16 de jun de 2010

O Riso

......Aristóteles fazia uma diferenciação entre tragédia e comédia (peças) que, grosso modo, pode ser resumida em dizer que a tragédia escolhe o que representar, o drama, os atos extremos, os acontecimentos e desastres que levam a um final dramático e trágico, e a comédia mostra tudo, tudo - o que, levando o argumento um pouco mais adiante, poderia incluir o silogismo de que toda tragédia tem seus elementos de comédia. Bergson, ao analisar o riso, mostra-o como um componente quase de controle social: ri-se do que está fora do normal, comportamentos inadequados, fora de lugar, de hora, etc. (estou simplificando para meus próprios objetivos escusos). De certa forma, o riso vem sempre de uma percepção de deslocamento entre o que se vê ou se percebe e o que é esperado e normal, seja em atos ou palavras. Um desconcerto, um desacerto, um jogo de palavras... Freud dá vários exemplos que adoro, em seu "O chiste e sua relação com o inconsciente": tal defeito é um dos quatro calcanhares de Aquiles daquela pessoa... como quem tem quatro calcanhares não é uma pessoa, é um animal, o chiste é perfeito. Outro, de mais difícil entendimento atualmente, foi o de uma figura da época (do Freud) afirmar que um tal político fez um grande ato e depois, como Cincinatus, voltou para o seu lugar à frente do arado. Cincinatus, mítico avatar das virtudes romanas, era um cidadão romano que, chamado pela República, a defendeu, comandou exércitos, reformou leis, derrotou inimigos e depois, quietamente, voltou às suas terras, como antes, sem qualquer proveito pessoal que não honrar a pátria. Mas a figura romana voltou para trás do arado, quem fica na frente do arado é o animal!
......Uma minha teoria, que levarei adiante em um conto, é que o Universo é um ser consciente, cujo corpo é composto por toda a matéria existente. Esse ser, gestado numa explosão primordial, é ao mesmo tempo completo e angustiado: não sabe o propósito da própria existência. Assim, subdivide-se em seres conscientes, especulares, miríades de seres senscientes que andam, falam, nascem e morrem, numa tentativa talvez inútil de entender-se a si próprio. Um desses seres - eu - estive em Bonito, no Mato Grosso do Sul, no meio de paisagens exuberantes, cascatas e cachoeiras, pássaros de cores fantásticas, águas de uma transparência incrível, num dos lugares mais belos em que já estive. Mas, como sabia o velho grego, se se incluir toda a história... a temperatura era de uns 10 a 15 graus, bastante frio, e todos os passeios envolviam água. Num dos dias, passeio de bote: com direito a "guerra de balde". Divertidíssimo, principalmente dar baldadas a essa temperatura. Me entusiasmei e dei uma, duas, três baldadas em cheio no "bote inimigo" - na quarta baldada o universo conspirou e fui junto com o maldito do balde, num spláaaaf dentro dágua, e passei o resto do tempo tendo que usar uma pinça para ir ao banheiro. No último dia, flutuação em um dos rios mais transparentes que já vi, com máscara, snorkel, etc. E roupa de neoprene... apertadíssima, justíssima, vesti um pedaço e fomos andando até o rio. No caminho, ao colocar a roupa completa, fiquei um cruzamento de pingüim com castrato italiano: o passo bamboleante e a voz fina - mas tudo pela beleza do lugar. Uns 400 metros depois, consegui ainda articular numa voz fininha pra um dos amigos que foi junto: "Léo, Léo, será que depois dessa a gente ainda consegue reproduzir?!"

Um comentário:

Pat Lima disse...

Imagino a cena...