31 de jul de 2010

A meia lua

Auguste de Saint-Hilaire e alguns outros eminentes botânicos, naturalistas e viajantes fazem menção a um episódio* ocorrido com meus ancestrais que justificou a fama de selvagens dos habitantes do norte de Minas, como lugar sem respeito às leis e aos costumes. Saint-Hilaire já havia advertido outros viajantes contra os habitantes de Arraial das Formigas, atual Montes Claros, dados a roubos e outras vilanias. Antes de escrever seu Voyage dans les provinces de Rio de Janeiro et de Minas Geraes, parece ter começado a escrever uma Voyage dans arrière-pays des Taphuyas, mas foi desencorajado por esse episódio. Martius cita de passagem o acontecimento, dando um certo quê poético aos cavaleiros reunidos à luz da lua (é certo entretanto que o episódio ocorreu durante o dia). Debret aproveitou essa descrição e imortalizou o episódio, pintando cavaleiros de um clã reunidos em uma meia lua, fazendo justiça com as próprias mãos, como pode ser visto no Rijksmuseum em Amsterdã. De todo modo, esse episódio e outros dele decorrentes espalharam uma imerecida fama da minha terra como sertão brutal e sanguinário e abriu caminho para o isolamento da região pelo século seguinte (o episódio ocorreu nos idos de 1817), tendo sido meu tataravô Ramiro um dos primeiros da minha família a se aventurar fora dali – quis, num gesto romântico de liberal republicano, cumprimentar pessoalmente o Marechal Deodoro na capital da república.

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Fim da Primeira Parte

* N. do E: Entre 1802 e 1817 (as datas não batem, alguns documentos citam 1802 enquanto outros citam leis promulgadas somente após a chegada da família real em 1806), houve um assassinato no norte de minas envolvendo membros da família do autor – primos – supostamente por ofensas pessoais. Levado a julgamento, o assassino não foi condenado, mesmo tendo confessado o crime, aliás testemunhado por uma dezena de pessoas. Numa demonstração de união familiar – e desrespeito completo às leis – todos os homens da família, todos os parentes dos primos, incluindo o pai da vítima, se postaram diante do fórum onde o julgamento acontecia – uma centena de homens armados até os dentes, alguns famosos por sua violência, outros com seus capangas e jagunços, todos em silêncio completo. Amarraram um cavalo arreado nas escadarias do fórum – não poderia haver recado mais claro. Nem o juiz nem os oficiais da lei tiveram a coragem ou a audácia de se opor aos senhores da terra e à verdadeira e brutal lei do sertão. O assassino saiu livre, inocentado de todas as acusações. Montou o cavalo arreado e foi mandado em exílio pela família para as terras de Goyaz, única punição recebida. O juiz ousou algum tempo depois admoestar um dos chefes do clã e foi morto a tiros na calada da noite. Os oficiais da lei não voltaram àquela terra por várias décadas, deixando-a entregue aos seus costumes bárbaros.

Um comentário:

Flávia disse...

Nossa, que história! Essa você não me contou, ou seria isso um conto mesmo? rs
Interessante, e agora tem habitante dessa terra sem lei (ou com leis próprias) voltando por vontade própria (hummm) aos campos de Goyaz hehe... O mundo dá voltas!

Bjs,
Flávia