6 de dez de 2008

Casos Salinenses - O Engenheiro e o Poeta

        Título mais parecido com João Cabral de Melo Neto... na verdade, os dois eram poetas. Só que o Engenheiro, além de poeta, ocupava também um cargo alto numa estatal, tinha progredido bastante na carreira, era uma autoridade em sua área. Mas, em determinado momento, deu vontade da terrinha, vontade de trabalhar por lá, de fazer algo pela terra natal.
        Aceitou um cargo menor para poder voltar - só não contava com a política da terra. Chegava nas localidades onde havia projetos da estatal e dizia: "Esta obra aqui foi feita com o dinheiro do povo, não é mais do que obrigação do governo, é direito garantido na constituição! Vocês não devem NADA a qualquer político daqui, os políticos é que têm décadas de atraso pra pagar pra vocês!". E assim, claro, angariou inimigos à esquerda, direita, centro, acima e abaixo: afinal de contas, quem estava e quem não estava no poder dependia dessas obras & feitos pra manter os currais eleitorais, e foi um deus-nos-acuda. O final foi previsível: botaram o homem pra correr. Tinha sido chefão administrativo mas não tinha força política - acabou exilado em outras paragens.
        Fizemos uma festa de despedida e desagravo, participaram todos os amigos, a turma de movimentos culturais, direção da estatal, colegas, enfim, foi uma demonstração e tanto de apreço tanto pelo Engenheiro quanto pelo que tentou fazer.
        Bão, o que não vai mencionado na história bonita aí de cima é que o dito Engenheiro era também um daqueles sacanas: irônico, irreverente e brincalhão - espírito de menino, talvez o que o tenha feito ter brincado de Dom Quixote.
        Estávamos eu, o Poeta, e mais outras pessoas da cidade em uma das mesas, enquanto o Engenheiro estava numa mesa com autoridades, um deputado, um diretor da estatal, enfim, gente graúda. Acho que vislumbrou uma oportunidade e veio, saltitante, até nossa mesa: começou a cochichar algo no ouvido do Poeta, que ia ficando visivelmente vermelho de raiva - e antes que este esboçasse uma reação, vapt!, correu e sentou-se na "mesa dos graúdos", onde o Poeta não poderia retaliar. Ficou lá, com aquele risinho sacana de gente que acabou de aprontar e gostou disso.
        O Poeta na mesa, remoendo a impotência, alvo de nossa gozação pelo acontecido, até que, de repente, veio um brilho nos olhos! Levantou-se, despediu-se da gente e foi diretamente à mesa do Engenheiro, despediu-se e disse, com a maior calma, mas alto o bastante pra gente ouvir:
        - Meu caro, o negócio está de pé, só estou esperando uma posição sua!
        Acho que a turma da mesa dele é que não entendeu porque caímos na gargalhada: o duplo sentido da sacanagem ficava evidente só pra quem sabia que não havia "negócio" nenhum entre eles... e agora era o Engenheiro que não podia retrucar nada pra não entregar a conotação pornô para os companheiros de mesa. Adorei a retaliação.

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