17 de jun de 2010

Bloomsday

Ontem, 16 de junho, fez 106 anos que Leopold Bloom saiu para viver o dia retratado em Ulysses, de James Joyce. Pessoalmente, vejo o Ulysses como a coroação do processo de fragmentação paleomodernista, na linha de Pound e Eliot, por sua vez uma resultante dos embates entre "simbolistas" e "realistas", de Mallarmé a Yeats, na busca de um significado para a literatura, que compõe a Biblioteca, que alguns chamam de Universo... O "discurso modernista" é duo, os neomodernistas tentando "construir do zero" e os paleomodernistas a partir da tradição. O que dá um contraste fantástico e uma nomenclatura esquizofrênica: aqui, a antropofagia seria uma mistura dos dois, mas eu a colocaria na lista dos paleomodernismos, que não é absolutamente tradicional: só constrói a partir dali, como o diálogo erudito, framentário e labiríntico que Joyce faz com a cultura ocidental em Ulysses - não por acaso nomeado a partir da Odisséia. Essas duas linhas se diferenciariam ainda mais na multitude de discursos pós-modernos, mas o grande avatar projetado das entranhas grávidas do paleomodernismo é Jorge Luis Borges - e, por aqui, arriscaria dizer que o Leminski do Catatau e dos haicais se enquadraria nessa linha, com ainda mais força que o Haroldo do Galáxias. Como nos livros do conto borgiano "A Biblioteca de Babel", a literatura vai se compondo de variantes possíveis e completando o projeto de emular o Universo, composto inteiramente de livros que contam todas as histórias da História, reais ou imaginadas ou não, e ainda muito mais. Assim também com os homens: em "Os Tradutores das Mil e Uma Noites", Borges diz de Richard Burton que ele era um "capitão inglês que tinha a paixão da geografia e das inumeráveis maneiras que os homens conhecem de ser homem". Essa multiplicidade de escritas e discursos me encanta exatamente por isso: mostra as inumeráveis, infinitas e belas maneiras que os humanos conhecem de serem humanos e contarem as histórias e fábulas e sonhos da humanidade, e a reinventarem continuamente.
Já quanto aos "gêneros" e "escolas" literárias, nenhum grande escritor se enquadra nelas, apesar de alguns serem quase arquétipos das suas pretensões. Lembram-me a história da Sibila - nesse mito grego, o deus Apolo concede um desejo a Sibila, e ela pede a imortalidade. Esquece-se da propensão ao sadismo (ou da propensão a divertir-se às custas dos humanos) que Apolo repetidamente mostra: ele concede a ela a imortalidade, mas não a juventude eterna. Sibila vive, mas envelhece: mil anos depois, dela só resta a voz. Como os gregos, chineses, provençais e tantos outros, a literatura envelhece, mesmo que imortal - desses grandes do passado restam somente essa voz, mas que às vezes ainda soa retumbante.

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