5 de jul de 2010

Multiculturalismos

Eu sou definitivamente e completamente contra os multiculturalistas, e só por fazer afirmações desse tipo já fui execrado algumas vezes. Parece que os multiculturalistas da literatura são diferentes dos multiculturalistas da antropologia ou ciências sociais. Reduzindo o assunto, os multiculturalistas a que me refiro são os intelectuais que do meio para o fim do século XX começaram a relativizar os juizos de valor sobre as "obras canônicas" da literatura ocidental. Errado? Não necessariamente. O Leopold Senghor, por exemplo, fala muito sobre como os africanos de seu país, o Senegal, costumam "dançar" uma idéia ou um pensamento para melhor se apropriar dele - a importância do movimento, da arte e da dança no entendimento do mundo, uma coisa integrada e plástica, o tornar-se um com a natureza e/ou com o pensamento. Imaginem agora um livro ou romance proveniente dessa cultura: uma cena de dança, nesse livro, seria lido por "nós ocidentais" como uma passagem a mais, e pode ter importância fundamental para o autor. São milhares de exemplos assim, claro - mesmo a escrita feminina e masculina apresentam diferenças fundamentais, embora mais próximas se são da mesma cultura. É bastante claro para mim que as importâncias e valores são e devem mesmo ser relativos.

Mas não devem ser relativizados: o multiculturalismo na literatura faz dessa bandeira uma ideologia, e simplesmente se recusa a avaliar ou fazer qualquer juízo a respeito de qualquer tipo de literatura, e com isso não concordo mesmo. O ponto de vista de quem lê é o que conta - obviamente, para quem lê - e me recuso a deixar de dizer que acho esta ou aquela literatura ou este ou aquele livro bom ou ruim porque foi feito por um africano ou asiático ou uma mulher ou um polinésio albino anão. Em uma dessas discussões, um amigo pontificava sobre a injustiça de que entre os 10 melhores escritores de todos os tempos não tinha nenhuma mulher e nenhum negro. Mas o argumento não era valor literário, era quase valor estatístico - e essa é minha birra. A escolha de um cânone é pessoal e é cultural - o cânone visto como paideuma poundiano, a parte mais viva de uma cultura. É óbvio que o juízo de valor é isso: um juízo de valor, parcial e incompleto. Mas melhor do que qualquer coleção estatística de ações afirmativas em cima da arte. Daqui uns dias, a se seguir essas idéias, o Nobel de literatura vai ser um concurso de minorias não premiadas ou etnias exóticas.
O perigo (que acho até que devia ser o que os puros queriam evitar) é deixar o preconceito de uma cultura impedir o reconhecimento do valor em outra - e isso aconteceu e acontece o tempo todo. Desde os franceses, que, ao chegarem na América e verem um nativo fumando tabaco pela primeira vez, jogaram um balde d'água no coitado pra apagar o fogo, até os romanos descrevendo um alce como sendo uma mistura entre veado e cavalo com chifres, ou sei lá qual reação dos neandertais às ferramentas dos homo sapiens. Um caso exemplar é a imagem abaixo, uma cabeça de Ife, antiga cidade da África, na atual Nigéria. Quando descoberta, causou enorme espanto entre os arqueólogos pela delicadeza de suas linhas e perfeição dos traços. Um arqueólogo alemão do início do século XX chegou a conjecturar se não seria oriunda da mítica Antlântida, ou de algum antepassado perdido dos gregos - recusava-se a acreditar que os ancestrais dos africanos fossem capazes de fazer tal obra de arte. Outro chegou a afirmar que a partir daquele momento a "arte dos negros" devia ser olhada com outros olhos - mas usou o depreciativo "nigro", em algo como "a arte dos negões". O Joseph Brodsky tem uma frase ótima que diz que o habitante das cidades teme o nômade não porque estes podem destruir suas aldeias, roubar suas casas ou matar suas mulheres, mas porque ele destrói sua idéia de horizonte. Esse destruir horizontes estabelecidos é função de toda arte, acho. O encontro de culturas executa esse papel salutar, de destruir e ampliar horizontes, confrontar idéias, mostrar novas formas e novos rumos. O que não pode servir de desculpa para a estatística se estabelecer como método de avaliação crítica.

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