14 de dez de 2008

Salinas

... dito isto, é inútil determinar se Zenóbia deva ser classificada entre as cidades felizes ou infelizes. Não faz sentido dividir as cidades nessas duas categorias, mas em outras duas: aquelas que continuam ao longo dos anos e das mutações a dar forma aos desejos e aquelas em que os desejos conseguem cancelar a cidade ou são por elas cancelados.

Ítalo Calvino in As Cidades Invisíveis
Não cheguei ao ponto de fazer como o poeta e dar "adeus, para nunca mais!". Antigamente, brincava de fazer com as cidades como Murilo Mendes fazia com os rios; no caso dele, quando avistava um rio fazia um gesto largo e dizia: "Rio Tal, o Paraíbuna saluda-te" e no meu, quando chegava às cidades: "Salinas saluda-te", num cumprimento. Recife, Salinas saluda-te! Paris, Salinas saluda-te! Bixim, Salinas saluda-te... tantas e tantas... Ainda hoje, em livros de visitas de museus, hotéis, etc., escrevo: Origem - Salinas. "Mas você viajou isso tudo?!" "Não, vim de BH mesmo, mas aí tá pedindo a origem, a origem é lá..."
A origem continua aqui - mas as ruas, pessoas, cores, dias, luares e músicas que compõem minha cidade cada vez mais atravessam a cortina entre realidade e memória, e existem cada vez mais só pra mim. E eu me torno cada vez mais um Ulisses sem outra Ítaca além da interior.

4 comentários:

Gentil disse...

Pois é, Max, parece coisa de gente que está envelhecendo, essa coisa de começar a ter saudade da terrinha. Há dez anos eu não entendia porque meu irmão mais velho largou a capital e fez como meu pai, comprou uma fazenda no interior. Hoje, a idéia já me é super simppática, e penso no mínimo em ter um sítio perto de Porto Alegre. Mas enquanto isso, estou plantando um sítio virtual, o Sítio de Poesia (http://poesia.mrkind.pro.br/), minha nova morada, onde relembro de minha vida na roça e de meus pais. Eu vou mudar aquela foto marítima que está lá e colocar imagens de floresta, pois sou de interior mesmo!
Abraço,
Gentil

Luiz c026320 disse...

Me conta um caso de Natal? Mas eu gosto é de história de amor que acaba bem. Sou que nem a Nhinhinha (A Menina de Lá).

Anônimo disse...

Açucena-reggae com gaita de blues
(ou um parque de diversões na cabeça
de Maxwell Sarmento de Carvalho)

1

Descrever o pêndulo: Leonor de Távora. Aspas! E o sócio?
And when I ask you to be mine,
you´re gonna say you love me too?
O enforcamento de Cãidão Ema era fato. Disso ninguém tinha dúvida.
Fora o bang bang na praça principal de Escada de Pedras.
Pensei primeiro em Breno Saint-Gobain, depois Saint-Dennys até chegar em Saint-Just. Ficou bom. Bom não, ótimo! O archanjo da morte. Na ilustração do fascículo da Abril parecia um adolescente.
Caralho, Taj Mahal! Vacas, mantras, cadáveres em banquetes de crocodilos.,39 49 55, o que é isso? E ainda porriba tenho que enquadrar veadagem de piraunense?
Mascates, ciganos, tuaregues (melhor maquiar pangarés e repassá-los como purossangues!) Buena-dicha!
Sobre a cabeça do sujeito num vidro mar arriba, mar afora!
Luzibé batizava os bichos com nomes de estrelas! Estátua eqüestre!
Malheiros escala a seleção de Pirauna.
Colocar Belau dos Dois Capões na epígrafe do cordel trocando bois por xacriabás, depois baobás e continuar com querubins.
Albatrozes de dia e estrelas de noite.
Relógios musicais com pífias pilhas tocando Jambalaya, às 23:30 horas, no casarão da fazenda enquanto eu buscava o sentido para latossolos, para as latrinas subterrâneas da Serra do Espinhaço, as narinas de Deus durante uma audiência com Juan de Torquemada.
(Explicarei melhor na oficina de literatura!)


2


Sempre desejei a morte de Ferrabrás: afogá-lo num tanque de ácido sulfúrico, triturar-lhe o crânio com um martelo ou botar um bacorote vivo em seu estômago e fechar. Optei pelo batuque do preto velho no velório de Catulinim das Virgens. Gostei da voz gutural que vinha de seu diafragma: “Quem acode meus mortos no meio do oceano?”

3

Há que se cuidar do plural das coisas! Concordâncias, confinâncias, cortinados, violoncelos, penicos de esmalte, índigo blues; falar de amor nem que seja pelo bafo das estrelas e dos crisântemos.
(De novo a febre que matou Cleuzinha Miranda,
de novo o silêncio que enlouqueceu Jero de Dona Luzia,
de novo a sombra onde crescem champignons,
de novo a neblina que encobre os gestos mais sublimes!)
Há que se substituir Drasan Aruam por Ametista López, procurar um sucesso de Glen Miller
além de Moonlight serenade,
verificar os sinônimos para evitar pleonasmos,
beber três doses cavalares de Justerini & Brooks!

4

A culpa desse desacerto histórico devo debitá-lo na conta das Irmãs Clarissas Franciscanas: nunca desejei o papel de Ulisses, primeiro pela robusta incapacidade de nadar ( na época apareci com bolhas no esôfago, excesso de cloro, afogamentos, cãibras no ciático, Penélope merecia mais!) Depois que não acertaria aqueles aros nem treinando de hoje até a vigésima encarnação. Escrevi um ensaio desses em 1984, acharam que implantava o movimento beat no Vale do Jequitinhonha: operários na contra mão,
poetas atropelados pelos cavalos da polícia,
sem contar a ressaca de vinho tinto nacional.

5

A Irmã Cecília Alchaar cismou que eu era um chibcha de quase dois metros: respondi que foi um milagre chegar vivo até aqui, dna, genoma, o rabo do espermatozóide, as correntes do golfo, a sopa de jilós e ananases (com que purguei pecados cardecistas!) Quando tive que excluir o breviário do romance pois não me lembrei como se assovia Astúrias Leyenda de Alberniz. Ou como são os albatrozes quando não estão voando, os amantes quando estão dormindo, as pêras nas gôndolas dos sacolões às três da madrugada, que só vejo coisas vivas, até os mortos, no script dos repórteres são ágeis: disse para a Irmã Alchaar, árabe do Mucuri, que vim para um acerto de contas, feito um jagunço Falkner, um cangaceiro de Peckinpah, que a felicidade é pouco mais que um poema de Ferlinghetti, um banho de rio no verão, dispensados repelentes, tarrafas, emulsão de Scott. Dizia isso em 1973 mastigando mamuchas de laranjas e umbus cajás e lia gibis de far west a quem devo o discernimento entre um cacto e um trenó.
Os mortos são ágeis enjaulados nas grades do tórax!

Anônimo disse...

É Max...
Eu tbém, sempre q perguntam a minha origem, eu encho a boca e digo com o maior orgulho: Salinas!
Lá estão as nossas mais doces, ternas e valiosas lembranças...Daquelas q não perderemos nunca! Apesar de hoje sempre ter a sensação de "invadiram a minha praia" (pois não conheço mais todo mundo como naquele época) sempre que chego lá sinto uma paz, uma tranquilidade em meu coração que não encontro em nenhum outro lugar!É o meu porto seguro!Mas, enfim, saudades... Saudades da minha querida Salinas..