5 de set de 2009

Os óculos do Dom

Meu sacerdote predileto, Miguel de Unamuno, fundou essa igreja e essa fé de que somos ambos seguidores - a igreja de Dom Quixote, cavaleiro invencível, herói dos hérois, que sofre para que a humanidade possa sonhar... o musical Man of La Mancha coloca Peter O'Toole no papel do Dom. E por mais que seja um musical, de Hollywood, et caterva, acabo chorando no final, tal minha identificação. A música, composta para a peça e cantada no filme, foi traduzida e interpretada por Betânia:

Sonhar mais um sonho impossível
Lutar quando é fácil ceder
Vencer o inimigo invencível
Negar quando a regra é vender

Sofrer a tortura implacável
Romper a incabível prisão
Voar num limite improvável
Tocar o inacessível chão

É minha lei, é minha questão.
Virar esse mundo, cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais

Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã se esse chão que eu beijei
for meu leito e perdão
vou saber que valeu

Delirar e morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão

E completo então com Calvino - acrescentando um mito egípcio que dizia o seguinte: quando morremos, os deuses nos esperam junto ao portão do paraíso com duas perguntas. Uma: você encontrou alegria em sua vida? Outra: sua vida trouxe alegria para a vida de outra pessoa? Se você responder a ambas positivamente, sua alma pesará menos que uma pena, e sua passagem será permitida. Em As Cidades Invisíveis:

O Grande Khan já estava folheando em seu atlas os mapas das ameaçadoras cidades que surgem nos pesadelos e nas maldições: Enoch, Babilônia, Yahoo, Butua, Brave New World.
Disse:
— É tudo inútil, se o último porto só pode ser a cidade infernal, que está lá no fundo e que nos suga num vórtice cada vez mais estreito.
E Polo:
— O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.

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