12 de abr de 2010

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No post "Memórias, labirintos, mulheres" citei a Viúva de Bath, do Chaucer:


"Mas agora, por Santo Tomás, vou contar-lhes a verdade por que rasguei aquela folha do livro dele e levei a bofetada que me deixou surda. Tinha ele uma obra que noite e dia estava sempre lendo com gozo e satisfação; dizia chamar-se Valério e Teofrasto, e suas páginas lhe provocavam boas gargalhadas. Além disso, havia outrora em Roma um clérigo, um cardeal, de nome São Jerônimo, que escrevera um livro contra Joviniano, que ele também possuía; e mais Tertuliano, Crisipo, Trótula, Heloísa, que era abadessa perto de Paris, os Provérbios de Salomão, a Arte do Amor de Ovídio, e muitos outros... e todas essas obras estavam encadernadas num só volume. E, como eu disse, noite e dia, sempre que dispusesse de um momento de lazer ou folga em suas ocupações, era seu costume tomar desse calhamaço e ficar lendo a respeito de mulheres pérfidas. Sabia mais lendas e casos sobre elas que sobre as mulheres virtuosas da Bíblia. Porque,podem crer, é impossível encontrar um letrado que fale bem das mulheres (a não ser nas biografias das santas; fora isso, nunca). É a velha fábula de Esopo: “Quem pintou o leão? Vamos, digam-me!” Por Deus, se, em vez dos doutos nos claustros, fossem as mulheres que escrevessem as histórias, veríamos mais maldade entre os homens do que todos os representantes do sexo de Adão poderiam redimir. Os filhos de Mercúrio e Vênus sempre operam em sentidos contrários: Mercúrio ama a sabedoria e a ciência, enquanto Vênus prefere as festas e o esbanjamento. Devido a essas posições opostas, cada planeta tem sua queda na exaltação do outro; conseqüentemente, – sabe Deus, – Mercúrio se enfraquece em Peixes, signo em que Vênus se eleva, e Vênus cai onde Mercúrio está exaltado. Eis aí porque nenhuma mulher recebe elogios de um douto. E o douto, por sua vez, quando fica velho e não consegue mais prestar serviço a Vênus, mais inútil que um par de botinas rotas, tudo o que faz é ficar sentado o tempo todo, escrevendo, em sua caduquice, que as mulheres são infiéis no matrimônio."


O leão da fábula pergunta "Quem pintou o leão?", indicando que se a pintura fosse feita por um leão, o desfecho certamente seria outro. Agora me ocorreu que a idéia não é nova - aliás, velhíssima: Xenófenes, em sua Teologia, diz:

"Dizem os Etíopes que os seus deuses são negros e de nariz chato,
fazem-nos os Trácios de olhos azuis e cabelos ruivos;
Mas se mãos tivessem os bois, os cavalos e os leões
E pudessem com as mãos desenhar e criar obras como os homens,
Os cavalos semelhantes aos cavalos, os bois semelhantes aos bois,
Desenhariam as formas dos deuses e os corpos fariam
Tais quais eles próprios têm.”


A idéia de que a "verdade" é relativa e dependente do referencial adotado só viria a adquirir importância determinante séculos mais tarde, mas pode-se ver por Xenófanes, Esopo e Chaucer que a idéia de verdade absoluta nunca contou com adesão unânime.

Aliás, o "salto lógico" de Xenófanes é interessante: começa por observar que as cidades da Grécia têm cada uma o seu próprio Deus, o que indicaria que cada Deus favoreceria a cidade que o reverenciava; como as leis de cada cidade (que para Xenófanes indicavam ou incorporavam o espírito da sociedade) eram diferentes, ele arguía que cada Deus obedecia ou favorecia leis relativas, e que tipo de Deus é um Deus relativo? Daí o salto lógico em direção a um deus único, superior aos demais... que vai se inflar e englobar ou incorporar tantas porções do universo que, quando chega em Spinoza, acaba se confundindo com o próprio universo e perde o livre arbítrio.

* Os Contos da Cantuária, em tradução do Paulo Vizioli, aqui.

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