31 de mar de 2009

Mente Zen II

O segundo trecho do Garcia Morente:
"A concepção do homem como uma essência quieta, imóvel, eterna, e que se trata de descobrir e de conhecer, foi que nos perdeu na filosofia contemporânea; tem que ser substituída por outra concepção da vida na qual o estático, o quieto, o imóvel, o eterno da definíção parmenídica não nos impeça de penetrar por baixo e chegar a uma região vital, a uma região vivente, onde o ser não possua essas propriedades parmenídicas, mas antes seja precisamente o contrário: um ser ocasional, um ser circunstancial, um ser que não se deixe espetar numa cartolina como a borboleta pelo naturalista. Parmênides tomou o ser, espetou-o na cartolina há vinte e cínco séculos e lá continua ainda, preso na cartolina, e agora os filósofos atuais não vêem o modo de tirar-lhe o alfinete e deixá-lo voar livremente."
Adorei essa parte do Parmênides espetando uma visão do ser que perdurou por 25 séculos, e perdura na filosofia ocidental. O zen enquanto filosofia encara o ser dinâmico, ocasional, episódico; nada é, nada permanece. O Morente continua:
"Porém ainda há mais. A importância que Parmênides tem para a filosofia atual, nossa, consiste em que o obstáculo fundamental que se opõe em nossos dias a que o pensamento filosófico penetre em regiões mais profundas que as regiões do ser, consiste precisamente em que, desde Parmênides, e por culpa de Parmênides, temos do ser uma concepção estática em lugar de ter uma concepção dinâmica; temos do ser uma concepcão estática, inerte. Essas coisas que enumerei como as qualidades do ser: único, eterno, imutável, ilimitado e imóvel, que Parmênides faz derivar do princípio de identidade, nós aplicamos todos os dias; mas, em lugar de aplicá-las ao ser, as aplicamos à substância e à essência. Fragmentamos o ser de Parmênides em multidão de seres que chamamos as coisas; mas cada uma dessas coisas, as ciências fisico-matemáticas consideram-nas como uma essência, a qual, individualmente considerada, tem os mesmos caracteres que tem o ser de Parmênides; é Unica, eterna, imutável, ilimitada, imóvel. E precisamente porque demos a cada coisa os atributos ou predicados que Parmênides dava à totalidade do ser, por isso temos do ser uma concepção eleática e parmenídica, ou seja, uma concepção estática.
A ciência física da natureza, a própria ciência da física, começa a sentir-se apertada dentro dos moldes da concepcão parmenídica da realidade. A ciência fisica da natureza, a teoria intra-atômica, a teoria des estruturas atômicas, a teoría dos quanta de energia, que seria demorado desenvolver aqui, é já uma teoria que se choca um pouco com a concepção estática do ser à maneira de Parmênides; e a ciência contemporânea teve que apelar a conceitos tão extravagantes e esquisitos como o conceito de verdade estatística, que se o tivessem relatado a Newton o teria feito estremecer; apelar a conceitos de verdade estatística, que é o mais contrário que se pode imaginar à concepção estática do ser, para poder manter-se dentro dos moldes do ser estático, parmenídico.
Não somente a fisica; antes, o que não entra de maneira alguma dentro de tal conceito de ser, é também a ciência da vida e a ciência do homem.Porém ainda há mais. A importância que Parmênides tem para a filosofia atual, nossa, consiste em que o obstáculo fundamental que se opõe em nossos dias a que o pensamento filosófico penetre em regiões mais profundas que as regiões do ser, consiste precisamente em que, desde Parmênides, e por culpa de Parmênides, temos do ser uma concepção estática em lugar de ter uma concepção dinâmica; temos do ser uma concepcão estática, inerte. Essas coisas que enumerei como as qualidades do ser: único, eterno, imutável, ilimitado e imóvel, que Parmênides faz derivar do princípio de identidade, nós aplicamos todos os dias; mas, em lugar de aplicá-las ao ser, as aplicamos à substância e à essência. Fragmentamos o ser de Parmênides em multidão de seres que chamamos as coisas; mas cada uma dessas coisas, as ciências fisico-matemáticas consideram-nas como uma essência, a qual, individualmente considerada, tem os mesmos caracteres que tem o ser de Parmênides; é Unica, eterna, imutável, ilimitada, imóvel. E precisamente porque demos a cada coisa os atributos ou predicados que Parmênides dava à totalidade do ser, por isso temos do ser uma concepção eleática e parmenídica, ou seja, uma concepção estática."

29 de mar de 2009

Garcia Morente, Mente Zen

Um paralelo interessante - li há algum tempo o livro Zen Mind - Begginers Mind, ouvi, na verdade, na voz do Peter Coyote. Mente Zen, Mente de Principiante. E estou estudando alguma coisa dos filósofos espanhóis, principalmente para situar a figura de Unamuno, sobre quem estou escrevendo um artigo para publicação. Aí deparei-me, no Garcia Morente, com dois capítulos, dos quais transcrevo trechos abaixo, onde ele faz o mesmo paralelo, no primeiro, e no segundo explica um pouco, ou deixa aberta a porta, para a nossa procura através do zen para a "problematização" do ser. Cito:
"É absolutamente indispensável que o aspirante a filósofo sinta a necessidade de levar a seu estudo uma disposição infantil. Quem quiser ser filósofo necessitará puerilizar-se, infantilizar-se, transformar-se em menino.
Em que sentido faço esta paradoxal afirmação de que convém que o filósofo se puerilize? Faço-a no sentido de que a disposição de ânimo para filosofar deve consistir essencialmente em perceber e sentir por toda a parte, tanto no mundo da realidade sensivel, como no mundo dos objetos ideais, problemas, mistérios; admirar-se de tudo, sentir o profundamente arcano e misterioso de tudo isso; colocar-se ante o universo e o próprio ser humano com um sentimento de estupefação, de admiração, de curiosidade insaciável, como a criança que não entende nada e para quem tudo é problema.
Esta é a disposição primária que deve levar ao estudo da filosofia o principiante. Diz Platão que a primeira virtude do filósofo é admirar-se: Thaumátzein — diz em grego — donde vem a palavra "taumaturgo". Admirar-se, sentir essa divina inquietação que faz com que, lá onde os outros passam tranqüilos, sem vislumbrar sequer que existem problemas, aquele que tem uma disposição filosófica esteja sempre inquieto, percebendo na mais pequenina coisa problemas arcanos, mistérios, incógnitas que os demais não vêem.
Aquele para quem tudo resulta muito natural, para quem tudo resulta muito fácil de entender, para quem tudo resulta muito óbvio, nunca poderá ser filósofo.
O filósofo necessita, pois, uma primeira dose de infantilidade; uma capacidade de admiração, que o homem já feito, que o homem já enrijecido, encanecido, não costuma possuir. Por isso Platão preferia tratar com jovens e tratar com velhos. Sócrates, o mestre de Platão, andava entre a mocidade de Atenas, entre as crianças e as mulheres. Realmente, para Sócrates os grandes atores do drama filosófico são os jovens e as mulheres.
Essa admiração, pois, é uma disposição fundamental para a filosofia. E resumindo esta exposição, poderemos defini-la, agora já de um modo conceitual, como a capacidade de tudo problematizar, de converter tudo em problemas."

26 de mar de 2009

Broadway Bexiga - o Teatro Brasileiro

Especial "Bexiga Broadway", fantástico. Os teatros do Bexiga, peças, atores, Cacilda Becker, Zé Celso, Ruth Escobar, Chico Buarque... Era de Aquarius, Hair. Muuuuito bom. O nascimento do teatro brasileiro moderno, em uma de suas muitas florações - talvez a mais influente e permanente delas.
Em 1948, finalmente o Bixiga encontrou, a sua vocação. Ela o tornaria o mais paulistano e o mais boêmio de todos os bairros da capital. Nesse ano, Franco Zampari alugou um prédio na Rua Maior Diogo e nele instalou o TBC - Teatro Brasileiro de Comédia -, que seria a grande semente da agitada vida cultural e noturna do Bixiga, que perdura e cresce a cada dia. Foi o primeiro passo para transformar o bairro na "Broadway-Bixiga". Novas casas de espetáculos foram sendo montadas, como o Teatro Imprensa, o Sérgio Cardoso, o Ruth Escobar e outros. Isso sem contar o Teatro Bandeirantes na Brigadeiro Luís Antônio, onde a inesquecível Elis Regina ficou mais de um ano em. cartaz com o show "Falso Brilhante" (um marco na história dos musicais brasileiros).

Estive lá em 2005, acabei não vendo nada (ao contrário, fui ver o Phantom of the Opera do Lloyd Webber - no fim, já na fila, vendi os ingressos ganhos e caí na esbórnia, esperando encontrar o Meia-Oito, a Rê Bordosa ou o próprio Angeli na noite paulistana). Abaixo, o velho Adoniran (bom é baixar a música):

Samba do Bixiga - Adoniran Barbosa

Domingo nóis fumo num samba no Bixiga 
Na Rua Major, na casa do Nicola 
à mezza notte o'clock, saiu urna baita duma briga
Era só pizza que avoava, junto com as brajola
Nóis era estranho no lugar 
E não quisemo se meter 
Não fumo lá pra brigar 
Nóis fumo lá pra comer
Na hora H se enfiemo debaixo da mesa 
Fiquemo ali de beleza, vendo o Nicola brigar 
Dali a pouco escuitemo a patrulha chegar
E o sargento Oliveira falar: 
"Num tem importância, vou chamar ditas ambulância!"
Calma pessoar! A situação aqui tá muito cínica!
Os mais pior vai pras clínicas.

25 de mar de 2009

Pensamentos Ranzinzas

Voltando da UFMG, lembrei-me do Mencken: Um metafísico é alguém que, quando você lhe diz que dois vezes dois são quatro, ele quer saber o que você entende por vezes, o que significa dois, o que quer dizer são e por que isto dá quatro. Por fazerem tais perguntas, os metafísicos desfrutam um luxo oriental nas universidades e são respeitados como homens educados e inteligentes... bom, um sujeito quer ensinar a usar uma calculadora para, depois de dezenas de entradas, encontrar um resultado que o Excel dá imediatamente. E faz isso com um certo "aplomb", uma pompa de um ridículo fenomenal. Em suma, as idiotices do dia-a-dia ganham uma certa respeitabilidade quando ditas por alguém que teoricamente entende do que está falando. Não importa que o que está falando não tem absolutamente nenhuma importância. E um semestre disso! Nos últimos tempos, foi a única prova em contrário à teoria darwiniana que eu realmente levaria a sério.

19 de mar de 2009

Teotônio Vilela e Blog

Esse é um post autobiográfico - autoblogográfico, digamos. O nome do blog, Cadernos de Guerra, vem de serem assim chamados os cadernos de rascunho onde o mestre João Rosa anotava suas coisas e observações. E João, o Rosa, é um mestre querido: quando aprendi que o nobel da língua ia pra quem conseguia colocar a máxima carga significante no mínimo possível de dizeres, o edifício completo, Rosa mostrava que a língua pode não ser usada puramente de maneira eficiente, mas de maneira bela, inventiva, brincalhona, mesmo ornamental. Outro João, outro mestre, o Cabral de Melo Neto, usa a língua com pedras e como pedras, impede a leitura fluvial, impõe dificuldades, e a torna belíssima. Mas não era sobre isso que eu queria falar: à direita do blog, desde o início, tem uma figurinha com uma bengala pra cima, abaixo dos dizeres "Tótônio". É um outro mestre: Teotônio Vilela, andarilho e guerreiro da liberdade, figura ímpar na política, delicioso. Andou com Henfil quando, já com câncer terminal, insistiu em sair pelo Brasil pregando decência, democracia, direitos... era do partido da situação porque era um conservador e um liberal (na plena acepção do termo), mas passou para o MDB - não tinha compromisso com o erro. Dizia que a ditadura o suportava porque era um louco manso, um quixote que não representava perigo. Mas representou esperança: numa entrevista com o Henfil, este querendo fechar com chave de ouro a reportagem, dispara: "Teotônio, então diretas quando?" e ele, na bucha: "Diretas Já!". Estava criado o bordão que mobilizou milhões. Abaixo um vídeo onde ele, cansado, morrendo, fala de modo carinhoso do país, seu país, e fala de pátria e outras palavras que hoje são só nostálgicas. Assistam, assistam, assistam! É lindo, é comovente e faz a gente ter vontade de ir em Brasília com um chicote e expulsar os vendilhões do templo, os sanguessugas que há tempos imemoriais sugam e destroem essa pátria amada, gentil - que somos nós, não eles. A pátria, o Brasil profundo: esses somos nós. Eles são espectros-vampiros-pesadelos-esqueletos-no-armário purgatório-de-males castigo-dos-justos. Logo depois, um logo que criei, usando o desenho do Henfil, como idéia para fazer uma camiseta. E assistam o vídeo e divulguem: precisamos dizer que há esperança em políticos, apesar de tudo. E leiam! Leiam sobre o Totônio, meu Totônio, o Totônio do Henfil - colocando um link com uma reportagem com o Henfil falando dele também. Ah, era um boêmio, de elite (filho de senhor de engenhos, quebrado, mas mesmo assim...), etc. Mas na hora do pega pra capar pulou a cerca e foi pro lado do povo. E morreu digno, e grande, e belo.





Texto do Henfil: Câncer feito boato

Texto do Henfil: Teotônio não morreu

17 de mar de 2009

.:: O TEMPO ::.

Reportagem do jornal O Tempo, publicada em 17/03, sobre o encontro Alimentando a Alma, na casa da Alice, com Mariângela e Martha. Cheguei já na hora do almoço e só ajudei mesmo a comer.


Fotos Ana Elizabeth Diniz
Aula de sábado. As monjas Mariângela Ryosen (esq) e Martha Waryú compartilham os pratos da culinária zen budista (as mãos são minhas!)

Estilo de vida
Um jeito zen de comer

Para os praticantes budistas, cozinhar e comer são atos de consciência e um treinamento espiritual
Ana Elizabeth Diniz
Especial para O TEMPO


Por volta das 9h da manhã do último sábado, um pequeno grupo se reuniu para partilhar a sabedoria e os ensinamentos budistas sobre a arte de se alimentar e cozinhar.
Antes, uma pausa para o zazen, pequena meditação em que se senta em posição de lótus, com os olhos ligeiramente abertos, olhar dirigido para baixo e sem focalizar nada em particular.
A postura ereta e a respiração tranquila acalmam a mente. O ideal é deixar os pensamentos surgirem naturalmente, sem brigar com eles ou afugentá-los. No zazen, o essencial é despertar das distrações ou entorpecimentos.
Mente serena, a monja Mariângela Ryosen, ordenada pelo mestre Tokuda Igarashi e que durante dez anos dirigiu o Mosteiro Zen Pico de Raios, em Ouro Preto, convidou os alunos do curso Alimentando a Alma, à prática do zen na cozinha.
Foram preparados cinco pratos dentro do mais puro ritual budista que tem a intenção de "despertar a conexão íntima entre a refeição e a própria vida em sua totalidade. A refeição preparada com todo coração, espírito aberto e a mente clara, nutre algo muito além do nosso corpo e influencia no aspecto espiritual da vida", ensina a monja.
Os ensinamentos budistas evocam uma atitude pura em relação à vida e revelam, segundo Mariângela, que cozinhar pode ser uma tarefa nobre. "O cuidado no preparo dos alimentos deve ser o mesmo que uma mãe tem com seu filho. Os objetos são manuseados com delicadeza, não se ouve o barulho do bater nas panelas. O barulho agita nossa atmosfera psíquica e, ao mesmo tempo, é o resultado da dissonância que produzimos interiormente com nossos tormentos e revoltas mentais."
Na cozinha zen não há espaço para preocupações, nem aborrecimentos. "Os pensamentos dispersos e as emoções turbulentas estão fora de cogitação, pois o espírito esclarecido e tranquilo e a autenticidade do coração conduzem a um maravilhoso poder de transformação em uma nutrição abençoada", ensina Mariângela.
O trabalho do monge tenzô, o responsável pela cozinha, é considerado dos mais importantes do templo budista. Ele dedica toda a sua atenção à preparação das refeições cotidianas, cuidando tanto da qualidade como da quantidade.
Tesouro. Ele prepara as refeições todos os dias do ano, seguindo sempre o mesmo ritmo. Trata a comida como um tesouro e verifica pessoalmente a higienização e o armazenamento dos alimentos, evitando a poeira e o contato com os insetos. Evita o desperdício, não compra em excesso e nem deixa estragar os alimentos.
A monja lembra que a cozinha e a comida são manifestações do coração. "Cozinhar é o caminho para aperfeiçoar o caráter. A prática de cozinhar e comer corretamente propicia, além da nutrição do corpo, o desenvolvimento da consciência e do espírito, pois exige um jeito de olhar a vida e de viver a espiritualidade no cotidiano. Cuidando primeiro da ecologia interna, pode-se compreender e colocar em ação os movimentos do coração em benefício do equilíbrio ecológico do mundo."
Os pratos preparados foram: bifun (macarrão de arroz), acelga com castanhas, shiitake, hiyayako (tofu temperado) e uma sobremesa de mamão, figo e chantilly caseiro.
Antes do almoço, os budistas têm o costume de recitar em voz alta um sutra (oração) e agradecem pelo alimento. "Quando comemos e bebemos, rezamos junto com todos os seres e agradecemos a vida que nos dá vida", recitou a monja antes de tirar uma soneca altamente zen.

Agenda
O que: Curso de culinária zen
Quando: 18 de abril
Horário: das 9 às 14h
Local: Avenida João Pinheiro, 85, apto 1.504, Centro
Informações: 9745-4450


Curiosidade
A comida vegetariana zen budista chamada shôjin ryôri é alimento para o corpo e para o espírito. A palavra shôjin é uma tradição do sânscrito que significa esforço, energia, diligência, perseverança e dedicação.


16 de mar de 2009

Análise

Fim de semana maravilhoso - sensações deliciosas, identificações, gostosuras. Bandeira faz num poema uns pulos de alegria dizendo "Eu vi os céus! Eu vi os céus!". Adoro essa sensação de pertencimento, de descoberta de novos continentes poéticos. Como no Pessoa:

Tão abstrata é a idéia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a idéia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo

13 de mar de 2009

Indesejada das gentes

Acordei agora há pouco, são 4:01 da manhã... ouvindo mais um pouco das palestras do Tainha, divagando sobre perdas & vida & como viver - as perguntinhas básicas do significado da vida. Nostalgia. Minhas referências são não tanto o zen mas a cultura ocidental de que sou cultor: Augusto, imperador romano, nos momentos finais, diz (em inglês soa melhor): Did I play well my part in this comedy called life? Eu fiz bem o meu papel nessa comédia chamada vida? Se é assim, sob aplausos, deixai-me retirar-me do palco. Tinha sido senhor do mundo durante meio século, reconstruíra Roma, fundara um império que duraria séculos e cujas instituições até hoje permeiam nossa sociedade. Outro imperador romano, Adriano, nos momentos finais, depois de um longo reinado de realizações, construções, viagens (e guerras), sofrendo de uma doença super dolorosa, faz uma poesia que acho belíssima:

Animula vagula blandula
Hospes comesque corporis
Queæ nunc abibis loca
Pallidula rigida nudula
Nec ut soles dabis iocos

Alma minha, bela, esvoaçante,
Hóspede e companheira do meu corpo
Por que já não te vais embora,
já que pálida, rígida, nua,
Não tens a beleza de outrora?

Não são sentimentos ruins, não, nostálgicos, só. Vidas completas, de tantas realizações - que guardavam potencial para tantas mais... assim, o sentimento varia entre a saudade e vontade de permanência, com esse "sob aplausos deixai-me retirar-me do palco". No zen, há que se viver sob o "nobre caminho dos oito aspectos" - Ponto de Vista Correto, Pensamento Correto, Fala Correta, Ação Correta, Meio de Vida Correto, Esforço Correto, Atenção Correta, Concentração Correta - que pretendemos percorrer, para terminar como nessas ruminações do Manoel Bandeira, outro a falar sobre travessias:

Consoada

Quando a indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

10 de mar de 2009

Tainha


Paulo Melo, Tainha, monge zen, mestre, atravessou a cortina hoje. Não cheguei a ter tempo de ter intimidade com ele; conhecia-o há séculos, pelo Aníbal. Fui à casa dele, mandei emails, peguei livros emprestados, conversamos... numa "lista preliminar" sobre "zen básico" me mandou uns cem livros, determinada vez. Queria ter vivido mais ao seu lado - estou transpondo fitas cassetes com palestras dadas por ele ao longo dos anos, para mp3, e durante esses dias todos depois do carnaval tenho escutado o Paulo - tomei um susto quando o Aníbal me ligou hoje cedo dizendo "seu mestre morreu". Não chegou a ser "mestre" mesmo por falta de tempo, mas sentia uma enorme afinidade com os pensamentos e linhas seguidas por esse amigo. Abaixo, um poema de que me lembrei imediatamente quando, agora à tarde, cheguei em casa e liguei o gravador para terminar de ouvir uma das palestras:

Anunciaram que você morreu.
Meus olhos, meus ouvidos testemunharam:
A alma profunda, não.
Por isso não sinto agora a sua falta.

Sei bem que ela virá
(Pela força persuasiva do tempo).
Virá súbito um dia,
Inadvertida para os demais.
Por exemplo assim:
À mesa conversarão de uma coisa e outra.
Uma palavra lançada à toa
Baterá na franja dos lutos de sangue.
Alguém perguntará em que estou pensando,
Sorrirei sem dizer que em você
Profundamente.

Mas agora não sinto a sua falta.
(É sempre assim quando o ausente
Partiu sem se despedir:
Você não se despediu.)

Você não morreu: ausentou-se.
Direi: Faz tempo que ele não escreve.
Irei a São Paulo: você não virá ao meu hotel.
Imaginarei: Está na chacrinha de São Roque.

Saberei que não, você ausentou-se. Para outra vida?
A vida é uma só. A sua continua
Na vida que você viveu.
Por isso não sinto agora a sua falta.

Manuel Bandeira
(A Mario de Andrade ausente)

7 de mar de 2009

IR

Pessoa física é como a gente passa a se chamar depois que a Receita nos descobre...



Abaixo, o documentário Mapas Urbanos - São Paulo. Fantástico, descreve a cidade e suas transformações através de personagens como Tom Zé, Paulo Vanzolini, Nelson Ascher... músicas, personagens e lugares que marcaram o nascimento da identidade dessa metrópole onde "tudo que é sólido desmancha no ar", com a mudança constante como marca fundamental. Work in progress.


Instruções: na barra inferior, tem um ícone de uma fita cassete, que, se clicada, passa a mostrar ícones dos vídeos da lista, e pode-se escolher entre eles. Com o ícone "<" à esquerda da tela você consegue "andar" entre os vídeos.

3 de mar de 2009

Do Samba à Bossa

Um documentário fantástico da BBC, que postei no Youtube há alguns meses. São três partes - Do Samba à Bossa, Revolução Tropicalista, Um Conto de Quatro Cidades. Traça um panorama interessante da música brasileira usando a música como metáfora para a identidade do brasileiro: o fusionismo musical refletindo e reverberando a mistura de raças e culturas. Essa é a primeira parte (os últimos dois vídeos - são seis nessa parte - ainda não tive tempo de legendar, mas dá pra acompanhar), experimentando a Lista do Youtube - um vídeo se segue ao outro automaticamente, não havia utilizado ainda esse recurso. Dá pouco mais de 50 minutos, em trechos de mais ou menos 9 ou 10 minutos cada. Vale a pena! (se na sua página as legendas não estiverem aparecendo clique no centro do vídeo, isso o levará para o Youtube onde as legendas aparecem)

Instruções: com o ícone "<" à esquerda da tela você consegue "andar" entre os vídeos; na barra inferior, tem uma fita cassete, que, se clicada, passa a mostrar ícones dos vídeos da lista, e pode-se escolher entre eles. Algumas vezes as legendas não aparecem (defeito do Youtube), então tem que clicar no vídeo, o que levará para a página do Youtube, onde o último ícone da barra inferior, quando clicado, mostra a opção "CC" - é só ativar. Isso ainda demora um tempo até ficar navegável "de vera".

2 de mar de 2009

Lula


Voltando a um assunto chato: essa tirinha define bem o que o Lula está fazendo - grandes mestres da escultura na areia. Ao contrário de Jango, ao invés de acirrar as divergências de classe, Lula não se esqueceu de corromper também a maioria. Tornou escândalos, mensalões, cuecões, loteamento de cargos, divisões de estatais em condomínios de partidos, uma coisa tão normal que praticamente não é nem noticiada mais. E se é noticiada não é mais notada. E se for notada, por uma minoria que já não apita mais nada - não deixa de ser democrático, afinal, a vontade da maioria não deixa de estar prevalecendo. Ou prevaricando. Mas a partir de agora, um programa de renda mínima, louvável, passa a ser um programa de esmola mínima que fará parte da agenda de todo e qualquer candidato, do esquerdista xenófobo e rupestre do PSTU ao Demo de tridente da direita; e o próximo passo, a integração desse contingente à produção, bem... enquanto isso, com crise e tudo, aposto uma nica (antiga moeda corrente em Salinas que, níquel, valia quase nada) que Lula vai fazer mágicas bestas até o fim do mandato para manter a economia a níveis popularescos de modo artificial, e que a bomba estoure no colo do próximo presidente. Depois, volta o salvador da pátria num cavalo branco. Realmente, um relincho vale por mil silogismos.