20 de out de 2009

Sagarana - Conversa de Bois

"Quase como um homem, meio maluco"



Que já houve um tempo em que eles conversavam, entre si e com os homens, é certo e indiscutível, pois que bem comprovado nos livros das fadas carochas. Mas, hojeem-dia, agora, agorinha mesmo, aqui, aí, ali e em toda a parte, poderão os bichos falar e serem entendidos, por você, por mim, por todo o mundo, por qualquer um filho de Deus?!
- Falam, sim senhor, falam!... - afirma o Manuel Timborna, das Porteirinhas, - filho do Timborna velho, pegador de passarinhos, e pai dessa infinidade de Timborninhas barrigudos, que arrastam calças compridas e simulam todos o mesmo tamanho, a mesma idade e o mesmo bom-parecer; - Manuel Timborna, que, em vez de caçar serviço para fazer, vive falando invenções só lá dele mesmo, coisas que as outras pessoas não sabem e nem querem escutar.
- Pode que seja, Timborna. Isso não é de hoje: ... "Visa sub obscurum noctis pecudesque locutae. Infandum!..." Mas, e os bois? Os bois também?...
- Ora, ora!... Esses é que são os mais!... Boi fala o tempo todo. Eu até posso contar um caso acontecido que se deu...

Assim começa um dos contos geniais de Sagarana - Conversa de Bois. E a epopéia do boi Rodapião, uma espécie de Lúcifer-boi, ou Prometeu lá da raça bovina. Rosa, como sempre, tece e entretece tramas e palavras, chegando numa fábula quase mito, enredada na trama do menino que se faz boi, levando a vida ruminada, sofrida e limitada de um boi de carro:

(...)
... "Comigo, na mesma canga, prenderam o boi Rodapião... Chegou e quis espiar tudo, farejar e conhecer... Era tão esperto e tão estúrdio, que ninguém não podia com ele... Acho que tinha vivido muito tempo perto dos homens, longe de nós, outros bois... E ele não era capaz de fechar os olhos p'ra caminhar... Olhava e olhava, sem sossego. Um dia só, e foi a conta de se ver que ninguém achava jeito nele. Só falava artes compridas, idéia de homem, coisas que boi nunca conversou. Disse, logo: - Vocês não sabem o que é importante... Se vocês puserem atenção no que eu faço e no que eu falo, vocês vão aprendendo o que é que é importante... - Mas, por essas palavras mesmas, nós já começamos a ver que ele tinha ficado quase como um homem, meio maluco, pois não..."

3 comentários:

Pat Lima disse...

Mais homi do que bicho...e meio maluco...acho que isso sempre aconteceu....
Max...muito bom...Otimo.Brigadim.

Anônimo disse...

Boa noite! Desculpe-me pela invasão...
Eu gostaria de lhe pedir um favor!! Estou no 3o ano da faculdade de Ciências Sociais e irei apresentar um trabalho sobre Sérgio Buarque de Holanda, mais especificamente sobre Raízes do Brasil, na aula de Sociologia Brasileira. Achei muito interessante o video que você tem postado no Youtube sobre ele. Você teria como me mandar por e-mail, para eu poder incluir em minha apresentação? Se não for pedir muito, é claro. Não sou cadastrada no youtube, por isso vim até aqui escrever p/ vc. Obrigada por enquanto! Sds, Karolina Mattos - karol_roeder@terra.com.br

Anônimo disse...

"O Povo Brasileiro" também é ótimo!!! Já assisti na faculdade... Excelente!