21 de nov de 2008

Palavras

      Mallarmé, o grande poeta simbolista francês, foi também um dos primeiros modernistas verdadeiros - compreendia a poesia como linguagem elevada à sua máxima carga significativa. E isso não envolvia sentimentos, ou Idéias Elevadas, como aquelas virtudes alemãs com letras maiúsculas. Degas, pintor, disse certa vez a ele: "Mallarmé, tenho dezenas de idéias para poesias simplesmente maravilhosas!" Ao que ele retrucou: "Mas Degas, não são com idéias que se fazem poesias, mas com palavras." Essa máxima carga significante eu ainda estou engatinhando atrás dela, não como poeta, mas como criador de aforismos. Como poeta não andei muito: quase tudo que eu fazia precisava de tanta explicação que eu desisti por hermético demais. E comecei com Mallarmé justamente por que ia colocar um desses cometimentos aqui: o poema que fez Mallarmé mundialmente reconhecido como o primeiro dos modernistas foi um poema onde ele utiliza o espaço, tipografia, tamanho e cores para dar novas dimensões de significado ao poema, e chama-se Un coup de dés, Um lance de dados, e o mote central é:
            un coup de dés
            jamais n'abolira
            le hasard
- um lance de dados/jamais abolirá o acaso. Um dos grandes mestres japoneses do Hokku, mais conhecido como Hai Kai, um tipo de poema curto, é o Bashô, criador de um poema famoso, furuike ya/ kawazu tobikomu/ mizu no oto. Literalmente: O velho tanque - Uma rã salta. Barulho de água. Que pode ficar mais ou menos assim:
      um sapo
            um velho poço
      tchibum
      (eu, acho)
ou
      silencioso lago
            o sapo salta
            tchá
      (Carlos Verçosa, tradutor de Octavio Paz: Oku: viajando com Bashô,1996)
As traduções variam muuuuito, pois pra passar ideogramas para escrita linear ocidental é fogo. Aí Leminiski brincou de juntar os dois mestres:
            Um salto do sapo
      Jamais abolirá
            O velho poço.
A discussão toda é sobre a importância da linguagem, desses mestres inventores e suas peças de toque, esses poemas. Num dia de frustração amorosa, aproveitando o fato de que o orgasmo em japonês é chamado poeticamente de "momento das nuvens e chuva" fiz esse abaixo:
                  nuvens e chuva:
            mas o orgasmo
                  jamais abolirá
            o desejo

Um comentário:

Tati disse...

Lindo!! E vc, que negócio é esse de acidente? Boa recuperação, bjo grande