27 de out de 2009

Alban

N'Goran Alban Kikiish era de Camarões. Tinha feito Sorbonne e agora era meu colega na Ciência da Computação - falava inglês, francês e oito línguas africanas, mas português que é bom foi aprender só depois que chegou. Ficou folclórico na turma pelo sotaque esquisito e as tiradas mais que malucas, no que parecia uma reedição belorizontina do "Príncipe em Nova York". Na primeira festa em meu apartamento, na hora de ir embora ele saiu se despedindo de todos com uma palavra que soava como "tmahrumá", fazendo uma reverência. Engraçadíssimo, pois todo mundo respondia fazendo uma reverência idêntica e respondendo "tmahrumá" - "tmahrumá", "tmahrumá", etc. Dia seguinte, fui tentar aprender a cumprimentar em camaronês e ele me olha espantadíssimo: tinha aprendido a palavra aqui, todo mundo falava isso quando se despedia dele. E a reverência era porque estava bêbado, mesmo. Com algum custo, descobrimos que ele queria dizer "tomar uma", e realmente, é aquela coisa de mineiro engolir os pedaços das frases: vamos tomar uma depois, ou combinar de tomar uma cerveja depois, vira "tomar uma", com o resto implícito...
De outra feita, ele me perguntou intrigadíssimo "o que ser essa palavra você falar quando ver eu", e eu não conseguia imaginar qual fosse. Olá? Não. Bom dia, boa tarde, como vai? Não... Tudo bem, oi... nada. Fiquei um tempão tentando imaginar qual era a tal palavra e ele me afirmando que eu dizia isso com freqüência, e que ele não achava em dicionário de jeito nenhum. Até que chegamos num bar e ele pulou da cadeira quando eu cumprimentei o garçom: Bão, fi! - Essa, é essa, bãofí! Que ser bãofí? Difícil explicar a corruptela de "filho", mais ainda por que chamar um completo desconhecido - e ele - de "filho". E, além do mais, por que bãããão, com um tanto de a? Foram litros e horas antes dele esquecer o assunto.
Ele ficou completamente apaixonado com pequi - adorava, eu trazia de Salinas e ele ficava deliciado, comia dúzias como se a sesta dependesse disso. Quando o levei a Salinas, ficava ansioso pra saber se teríamos ou não pequi para almoço – e uma vez, numa fazenda, disfarçadamente seqüestrou um saquinho de pequis e foi comer escondido, todos devidamente ainda crus – voltou com o rabo entre as pernas e aquela cara de criança-malina-que-pegaram-no-pulo. De outra vez, assim que chegamos na fazenda de um primo, foi logo intimar o dono da casa, com aquele sotaque fortíssimo: E os pequi?, ao que meu primo respondeu impávido: Nou, ai dônti!, sacando seu inglês salinense para responder ao que ele interpretou como (do) you speak english?

Um comentário:

Monica disse...

HA! Consigo ouvir a sua risada única!