30 de jul de 2009

Pão e Circo


Quando estudava em Lavras, no sul de Minas, tinha certa paixão pelo marxismo. Li então o Rumo a Estação Finlândia, do Edmund Wilson, livro que mostra a evolução da análise histórica pari passu (ai!) com o desenvolvimento do pensamento socialista até Marx e chegando depois à materialização do comunismo com Lênin. No primeiro turno da primeira eleição pós ditadura votei no Roberto Freire - mas vim a BH nos comícios do Lula, uma das vezes sentei na janela do carro com uma enooorme bandeira do PT e vim da praça da Cemig até o centro gritando palavras de ordem.
Com o tempo, entretanto, algumas posições foram me alienando da dita esquerda - uma teoria do estado forte e produtor que aqui foi um desastre sempre, defesa do ditador de Cuba e outros ditadores comunistas, um antiamericanismo fanático (o "Grande Satã" culpado por TODOS os males da humanidade), uma visão tacanha de administração, um corporativismo onde os fins justificavam os meios (corrupção, por exemplo, pode, desde que o dinheiro vá para o partido), uma visão ditatorial do partido, etc. Mas isso quando ainda não estavam no poder, e eram posições que eu tinha esperanças evoluiriam com o tempo - mais ou menos como aconteceu com o socialismo na Europa.
Agora, uma vez no poder, vem escândalo atrás de escândalo, um superinchaço da máquina pública, o aparelhamento do estado, a corrupção desenfreada, a aliança com figurinhas como Collor, Renan, Sarney... e o Lula manda os senadores do PT calarem a boca e defenderem o Sarney. O PT entra de cabeça na defesa de seus aliados, aprende a se corromper, a traficar influências... o José Dirceu atuando como uma eminência parda atrás das cortinas do empresariado nacional - e agora volta pra coordenar a campanha de Dilma. Volta?! Ele esteve afastado do poder? Porcaria nenhuma! Algum empresário se daria ao trabalho de contratá-lo como lobista se achasse que ele não tinha contatos e poder? E contatos do mais alto grau? Os empresários que o enriqueceram estavam certíssimos, já que agora ele escancaradamente "volta" ao "núcleo duro" do poder.
O governo efetuou enormes avanços no campo social - por mais assistencialistas que sejam as "bolsas", ainda formam um programa de renda mínima. Se faltam outros estágios para que se efetive a mudança dessas pessoas para a classe assalariada ou produtora, isso vai depender muito mais dos avanços da economia do que de programas do governo. Afinal, já provaram que fazer mais do que designar valores para um cartãozinho está completamente fora da capacidade administrativas desse povo que está aí.
Sempre que falo algo do governo recebo um "mas o Fernando Henrique...", "mas apesar disso", uma defesa disfarçada, tortuosa e elíptica do "rouba mas faz". Quando o "rouba mas faz" é de esquerda, pode? Não, não pode. A defesa do FHC vai até a parte econômica, ou partes da parte econômica, e só - foi ou não foi um feito e tanto estabilizar a economia? Acaba aí: nenhum governo, nenhum governante, pode roubar ou permitir que roubem, ninguém pode, como agora, vender falsas esperanças ao mesmo tempo que incha tanto a máquina pública e se endivida de maneira extravagante deixando uma bola de neve para explodir daqui 5, 10 anos. As conquistas sociais devem ser mantidas e expandidas - mas está passando da hora de termos transparência nas contas públicas, decência no comportamento público, partidos que funcionem como celeiros de homens e idéias, um governo que funcione como algo além de massa de manobra de cargos e acomodações políticas e um presidente que respeite a própria biografia. Aliás, biografia mesmo tem o povo brasileiro, que sobrevive há tantos séculos apesar dos governos - essa biografia sim, merece respeito.

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