2 de out de 2009

Faroeste e Cavalaria

Ah, Zé Bebelo era o do duro – sete punhais de sete aços, trouxados numa bainha só! Atirava e tanto com qualquer quilate de arma, sempre certeira a pontaria, laçava e campeava feito um todo vaqueiro, amansava animal de maior brabeza – burro grande ou cavalo; duelava de faca, nos espíritos solertes de onça acuada, sem parar de pôr; e medo, ou cada parente de medo, ele cuspia em riba e desconhecia.

.....Zé Bebelo é uma das grandes criações de Guimarães Rosa - em Grande Sertão: Veredas, junto com Joca Ramiro, parece ter vida própria, assombrando o livro com suas estripulias, suas valentias e fanfarronices. Não aceitando nunca errar, uma vez se perde e reclama: “Ei, que as serras estas às vezes até mudam muito de lugar!..." Tenta conquistar o sertão, botar ordem no caos de jagunços e coronéis, perde, é julgado e poupado por Joca Ramiro, numa cena antológica. Aliás, Grande Sertão está cheio dessas cenas de uma tensão e beleza que maravilham qualquer um, cenas de cinema, e ainda com uma carga emocional e uma densidade dignas da melhor literatura mundial, sem falar na construção lingüistica de Rosa. Como nos romances de cavalaria medieval, os jagunços se comportam por um código particular de conduta, onde a bravura e a honra são as estrelas-guias dos homens.
.....Zé Bebelo é derrotado por Joca Ramiro; exilado em Goíás "até a minha morte" - de Joca Ramiro - quando este é assassinado a traição, volta pra vingar o benfeitor. E volta em grande estilo, numa cena de arrepiar - a coragem e valentia de um homem que acredita que sua vontade é superior ao mundo e que a honra é o tempero e o norte do universo:
(...)
Mas, depois de janta, quando estávamos outra vez reunidos – Marcelino Pampa, eu e João Concliz, – não se teve nem o tempo de principiar. Pelo que ouvimos: um galope, o chegar, o riscar, o desapeio, o xaxaxo de alpercatas. Sendo assim o Feliciano e o Quipes, que traziam um vaqueirinho, escoltado. Que vieram quase correndo. O vaqueirinho não devia de ter mais de uns quinze anos, e as feições dele mudavam-de mestre pavor. – “Arte, que este tal passou, às fugas, meio arupa. Pegamos. Aí ele tem grande coisa pra contar...” – e empurraram um pouco o vaqueirinho. De medo – a gente olhava para ele – e de nossos olhos ele se desencostava. Afe, por fim, bebeu gole de ar, e soluceou:
– “É um homem... Só sei... É um homem...”
– “Te acerta, mocinho. Aqui você está livre e salvo. Aonde é que está indo?” – Marcelino Pampa regrou.
– “É briga enorme... É um homem... Vou indo pra longe, para a casa de meu pai... Ah, é um homem... Ele desceu o Rio Paracatu, numa balsa de buriti...”
– “Que foi mais que o homem fez?” – então João Concliz perguntou.
– “Deu fogo... O homem, com mais cinco homens... Avançaram do mato, deram fogo contra os outros. Os outros eram montão, mais duns trinta. Mas fugiram. Largaram três mortos, uns feridos. Escaramuçados. Ei! E estavam a cavalo... O homem e os cinco dele estão a pé. Homem terrível... Falou que vai reformar isto tudo! Vieram pedir sal e farinha, no rancho. Emprestei. Tinham matado um veadinho campeiro, me deram naca de carne...”
– “Qual é que é o nome dele? Fala! Como é que os outros dizem? Aí e que jeito, que semelhança de figura é que ele tem?”
– “Ele? O jeito que é o dele, que ele tem? Em é mais baixo do que alto, não é velho, não é moço... Homem branco... Veio de Goiás... O que os outros falam e tratam: `Deputado’. Desceu o Rio Paracatu numa balsa de buriti... – ‘Estávamos em jejum de briga...’ – ele mesmo disse. Ele e seus cinco deram fogo feito feras. Gritavam de onça e de uivado... Disse: vai remexer o mundo! Desceu o Rio Paracatu numa balsa de buriti... Desceram... Nem cavalo eles não têm...”
(...)
Riu redobrado. De repente, desriu. Refez pé para trás.
– “Vim de vez!” – ele disse; disse desafiando, quase.
(...)
Zé Bebelo rodeou todos, num mando de mão, e declarou forte o seguinte:
– “Vim por ordem e por desordem. Este cá é meus exércitos!...”
Prazer que foi, ouvir o estabelecido. A gente quisesse brigar, aquele homem era em frente, crescia sozinho nas armas.
Vez de Marcelino Pampa dizer:
– “Pois assim, amigo, por que é que não combinamos nosso destino? Juntos estamos, juntos vamos.”
– “Amizade e combinação, aceito, mano velho. Já, ajuntar, não. Só obro o que muito mando; nasci assim. Só sei ser chefe.”
Sobre curto, Marcelino Pampa cobrou de si suas contas. Repuxou testa, demorou dentro dum momento. Circulou os olhos em nós todos, seus companheiros, seus brabos. Nada não se disse. Mas ele entendeu o que cada vontade pedia. Depressa deu, o consumado:
– “E chefe será. Baixamos nossas armas, esperamos vossas ordens...”

E daí se seguem mais algumas aventuras de Zé Bebelo, o rompe-racha, cabra da peste, homem entre os homens, herdeiro de Medeiro Vaz, o rei dos Gerais, e Joca Ramiro - e, por que não?, Rolando, Parsifal e outros valentes das gestas.

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