cai de novo... mas não é a mesma notícia, caramba?! Ou não acreditaram lá atrás ou não acreditam agora, ou então acreditaram só um pouquinho lá atrás, é isso? Depois vêm falar da tal crise de confiança... parece bastante óbvio que desconfiar desse povo é a única aposta confiável.

BRICs

A Índia enviou hoje sua primeira nave à Lua. Faz parte da nova corrida espacial - a China fez o mesmo há pouco tempo. Nós não precisamos nos preocupar: Lula já vive mesmo no mundo da lua, e nossos políticos já mandaram a moralidade pública para o espaço faz tempo. Nessa saímos na frente.

19 de out de 2008

Tirinhas

Acho que é mais do que perceptível que eu adoro tirinhas... esse recorte no tempo/espaço, e o humor que isso permite, eu acho simplesmente fantástico. O riso como operador filosófico - essas tirinhas são ótimas sátiras sociais, comportamentais... por retratar apenas um momento, acabam elevando o comportamento retratado a um estereótipo e mostrando o ridículo por trás da coisa: quase nada em termos de comportamento se sustenta sem o edifício do consenso coletivo, essa imensa coleção de hipocrisias.
Cliquem para ampliar as imagens:

Dificuldades de comunicação....

Novos paradigmas

Na verdade, a penúltima tentativa...

18 de out de 2008

Molière

Uma das figuras seminais da literatura francesa, não pela técnica dramática ou excelência poética: seus enredos são copiados, seus personagens quase caricatos, mas a filosofia em suas peças, seu humor e sua sátira feroz faz com que todo francês alfabetizado o leia. Uma filosofia racionalista que poderia ser endossada por Voltaire - uma filosofia moral pagã, que legitimava o prazer e não tinha noção do pecado. A França o reverencia como a Inglaterra reverencia Shakespeare; mas ele é só uma parte do bardo inglês, sendo Racine e Montaigne as outras partes que comporiam a mesma estatura de Jaquespère para os gauleses. Sua obra é uma guerra constante contra o pedantismo, o fanatismo, a superstição e a impostura. O documentário não está a altura do personagem - mas é um começo.



Mais fontes em:
http://www.site-moliere.com/

Molière: sa vie:

Jean-Baptiste Poquelin fut acteur, dramaturge, metteur en scène, directeur de troupe, tout à la fois. De plus, il tient sa place dans le panthéon des plus grands écrivains français, non seulement à cause de la façon dont il maniait ses vers, mais parce qu’il fait rire. C’est avant tout un auteur comique, et son œuvre emprunte toute méthode concevable pour exulter ses spectateurs.
Sa vie, d’ailleurs, fut une série de tourbillons. Sans cesse atteint de maladies, Molière connut de grands succès aussi bien que l’échec total. Il était à la fois adoré par ses amis et détesté par un grand nombre d’ennemis. D’une part on le comblait de louanges, de l’autre on l’accablait de
calomnies.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Moliere (fraquim)

Segunda parte:



Todas as suas peças estão disponíveis on line.
Para download em inglês:
http://www.gutenberg.org/browse/authors/m#a791
Para download em francês (somente algumas peças):
http://www.gutenberg.org/browse/languages/fr
Para ler on line (em francês) - completo:
http://www.site-moliere.com/pieces/

15 de out de 2008

Comida Chinesa

Como ando contando casos por aqui, vou colocar esse também no papel. Nem é um "causo", só um dos milhares de exemplos de cabeçadas que eu dei e ainda dou por aí, pra aprender as coisas. "As coisas", no caso, era a tal da comida chinesa. Era 1990, até então não conhecia nada dessas coisas - de Salinas fui para Lavras, segundo grau, e em 90 vim pra BH.
A oportunidade perfeita surgiu quando meu primo passou na primeira etapa do vestibular; eu na época estava vendendo computador para um amigo de Lavras, fazendo um dinheiro extra, dólar e tal, resolvi pagar um almoço daqueles pra comemorar. Separei 40 dólares, na época era uma fortuna - ainda mais pra estudantes - e fomos num restaurante que tinha acabado de abrir. Chamava-se Suai Ho, se não me engano, e a proposta deles era ser um "chinês chique", era dos mesmos donos do Macau, acho. E realmente o ambiente era ultra refinado, maître com sedas, bambus, shojis e úscambau - tudo do bom e do melhor. E os dois salinenses lá, exibidíssimos. Os problemas começaram já no cardápio: não tinha tradução! Depois, tarde demais, o maître explicou que estavam começando, tinham inaugurado naquela semana, os cardápios eram originais, não tinham sido traduzidos ainda... mas na hora, não demos o braço a torcer de que não tínhamos a mais mínima idéia do que diabos aquilo estava dizendo. Fui pelo preço: pedi o prato mais caro da casa.
Uns vinte minutos depois, chega um garçom com uma travessa daquelas com dragão enfeitando, prata, dava pra gente se sentir num pavilhão da Cidade Proibida. Só que veio com um líquido esverdeado dentro - a cara de frustração nossa era indisfarçável.
- Nêgo, é sopa! Falei sussurrando pro meu primo. Mas, sem dar mostras de falta de savoir faire, começamos a beber aquela coisa da maneira mais aristocrática que conseguimos. O diabo é que o treco era pura pimenta, os dois com lágrimas correndo pelos olhos, vermelhos, suando... Foi o tempo de umas duas ou três colheradas, e outro garçom chega com outra travessa, enorme, com um pato enfeitado e umas folhas multicoloridas, saladas & tal, olha pra gente sem acreditar e exclama:
- Meu Deus, vocês comeram o molho!!!

14 de out de 2008

Profecias

Até agora, a única função das previsões dos analistas econômicos é fazer a astrologia parecer respeitável.


11 de out de 2008

Notas sobre a crise econômica

Antigamente, pra dar uma idéia de quase infinitude falava-se sobre o número de estrelas na galáxia: 10^11. Mas isso representa só 100 bilhões! É 8,5 vezes menor que o pacote de ajuda americano. Daqui pra frente, a idéia de infinitude muda de números astronômicos para números econômicos. E o Tutty Vasques saiu-se com uma ótima: o Brasil patenteou o açaí, o Líbano quer patentear o tabule, o kibe e o esfirra, e os Estados Unidos vão acabar patenteando o abacaxi, o pepino e o nabo! E o Zé Simão mudou o nome de Wall Street para Ai Street. Mas falando sério, não vejo uma grande mudança nos fundamentos econômicos, principalmente porque os europeus e asiáticos já defendiam maior controle sobre o capital especulativo. Os americanos vão jogar a conta em cima da booboise, a boa e velha classe dos pagadores de impostos, que em troca deve dar mais votos aos democratas para darem uma aparência de maior controle àquela zona... até o próximo grande escândalo. Ninguém, mas realmente ninguém, jamais perdeu dinheiro apostando contra a decência humana. Mas até o momento ninguém tinha ganhado tanto dinheiro fazendo isso.


8 de out de 2008

Russos

Pois é, há dias estava procurando uma tirinha para ilustrar o post "Background", de 06/10. Falava sobre referências, na maior parte canônicas, clássicas. Mas um caso ótimo é essa tirinha abaixo:



É uma brincadeira com o Eisenstein, numa cena antológica do Encouraçado Potemkin, nas escadarias de Odessa. Nós lemos a respeito do filme, raramente alguém realmente vê esses filmes. E acho que até com razão, porque alguns tornaram-se meio Lusíadas, aquele trambolho imenso, difícil e chato quando inteiro, mas com pedaços deliciosos quando "charqueado". Nisso, o youtube dá uma mão, já que dá pra ver trechos de alguns filmes. Esse eu tenho, mas já existia no youtube, aproveito o link.




A cena é forte, o filme foi revolucionário para a época (1925), tanto pela abordagem do tema quanto pela estética e pelos movimentos da câmera, os cortes, etc. De forma a transcrever idéias complexas e ideologias profundas, Eisenstein chegou ao uso de técnicas de montagem inspiradas nos ideogramas orientais. Se determinado ideograma significa "telhado" e outro, "esposa", a união dos dois é lida como lar. Desta forma, é o choque entre duas imagens aparentemente díspares que cria o impacto, o sentido a que se quer chegar. Um estudo mais aprofundado disso pode ser lido no livro Ideograma, organizado pelo Haroldo de Campos. Mas não precisa disso tudo, né? Basta ver ou o filme ou uma das obras que fazem referência a ele, e são muitas - Os Intocáveis, por exemplo, tem a cena do carrinho na escada. Ufa! Mas olha como a referência é necessária para a comicidade da tira, e como o Laerte foi fantástico nessa sacada...

7 de out de 2008

William S. Burroughs

William Seward Burroughs II (5 de fevereiro de 1914 – 2 de agosto de 1997) foi um escritor, pintor e crítico social nascido nos Estados Unidos. A sua obra mais conhecida é Almoço Nu (Naked Lunch). Grande parte de sua obra, de atmosfera fantástica e grotesca, tem caráter autobiográfico. Apesar de fazer parte da chamada geração beat, seus livros têm pouco em comum com o restante desses autores, já que a linguagem utilizada provém de fluxos de consciência durante o uso de alucinógenos. Nesse documentário da TV francesa, essa característica é aproveitada, fazendo uma mistura de trechos biográficos com um fluxo imagético que replica a não linearidade dos textos/fluxos de consciência.



Geração Beat (Beat generation em inglês) é um termo usado tanto para descrever um grupo de escritores americanos,que vieram a se tornar conhecidos no final da década de 1950 e no começo da década de 1960, quanto ao fenômeno cultural que eles descreveram e inspiraram - esses escritores foram posteriormente chamados beatniks. As principais obras da geração Beat na literatura são Howl (1956) de Allen Ginsberg, Naked Lunch (1959) de William S. Burroughs e On the road (1957) de Jack Kerouac. On the road transformou o amigo de Kerouac, Neal Cassady, em um herói dos jovens. Os membros da Geração Beat rapidamente desenvolveram uma reputação como os novos boêmios hedonistas que celebravam a não-conformidade e a criatividade espontânea. O adjetivo beat, do inglês, tinha as conotações de cansado, batido ou superado, mas quando usado por Kerouac esse também incluía as paradoxais conotações de "upbeat", "beatific", e a associação musical de ser "na batida".
Os escritores Beat davam enfâse em um engajamento visceral em experiências com as palavras combinadas com a busca por um entendimento espiritual mais profundo (muitos deles desenvolveram interesse pelo Budismo, por exemplo). Ecos da Geração Beat podem ser vistos em muitas outras subculturas, como hippies, punks, etc.




Homossexual depois da morte acidental da esposa, Burroughs foi um dos pioneiros da literatura experimental, tanto no universo léxico escatológico, urbano, comum e absurdo como no consumo de drogas para produção subjetiva de textos - a transição caótica das imagens do documentário, entremeados de textos do Burroughs, traz um pouco dessa atmosfera beat, meio pós-tudo. Em 96, com 82 anos e tendo usado drogas por mais de 50 anos, com um histórico de desregramento atravessando o século, perguntaram pra ele como ele se sentia - e ele: "Se eu soubesse que eu ia viver tanto, teria me cuidado melhor".



E, depois de tudo isso dito, vale também relembrar uma frase do Truman Capote, quando foi apresentado à então incipiente literatura beat: "isso não é escrever, isso é datilografar"!

6 de out de 2008

Background

Ontem estive no lançamento do livro da Mariângela Ryosen, monja zen budista, no Instituto LamRim, tibetano. Discussões sobre quando o ano deveria começar: primavera, verão, outono, inverno, após o solstício, dia mais longo do ano, noite mais longa do ano, o Sol Invictus romano, quando o sol começa a vencer a noite, ou no ano novo tibetano, etc. As diferenças culturais: tanto na China quanto aqui não faz tanto sentido o ano começar quando começa, mas adotamos o conceito eurocêntrico. Mas são convenções. Outro pensamento, e esse quero levar adiante: na China, os estudantes lêem Confúcio, Lao Tse, etc. Na Europa, temos Shakespeare e Milton e Chaucer na Inglaterra, Diderot, Moliére, Voltaire e demais na França, Goethe, Kant, Rilke, Nietszche e outros na Alemanha. A maior parte desses faz parte do currículo escolar. E a tradição clássica ocidental está presente: os estudantes lêem a história, ou trechos, da Ilíada, da Eneida, dos clássicos greco-romanos, ainda que adaptados. Mesmo Espanha tem seu Cervantes, Portugal tem Camões, e também não negligenciam os clássicos da antiguidade, ou Shakespeare e Dante. Porque são leituras formadoras, não é à toa que o Bloom fez o livro "Shakespeare e a Invenção do Humano". Uma curiosidade, a título de exemplo: quatro das séries de ficção científica que passam atualmente, a Andromeda, a Battlestar Gallactica, Stargate Atlantis e o reprise de Star Trek, todas têm ou tiveram episódios onde há uma nave chamada "Ira de Aquiles". Não diz nada pra gente, diz? Ira de Aquiles vem do episódio da Ilíada onde, após a morte de Pátroclo, Aquiles investe-se de ira selvagem, e persegue os troianos até os muros da cidade. Sem qualquer compaixão ou vestígio de atitutes nobres, mata Heitor, o herói perfeito troiano, diante da mulher, dos filhos, do pai... esse epísódio marca tanto o início da Ilíada quanto a virada dos gregos, que estavam sendo expulsos e perdendo a guerra, pois Aquiles até então se recusava a lutar. Diz ainda dos valores do amor, da amizade, da honra. A Ilíada ainda é um dos livros seminais da literatura mundial, e da formação humana, da tradição ocidental. Como Shakespeare. E a maior parte dos estudantes (europeus e americanos) ao menos reconhece a referência, como os nossos (alguns) reconhecem quando escrevemos "olhos de ressaca". Esses multiculturalistas expulsaram os clássicos e os humanistas dos nossos currículos e nos lançaram no lugar utopias imbecis e "libertadoras", escritas de minorias, resmungos, lamentações, reclamações, etc - mas paramos de saber como chegamos até aqui. Pra mim, continuo hasteando bem alto a bandeira de herdeiro da tradição ocidental, sem nenhuma vergonha, ao lado da boa tradição de mundo novo do Darcy Ribeiro, do Whitman, do Pound e de tantos outros: milênios da formação humana são descartados em favor de uma subliteratura moral e qualitativamente esquálida, por ter sido feita por ou para ou falando das minorias daqui. Como se fossem excludentes - não são. Complexo de viralatas, diria o Nelson Rodrigues. Eu já digo que são os próprios viralatas, tentando convencer os outros a cultuar uma forma nova só por ter sido produzida por incompetentes que não conseguem sequer ficar à sombra dos antigos. E João Rosa, João Cabral, Leminski e outros são colocados como avis rara, ao invés de exemplos e metas de antropofagia. Devorar a cultura ocidental e devolvê-la multiplicada, cruzada, enxertada e modificada pelas influências nossas, nossa multietnicidade imanente - não esse deserto de idéias vindo do multiculturalismo estéril.

3 de out de 2008

Felicidades

Puritano: um sujeito que sofre de um medo aterrorizante de que alguém, em algum lugar, consiga ser feliz. Daí passa a estudar sexo, dar aulas de educação sexual, fazer pesquisas, teorias, tudo com o objetivo implícito de tornar o ato em si um tédio completo. Mas não adianta: o sexo continua sendo uma tremenda gozação...

(clique para ampliar)

Pêesses: queria mesmo era escrever tantalizante ao invés de aterrorizante, mas fica pra quando tiver mais de 80 e estiver dando banana pra periferia... e o textículo acima continua o cruzamento de Mencken com Millôr.

1 de out de 2008

Eleições - à maneira de...

Misturando Mencken com Millôr, já que estamos a poucos dias da eleição:
Já que a democracia é a ciência desenvolvida para gerir esse circo a partir da jaula dos macacos, pergunto: alguém embarcaria num avião que só decolasse depois dos passageiros elegerem o piloto? A cada eleição que passa começo a acreditar que o brasileiro inventou o voto irônico - seria uma explicação, não? Aliás, a coisa só funcionaria mesmo se além de voto branco, nulo e a distância, tivéssemos também voto retroativo. E o resultado seria um tiquinho mais justo se cada eleitor tivesse direito a um voto a favor e outro contra - ou então apenas o voto contra: o menos votado seria eleito. O perigo seria eleger uma nulidade absoluta, de que ninguém se lembrou nem mesmo de ser contra. Não, não daria certo: esse tipo já anda sendo eleito.
E já que a gente não consegue interferir no resultado, podia pelo menos contar pontos no purgatório.



29 de set de 2008

Falsa Cultura

Inspirado, acho, no Tolicionário, o Dicionário das Idéias Feitas do Flaubert, Millôr criou esses achados que chamou de falsa cultura; começo com os dele e vou dando continuidade com os meus:

  • Bêbado e pêndulo são dois pronomes oblíquos
  • Os árabes são um povo muito semítico
  • Na Mesopotâmia, foram encontrados fósseis com milhões de anos de vida

Essa confrontação com idéias feitas é genial... algumas das peças do Millôr abordam essa calcificação da imbecilidade. Falta sempre alguém pra gritar que o rei está nu. Uma definição:

  • As classes altas são, naturalmente, as mais educadas e refinadas. As classes proletárias têm menos educação e requinte. E tem ainda a classe média, que diz muito palavrão e é sempre contra.

  • Os Serviços de Atendimento ao Cliente (SACs) começaram com a construção do Muro das Lamentações em Jerusalém
  • Filosofia é uma coisa que discute filosofia

* A penúltima é minha.

26 de set de 2008

Cadernos de Guerra - Vídeos

Criei um novo blog para organizar meus vídeos; desde que comecei com este blog, comecei também a postar no Youtube vários vídeos, desde trecos antigos que tinha gravado (e são dezenas de horas de documentários, entrevistas, etc) até coisas mais recentes, aquisições e descobertas. A minha página de vídeos do Youtube me espantou pelo número de visitas, atualmente quase 200 mil pessoas já viram os vídeos. Não é extraordinário comparado a vídeos que sozinhos têm quase 4 milhões de visitas, mas esses são os hits da rede. Os meus vídeos vão desde documentário da formação do povo brasileiro, aulas de filosofia, entrevistas, filmes que não saíram no Brasil, personagens quase desconhecidos, em suma: difíceis de engolir, achei inicialmente. Estava errado: se não são um hit, apesar disso o número de visitas é bastante generoso. Mas no Youtube estavam desorganizados e a estrutura do serviço não permite uma organização temática, assim vídeos do mesmo assunto ficam distantes uns dos outros, não há uma sequência, uma linearidade, por assim dizer. Vou passando aos poucos para o novo blog, Cadernos de Guerra - Vídeos. E as primeiras postagens (cliquem para ir para a página):

Brasil, Brasil - Tropicália Revolution - BBC
Documentário da BBC sobre música brasileira. Essa segunda parte conta a trajetória da música brasileira junto com os acontecimentos da época, a ditadura, a guerrilha, 68, era de Aquarius... mas a visão é um tanto diferente da que a gente tem, um certo estranhamento com as opiniões e visões, já que a comparação que fazem e o referencial que têm é a música inglesa, que nesse mesmo período estava com sua própria revolução, Beatles, Stones, Pink Floyd, etc.

O Povo Brasileiro - Matriz Tupi
Baseado no livro homônimo de Darcy Ribeiro, com o prórpio, Chico Buarque e outros. Primeira parte com a nossa "herança índia" até a chegada dos portugueses, a Matriz Tupi, os "brasis", índios e sua cultura. Formação do povo brasileiro, como no livro de Darcy Ribeiro.

Fernanda Torres - Entrevista no Estúdio Brasil
Entrevista-encontro da Fernanda Torres no Estúdio Brasil, da STV: mais um "achado arqueológico" nos meus trecos. Parte 1: Nesse trecho, ela conta o início da sua carreira, os "micos" iniciais, a infância como filha de dois monstros sagrados do palco, Fernanda Montenegro e Fernando Torres (mais na página).

O Impacto de Nietzsche no Século XX
Abaixo, texto do Oswaldo Giacóia, filósofo, sobre Nietzsche - acompanha vídeo da aula dada por ele em Porto Alegre, se não me engano. Adoro Nietzsche, e por mais engraçado que possa parecer, sempre achei que se ele fosse um pouco menos esquizóide ia deixar o Bernard Shaw no chinelo... Digo, como criador de chistes e bon mots, como filosófo está sempre acima e além de quase todos os outros, suprasumo e nêmesis do idealismo alemão. Mas o que ele empreendia era uma reconstrução radical do homem, essa filosofia a golpe de martelos que me encanta desde a adolescência (mais na página).

24 de set de 2008

Biocombustível

Duas "visões estrangeiras" com que me deparei nos últimos dias: consegui um documentário ótimo da BBC sobre música brasileira (mais aqui), estou colocando no Youtube sem legendas mesmo, depois vejo se vou ter paciência de traduzir. Essas traduções estão me tomando muito tempo... e eu quero tempo pra poder continuar com o italiano, não melhorar o inglês, por enquanto os amigos vão ter que se contentar com o sotaque salinense falando "uát táim îs îh ti?".
No documentário, a trajetória da música brasileira junto com os acontecimentos da época, a ditadura, a guerrilha, 68, era de Aquarius... mas a visão é um tanto diferente da que a gente tem, um certo estranhamento com as opiniões e visões, já que a comparação que fazem e o referencial que têm é a música inglesa, que nesse mesmo período estava com sua própria revolução, Beatles, Stones, Pink Floyd, etc.
A segunda "visão estrangeira": conheci duas canadenses através do Soulseek, elas procurando música brasileira e eu procurando jazz... início de uma boa amizade virtual, através delas conheci a Anna Karina, a Jane Birkin. Algumas bandas de drum'n'bass, também, mas eu descontei mandando Luiz Gonzaga, Tom Zé e Elomar e Hermeto, a sétima cavalaria dissonante. Taí, olha que nome legal pra uma banda: Hermético e a sétima cavalaria dissonante! Bom, fim de semana elas estavam alvoroçadas de tudo, já me receberam com um "Vocês estão produzindo biocombustível com SAAAANGUEEEE!!!!!!!". Não entendi nada, aí me mandaram para os sites da Bloomberg, Newsweek e outros - reportagens e reportagens sobre a exploração desumana dos bóias-frias, trabalho escravo nas lavouras de cana, etc. O tal orgulho nacional me fez escrever que ainda saía mais barato que o Iraque em vidas, mas não colou nem pra mim. Fica então o registro: o biocombustível pode ser moderno, mas nós, como sociedade, ainda estamos na infância da arte. E fechar os olhos não resolve.



19 de set de 2008

Casos Salinenses - Pescaria

Os dois amigos iam de novo para o Araguaia: esses dois salinenses eu conheci bastante... homens sérios, direitos, super trabalhadores, colhiam os frutos de uma vida inteira de esforço; ainda não estavam nem na meia idade e já ricos, ou quase, ou ficando. E uma vez por ano, tradição, arrumavam armas&bagagens e voavam para o Araguaia. Descanso merecido, única pausa do trabalho que se permitiam, o defeito é que as esposas ficavam furibundas por conta disso - o único período do ano em que eles não estavam se matando de trabalhar e não passavam com elas.
Mas naquele ano, 2003 ou 2004, se não me engano, elas deram o grito: ou iam junto, ou nada de Araguaia! E ponto final! E os maridos tiveram que concordar, não deixava de ser justo. E foram todos, enfim. Pescaria ótima, sol o tempo todo, todos muito alegres, as mulheres cozinhavam, todos farreando, melhor período juntos em anos. E ao fim da segunda semana, levantaram acampamento, e, outra tradição, dirigiram até o bar da região, amigos do dono, mostrar os peixes, levar as cachaças encomendadas, contar caso, adoravam. No bar, chegou o dono, numa alegria só:
- Meus compadres! Parece que já se passaram dez anos e foi um só, que saudade! Cachaça de Salinas? Tem que ser uma terra especial de boa pra fazer uma cachaça dessas! Mais um ano! Ôoô, pescaria boa, cada peixão! Dêem cá um abraço, já mandei preparar uma farofa, um tiragosto... pescaria boa mesmo, olha aquele dourado...

E arrematou, apontando para as esposas:

- Só as raparigas esse ano é que pioraram demais! Vixe, que trubufús!

Os papéis dos divórcios saíram rápido. Uma das mulheres concordou em voltar para o marido tempos depois, mas nenhum dos dois come peixe mais. Aliás, não comem nem falam em peixe na casa deles.

18 de set de 2008

O prazer do que é difícil - Machado de Assis

Divulguei no Youtube há alguns meses trechos do documentário Procurando Ricardo III, do Al Pacino, onde ele ao mesmo tempo mostra como interpretar Shakespeare e como entender Shakespeare, procurando mostrar as dificuldades do texto para leitores atuais, amenizá-las e explicá-las de modo que o texto possa chegar com toda a sua força para o leitor/espectador moderno. São os meus vídeos mais comentados, principalmente por professores - infelizmente, todos americanos, britânicos, etc. Não há um único post em português, e nós temos alguns dos melhores tradutores de Shakespeare do mundo, como o Millôr, que não só entendem o texto como conseguem transcriá-lo de forma inteligível - mas não fácil, e aí tem que pensar, acabou. Essa nossa preguiça de pensar, a ignorância olímpica de contextos históricos, de um mínimo cultural basilar, me dá vontade de pegar um chicote e expulsar os vendilhões da "academia". Hellman's tem poder: não era do Jaquespére que eu ia falar, mas do Machado: não adianta, não consigo deixar de achá-lo superestimado. E chato. Mas acho que tomei um pouco de antipatia por conta do auê em torno dele, como se fosse o "nosso" representante nas altas esferas das letras. Acho que os únicos a atingirem alguma estatura frente ao resto do mundo foram o Guimarães Rosa e o João Cabral de Melo Neto, os demais ainda estavam na infância da arte. Machado é no máximo um Rubinho Barrichelo mais chinfrim. Aí um professor me vem com a "revolução formal" do Machado, a apropriação de um discurso irônico que desnuda as relações sociais da época, etc.: acho bom, realmente. Mas acho bom do mesmo modo que acho o Klint legal mas não acho que vale o cadarço do Dali... Enchi, né? É que já estou me defendo das críticas. Mas que é chato, é - e aqui todo mundo ainda gosta porque teve de ler depois de ler José Alencar, esse povim, e o Machado é bom, escreve bem, etc. Comparado a esses tipos que a gente tinha que ler, dá de 10. Mas não vale o cadarço do Tolstói. Um curta/documentário ótimo, com o Mindlin lendo e o Schwarz comentando, lança luz na importância do texto dele enquanto revolução formal:

Parte 1/3


Parte 2/3


Parte 3/3