17 de set de 2009

Italo Calvino: Sobre Plínio, o Velho

No livro Por que ler os clássicos, Italo Calvino dedica um capítulo a Plínio, o Velho (23 a 79 d.c.) – nesse caso, “o Velho” serve para distingui-lo do sobrinho, Plínio – o Jovem, que seguiu os passos do tio e se tornou também uma espécie de cientista. Melhor dizendo, tornaram-se homens de ciência, no sentido de que acreditavam que tudo podia ser explicado, tinha uma causa e uma regularidade derivada das leis de funcionamento da natureza. Plínio, o Velho, era um compilador compulsivo, que deixou em sua Naturalis Historia, em 37 volumes, um retrato do conhecimento dos antigos e das suas crenças, erros, lendas, todos convivendo lado a lado como expressões da verdade da época – diz Calvino: “O uso que sempre se fez de Plínio, penso eu, foi o de consulta, tanto para saber o que os antigos conheciam ou acreditavam conhecer sobre determinado argumento quanto para compilar curiosidades e disparates”. Mas para os estudiosos do conhecimento humano é um marco de outra espécie: depois dessa época e durante dezesseis séculos, o conhecimento científico ocidental praticamente estancou, quase não se produzindo nada digno de nota, a despeito dos grandes progressos técnicos medievais.
.....A leitura de Plínio (e não achei o livro em português - só excertos, citações... tem na internet em inglês, espanhol e latim, os livros completos) não traz nenhum proveito científico, por assim dizer, mas a delícia de ver os limites do conhecimento antigo e a falta de limites da imaginação dos antigos – as coisas que eles viam eram incríveis: se um cometa passasse pela “partes pudendas” de uma constelação, isso era visto como prenúncio de uma época de dissolução dos costumes! Essa e outras superstições são citadas e refutadas por Plínio, que no entanto deixa passar um sem número delas como expressão absoluta (e absurda) da verdade. Os sumários dos capítulos já dão uma boa idéia do “método” dele: "Peixes que têm uma pedrinha na cabeça; Pedras que caem do céu; Coisas que não são atingidas por raios; Peixes que sentem a influência dos astros; Preços extraordinários pagos por certos peixes; Planta que nasce de uma lágrima; Planta cuja semente é pintada para que nasçam flores coloridas; Transmutações de sexo e de gêmeos; Que flores eram conhecidas no tempo da Guerra de Tróia; Da quantidade de ouro possuída pelos antigos; Da ordem eqüestre e do direito de usar anéis de ouro; Inimizade entre elefantes e dragões”...

Calvino prossegue:

.....(...) Plínio se sente autorizado a lançar-se em sua famosa resenha das características "prodigiosas e incríveis" de certos povos do além-mar, que terá tanto sucesso na Idade Média e também mais tarde, e transformará a geografia num circo de fenômenos vivos. (Os ecos serão prolongados também nos relatos das viagens verdadeiras, como as de Marco Polo.) Que os territórios desconhecidos na fronteira da Terra alojem seres na fronteira do humano não deve causar espanto: os arimaspos com um olho só no meio da testa, que disputam as minas de ouro com os grifos; os habitantes das florestas de Abarimon, que correm velozmente com os pés virados ao contrário; os andróginos de Nasamona, que alternam os sexos quando se acasalam; os tibios, que num olho têm duas pupilas e no outro, a figura de um cavalo. Mas o grande Barnum apresenta seus números mais espetaculares na Índia, onde pode ser encontrada uma população de caçadores com cabeça de cachorro; e uma outra de saltadores com uma perna só, que, para descansar na sombra, se deitam erguendo o único pé como um chapéu de praia; e outra ainda de nômades com pernas em forma de serpente; e os astomos sem boca, que vivem cheirando perfumes. 

.....O final desse capítulo, entretanto, resume bem e de uma maneira belíssima a motivação de ler não só este mas praticamente qualquer livro, de línguas vivas ou mortas, pois aqui o que nos é dado a ver é

a natureza como aquilo que é externo ao homem mas que não se distingue daquilo que é mais intrínseco à sua mente, o alfabeto dos sonhos, a chave que decifra a imaginação, sem a qual não se produz razão nem pensamento.


* Download do capítulo do Por que ler os clássicos sobre Plínio aqui

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