28 de jun de 2010

O atual Rei da França - Eliot e Espelhos

"Devo à conjunção de um espelho e de uma enciclopédia o descobrimento de Uqbar" - frase inicial do conto de Borges. Há um ano atrás estava fazendo uma ligação entre Unamuno, filósofo, poeta e louco espanhol, com sua "religião" do Nosso Senhor Dom Quixote, e a Paidéia grega - continuo achando fantástica a maneira como Unamuno nega a derrota para uma vida sem sentido: como ele adota o heroísmo aparentemente sem sentido do Dom e o transforma em um "sentido trágico da vida", que lhe dá ao mesmo tempo a alegria de viver e a justificativa estética da existência - a única que conta, segundo Nietzsche. Mas as conjunções entre leituras&viagens&pensamentos me levaram a outros caminhos, não opostos mas diversos. E recomecei a ler Borges, de quem tinha certa birra. Não vou contar aqui como se deu o "enamoramento", mas foi o mesmo sentido inicial que me levou a Unamuno - e uma frase dele, Borges, "as inumeráveis maneiras que os homens conhecem de ser homem", que é a minha busca, meu encantamento com um mundo onde as várias experiências humanas vão tecendo histórias quase fantásticas, os pequenos macacos pelados aos poucos se transformando em demiurgos - e tiranos, e loucos, e assassinos, também.
Em minha procura por entender como funciona essa literatura borgiana, que escapa da realidade e a recria a partir da palavra, encontrei por acaso a tese do T. S. Eliot. Eliot, graduado em filosofia, estudou com parte considerável dos grandes filósofos da sua época, como Santayana, Bertrand Russel e Josiah Royce, além de frequentar Bergson. Eliot abandona a filosofia por considerar, entre outras coisas, que os filósofos não prestam atenção às palavras - e a palavra é o início da realidade para ele. De fato, segundo sua tese, nenhuma teoria pode ser provada falsa, uma vez que se adotem as premissas de quem a propõe. Eliot chega a um relativismo absoluto, onde nenhuma explicação da realidade é falsa, nenhuma teoria é inverdade, pois há sempre maneiras de adotar as premissas propostas (isso, claro e para variar, é uma simplificação).
Na época de Eliot havia um "problema" interessante que ilustra o ponto de vista dele: a frase "o atual Rei da França é careca" fazia parte de uma disputa filosófica de então, e praticamente todo mundo tomava um partido a seu respeito. O problema, que Russel, entre outros, tentava resolver, envolvia uma disputa em torno de proposições lógicas e a proposta, por Russel, de uma teoria da descrição. Discussões arcanas sobre problemas mais: não há rei da França atualmente, então, como ele pode ser careca? Mas a negação da frase, "o atual rei da França não é careca", não pode também ser verdadeira. E a frase não é sem sentido - há um sentido, mas não há correspondente real ao sentido. Eliot, desgostoso com o que ele considerava discussões vazias, não entra no problema em si, mas diz que "the current King of France already is": o atual rei da França já existe, isto é, adquiriu existência própria a partir da palavra.
Esse é o mote e o alicerce de Borges: a linguagem, isto é, as palavras, são não só a interface entre natureza e pensamento, imanentemente descritivas - são criadoras de realidades, não menos verdadeiras que as realidades simplesmente descritas. Uma vez que possa ser imaginada, qualquer realidade é possível. Toda a labiríntica obra do argentino se volta para a criação e multiplicação dessas realidades, esgarçando o tecido da "realidade conhecida" ao multiplicá-lo ad infinitum. Até que, em Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, esse tecido começa a ceder...

Sobre o "problema" do careca francês, ver Wikipédia aqui.
Uma breve biografia do Eliot aqui.

Um comentário:

Angela-Lago disse...

Vi o link no Facebook. Valeu! Gostei muito! Parabéns!
Angela-Lago