13 de out de 2009

Vik Muniz


No filme que acompanha a mostra, Vik diz que o primeiro artista da humanidade foi o homem das cavernas que, tendo saído um dia para caçar, confunde um cupim ou formigueiro com um bisão; percebendo o erro, volta para a caverna e avisa aos demais que tem um bisão lá pelo lado tal, se esconde atrás de uma moita e fica rindo enquanto vê os demais atirarem suas lanças no cupim. Assim como o artista ancestral, parece que suas obras buscam essa multiplicidade do ver - aliás, a multiplicidade da interpretação ao ver, enquanto o próprio artista se diverte em iludir o olhar para conseguir esse efeito. Fotos famosas, referências, personagens, situações, são mimetizados em outros tantos materiais como chocolate, diamantes, linhas, arames, sucatas. Meninos caribenhos vítimas da monocultura do açucar são representados usando açúcar sobre papel preto - "doce" demais, principalmente porque o apresentador da mostra resolve "explicar" o fato, mas eficiente. Uma vaca com uma vaca pintada no corpo: a brincadeira do homem das cavernas está presente em toda a obra, mas de uma maneira que o espectador está sempre convidado a descobrir o truque, o efeito, a perceber como está vendo a obra - paisagens modificadas por retroescavadeiras misturadas com intervenções em terra de 30 centímetros, produzindo traços semelhantes: a brincadeira com escala, quase um "mundo-modo-de-usar". Finalmente, um artista conceitual com conceitos inteligíveis. Vale a pena ver, está no Museu Inimá de Paula, na Rua da Bahia (esquina com Álvares Cabral).

PS: Um cuidado especial com o apresentador da mostra: igorem o sujeito. Depois de ler duas frases suas me lembrei do Umberto Eco em "Como ser um apresentador de catálogos de arte", no Segundo Diário Mínimo. Eco constata que os requisitos necessários para tal "arte" são: ter uma profissão intelectual (biólogos e físicos nucleares são solicitadíssimos) e possuir um telefone em nome próprio. Não se explica o que se deve descobrir, não se dá uma visão simplista de uma obra que tira grande parte de sua força pela surpresa e novidade, nem se adoça o olhar crítico do autor com platitudes doces. Pelo menos, não se devia.

Um comentário:

Inês disse...

Max

Realmente
vc escreve muito bem. Fiquei com muita vontade de ver a mostra de Vik Muniz. Bacana