27 de abr de 2010

Ezra Pound

Pound foi provavelmente a influência única mais duradoura em meus estudos de literatura. Tanto como guia como adversário: a primeira vez que li a sua concepção de "paideuma" achei de uma arrogância sem limites. O paideuma seria, nas suas palavras, "a ordenação do conhecimento de modo que o próximo homem (ou geração) possa achar, o mais rapidamente possível, a parte viva dele e gastar um mínimo de tempo com itens obsoletos”. E, claro, a "parte viva" era escolhida por ele! Li então de maneira onívora, tudo que achava pela frente. Se tivesse lido só o paideuma poundiano teria sido mais eficiente... o louco estava certo. Suas lições de poética, de literatura, o make it new, a carga de cultura a que a gente aspira para ler os Cantos na sua totalidade... a condensação como virtude necessária, o fazer exato. "O que quero dizer é que um teólogo medieval tinha o cuidado de não definir um cachorro em termos que sei para se aplicar igualmente ao dente do cachorro ou ou ao barulho que ele faz quando bebe água; mas todos os seus professores dirão a vocês que a ciência se desenvolveu mais rapidamente depois que Bacon sugeriu o exame direto dos fenômenos e depois que Galileu e outros cessaram de discutir as coisas em excesso e começaram a olhar realmente para elas e a inventar instrumentos (como o telescópio) para vê-las melhor". O exame direto e comparativo da poesia, da literatura, sem preconceitos. Ressuscitou continentes poéticos como os provençais. Descobriu a poesia chinesa para o ocidente. Vanguarda da vanguarda. "Certa vez", conta Luciano Ancescchi, "apresentaram a Pound um famoso livro de estética filosófica". Ao restituí-lo, o poeta disse no seu italiano peculiar: "Tutto belissimo, ma non fonctiona". Estou traduzindo e legendando um vídeo chamado Ezra Pound - Voices and Visions. A primeira parte abaixo, seguida de alguns trechos do seu ótimo ABC da Literatura:



"Para Pound, o método adequado de estudar literatura é o método dos biologistas: exame cuidadoso e direto da matéria, e contínua COMPARAÇÃO de uma lâmina ou espécime com outra. Este o seu método ideogrâmico (crítica via comparação e tradução). Derivou-o do estudo de Ernest Fenollosa sobre o ideograma chinês (The Chinese Written Character as a Médium for Poetry): "Em contraste com o método da abstração ou de definir as coisas em termos sucessivamente mais e mais genéricos, Fenollosa encarece o método da ciência, "que é o método da poesia", distinto do método da "discussão filosófica", e que é o meio de que se servem os chineses em sua ideografia ou escrita de figuras abreviadas.""
(...)
"Os escritores são por ele classificados nas seguintes categorias: 1 — Inventores. Homens que descobriram um novo processo, ou cuja obra nos dá o primeiro exemplo conhecido de um processo; 2 — Mestres, Homens que combinaram ura certo número de tais processos e que os usaram tão bem ou melhor que os inventores; 3 — Diluidores. Homens que vieram depois das duas primeiras espécies de escritor e não foram capazes de realizar tão bem o trabalho; 4 — Bons escritores sem qualidades salientes (a classe que produz a maior parte do que se escreve). Homens que fazem mais ou menos boa obra em mais ou menos bom estilo do período. Sonetistas do tempo de Dante, etc. "Ils n'existent pas, leur ambiance leur confert une existence."; 5 — Belles Lettres. Os que realmente não inventaram nada, mas se especializaram numa parte particular da arte de escrever 6 — Lançadores de modas. Aqueles cuja onda se mantêm por alguns séculos ou algumas décadas e de repente entra em recesso, deixando as coisas como estavam."
(...)
"Há três modalidades de poesia: 1 — Melopéia. Aquela em que as palavras são impregnadas de uma propriedade musical, (som, ritmo) que orienta o seu significado (Homero, Arnaut Daniel e os provençais). 2 — Fanopéia. Um lance de imagens sobre a imaginação visual (Rihaku, i.é, Li Tai-Po e os chineses atingiram o máximo de fanopéia, devido talvez à natureza do ideograma). 3 — Logopéia. "A dança do intelecto entre as palavras", que trabalha no domínio específico das manifestações verbais e não se pode conter em música ou em plástica (Propércio, Laforgue)."

Talvez sobre Pound pudesse ser dito o que o trovador Giraut de Bornelh disse sobre Raimbaut D'Aurenga: Er'es morta bela foldatz - eis que está morta a bela loucura.

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