3 de mai. de 2010

Geografia Eleitoral

A petista Dilma Rousseff cometeu uma gafe em entrevista gravada que concedeu à sua própria assessoria e que foi ao ar na noite desse domingo. Ao falar do filme "Vidas Secas" (1963), de Nelson Pereira dos Santos, a pré-candidata à Presidência disse que a história retrata "todo o problema da miséria, da pobreza, da saída das pessoas do Nordeste pro Brasil".

Isso remete a um diálogo da Graúna com o Bode Orelana, nos idos da ditadura que a candidata combateu: Graúna vem correndo, alegre, dizendo que a Anistia vai sair e que todos vão poder "voltar pro Brasil". O Bode Orelana pergunta:
- E onde você acha que o Nordeste fica, Graúna?
- O Nordeste fica no Nordeste, ora bolas!
- O Nordeste fica no Brasil, ô ecil!!!!, grita o bode.
Graúna não perde a pose, e cochicha pro Orelana: "Cê fica denegrindo a imagem do Brasil que eles não te deixam voltar!"
Henfil em um de seus instantâneos inspirados - ele que tanto criticava o pessoal do "sul-maravilha". Quem diria que uns trinta anos depois a tirinha ia pular para a realidade...

29 de abr. de 2010

Orelha verde

"[A Biblioteca] compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no centro, cercados por balaustradas baixíssimas. De qualquer hexágono, vêem-se os andares inferiores e superiores: interminavelmente. A distribuição das galerias é invariável. Vinte prateleiras, em cinco longas estantes de cada lado, cobrem todos os lados menos dois; sua altura, que é a dos andares, excede apenas a de um bibliotecário normal. "

"A cada um dos muros de cada hexágono correspondem cinco estantes; cada estante encerra trinta e dois livros de formato uniforme; cada livro é de quatrocentas e dez páginas; cada página, de quarenta linhas; cada linha, de umas oitenta letras de cor preta."

"Essa comprovação permitiu, depois de trezentos anos, formular uma teoria geral da Biblioteca e resolver satisfatoriamente o problema que nenhuma conjectura decifrara: a natureza disforme e caótica de quase todos os livros. Um, que meu pai viu em um hexágono do circuito quinze noventa e quatro, constava das letras M C V perversamente repetidas da primeira linha ate à última. Outro (muito consultado nesta área) é um simples labirinto de letras, mas a página penúltima diz Oh, tempo, tuas pirâmides."

A Biblioteca de Babel

O que Borges faz, em sua biblioteca (que alguns chamam de Universo), é mostrar as infinitas possibilidades da realidade. Os livros são combinações aleatórias de símbolos, o que permite uma extensão interminável mas não infinita (existe uma sugestão óbvia de que existem outras bibliotecas com número maior ou menor de páginas em cada livro, ou com formatos e números diferentes de estantes, ou com mais linhas em cada página, ad infinitum). Seria possível, então, existirem dois livros praticamente iguais, mas em que na linha 8 da página 206 uma palavra teve a letra "b" substituída por "z" - e assim em todas as combinações possíveis. Portanto, se existe um livro para descrever uma realidade no seus mínimos detalhes, existirá então um número infinito de livros que descrevem realidades semelhantes com diferença em alguns ou um detalhe, talvez irrelevante. Posso imaginar uma realidade onde todos têm uma das orelhas verde, e a civilização é em tudo igual à nossa, nos mais ínfimos detalhes. Em outra, isso (a orelha verde) é de conhecimento comum e Vermeer não pintou a "Moça com Brinco de Pérola".

*Em uma terceira, o uso da luz e a transparência dada a essa pintura precipitou o movimento conhecido como imagismo.

Borgianas

Um dos "pecados" de Borges, a meu ver, é sua falta de humor. Ele é talvez sério e autoconsciente demais, embora toda a sua obra seja uma refinada ironia da realidade. Entretanto, essa ironia às vezes ultrapassa a metalinguagem e a metafísica (seria mais correto se se entendesse que essa metafísica se refere a realidades inventadas) e comete construções e descrições deliciosas. O estereótipo perfeito do inglês, abaixo:
"Alguma lembrança limitada e diluída de Herbert Ashe, engenheiro das ferrovias do Sul, persiste no hotel de Adrogué, entre as efusivas madressilvas e no fundo ilusório dos espelhos. Em vida padeceu de irrealidade, como tantos ingleses; morto, não é sequer o fantasma que já era então. Era alto e apático, e a sua canosa barba retangular havia sido ruiva. Creio que era viúvo, sem filhos. De tantos em tantos anos ia a Inglaterra: visitar (julgo eu por umas fotografias que nos mostrou) um relógio de sol e uns carvalhos. O meu pai estreitara com ele (o verbo é excessivo) uma dessas amizades inglesas que começam por excluir as confidências e que muito em breve omitem o diálogo."
Tlön, Uqbar, Orbis Tertius

27 de abr. de 2010

Ezra Pound

Pound foi provavelmente a influência única mais duradoura em meus estudos de literatura. Tanto como guia como adversário: a primeira vez que li a sua concepção de "paideuma" achei de uma arrogância sem limites. O paideuma seria, nas suas palavras, "a ordenação do conhecimento de modo que o próximo homem (ou geração) possa achar, o mais rapidamente possível, a parte viva dele e gastar um mínimo de tempo com itens obsoletos”. E, claro, a "parte viva" era escolhida por ele! Li então de maneira onívora, tudo que achava pela frente. Se tivesse lido só o paideuma poundiano teria sido mais eficiente... o louco estava certo. Suas lições de poética, de literatura, o make it new, a carga de cultura a que a gente aspira para ler os Cantos na sua totalidade... a condensação como virtude necessária, o fazer exato. "O que quero dizer é que um teólogo medieval tinha o cuidado de não definir um cachorro em termos que sei para se aplicar igualmente ao dente do cachorro ou ou ao barulho que ele faz quando bebe água; mas todos os seus professores dirão a vocês que a ciência se desenvolveu mais rapidamente depois que Bacon sugeriu o exame direto dos fenômenos e depois que Galileu e outros cessaram de discutir as coisas em excesso e começaram a olhar realmente para elas e a inventar instrumentos (como o telescópio) para vê-las melhor". O exame direto e comparativo da poesia, da literatura, sem preconceitos. Ressuscitou continentes poéticos como os provençais. Descobriu a poesia chinesa para o ocidente. Vanguarda da vanguarda. "Certa vez", conta Luciano Ancescchi, "apresentaram a Pound um famoso livro de estética filosófica". Ao restituí-lo, o poeta disse no seu italiano peculiar: "Tutto belissimo, ma non fonctiona". Estou traduzindo e legendando um vídeo chamado Ezra Pound - Voices and Visions. A primeira parte abaixo, seguida de alguns trechos do seu ótimo ABC da Literatura:



"Para Pound, o método adequado de estudar literatura é o método dos biologistas: exame cuidadoso e direto da matéria, e contínua COMPARAÇÃO de uma lâmina ou espécime com outra. Este o seu método ideogrâmico (crítica via comparação e tradução). Derivou-o do estudo de Ernest Fenollosa sobre o ideograma chinês (The Chinese Written Character as a Médium for Poetry): "Em contraste com o método da abstração ou de definir as coisas em termos sucessivamente mais e mais genéricos, Fenollosa encarece o método da ciência, "que é o método da poesia", distinto do método da "discussão filosófica", e que é o meio de que se servem os chineses em sua ideografia ou escrita de figuras abreviadas.""
(...)
"Os escritores são por ele classificados nas seguintes categorias: 1 — Inventores. Homens que descobriram um novo processo, ou cuja obra nos dá o primeiro exemplo conhecido de um processo; 2 — Mestres, Homens que combinaram ura certo número de tais processos e que os usaram tão bem ou melhor que os inventores; 3 — Diluidores. Homens que vieram depois das duas primeiras espécies de escritor e não foram capazes de realizar tão bem o trabalho; 4 — Bons escritores sem qualidades salientes (a classe que produz a maior parte do que se escreve). Homens que fazem mais ou menos boa obra em mais ou menos bom estilo do período. Sonetistas do tempo de Dante, etc. "Ils n'existent pas, leur ambiance leur confert une existence."; 5 — Belles Lettres. Os que realmente não inventaram nada, mas se especializaram numa parte particular da arte de escrever 6 — Lançadores de modas. Aqueles cuja onda se mantêm por alguns séculos ou algumas décadas e de repente entra em recesso, deixando as coisas como estavam."
(...)
"Há três modalidades de poesia: 1 — Melopéia. Aquela em que as palavras são impregnadas de uma propriedade musical, (som, ritmo) que orienta o seu significado (Homero, Arnaut Daniel e os provençais). 2 — Fanopéia. Um lance de imagens sobre a imaginação visual (Rihaku, i.é, Li Tai-Po e os chineses atingiram o máximo de fanopéia, devido talvez à natureza do ideograma). 3 — Logopéia. "A dança do intelecto entre as palavras", que trabalha no domínio específico das manifestações verbais e não se pode conter em música ou em plástica (Propércio, Laforgue)."

Talvez sobre Pound pudesse ser dito o que o trovador Giraut de Bornelh disse sobre Raimbaut D'Aurenga: Er'es morta bela foldatz - eis que está morta a bela loucura.

14 de abr. de 2010

Sem choro

         é como se fosse uma guerra
onde o mau cabrito briga
         e o bom cabrito não berra

                                    *Paulo Leminski, Travelling Life

         Death without weeping é um livro da antropóloga Nancy Scheper-Hughes sobre o Nordeste brasileiro. Morte sem chorar, título que vem da tradução de um verso de Disparada, de Geraldo Vandré:

Aprendi a dizer não
Ver a morte sem chorar
E a morte, o destino, tudo
A morte e o destino, tudo
Estava fora do lugar
Eu vivo prá consertar...


         Descobri o livro através do curso Peoples and Cultures of the World, do Prof. Edward Fischer, da Vanderbilt University. O título do livro refere-se à (in)capacidade das mães de expressar dor pela perda de suas crianças - a comunidade onde ela viveu e pesquisou (Alto do Cruzeiro, Timbaúba-PE) tinha uma taxa de mortalidade infantil acima de 50%, fazendo com que a morte das crianças fosse a regra, não a exceção. As mães não mais choravam quando as crianças morriam, numa rotineirização da morte, se desapegando de seus filhos e investindo emocionalmente apenas naquelas que tinham maior chance de sobrevivência ou que atingiam determinada idade. A autora diz que o pensamento corrente de que há uma ligação instantânea entre mãe e criança é uma "crença burguesa" ocidental e está longe de ser um fenômeno universal.
         Tive uma reação forte a essa tese - de um lado a descrição que o Prof. Fischer faz das condições de pobreza da população nordestina em questão foi de um espanto que me espantou: acho que acabamos nos acostumando com as notícias de morte, pobreza e fome em grande parte do país, e ficamos cada dia menos preocupados, porque afinal temos programas de renda mínima, a economia cresce, etc., etc., acabamos nos distanciando e racionalizando esse distanciamento e alheamento em relação ao outro. Ajuda quando o outro está confinado a grotões nordestinos, não é? Aí vem o Prof. Fischer e faz uma descrição espantada de como é morrer de fome - "alguém pode imaginar como é ficar tanto tempo sem comida que o corpo literalmente começa a devorar a si próprio?!", indaga, com espanto. Deve ser realmente difícil para um americano preocupado com as taxas de obesidade da própria sociedade imaginar uma situação dessas. O óbvio horror e espanto na voz do professor trouxe à tona meus próprios espantos e horrores há tanto calados ou adormecidos, me deixando extremamente desconfortável: realmente, na oitava economia do mundo, é um espanto, um horror, uma indignidade, uma desumanidade. Como podemos chegar a um ponto de alheamento com o próximo de que até quando morrem como moscas - e crianças! - não nos indignamos mais?
         A outra parte da reação veio das vantagens (ou, no caso, larga desvantagem) de ter uma memória quase-eidética: lembrei-me de uma reportagem da Veja da minha infância, que me horrorizou na época (consegui resgatar essa reportagem hoje, no acervo digital da Veja). E o que tinha me horrorizado então era exatamente o distanciamento dos pais  - a reportagem era sobre os efeitos da seca nas famílias nordestinas, mais exatamente a mortalidade infantil, que o repórter chama de "genocídio" - a reportagem começa com a frase "Meus filhos são muito morredor". Logo mais, o mesmo pai olha sua filha mais nova e completa: "Essa aí mesmo não sei se vinga". (reportagem completa aqui).
         Achei isso tudo de uma violência inaudita. A pobreza e as condições de vida que forçam mães a se desapegarem de seus filhos, a morte não chorada, o investimento emocional em crianças que podem "vingar" - a antropóloga diz que isso é uma cultura burguesa, o amor materno, etc., mas não acredito inteiramente nisso não. A espécie humana é a de maior tempo de desenvolvimento da cria até a independência total dos filhotes - uma espécie marcadamente seletiva, com características biológicas que impelem as mães à seleção cuidadosa do macho, que é primordialmente monogâmica talvez até para um investimento conjunto no capital genético mútuo do casal (estou extrapolando um tanto do comportamento de gorilas e chimpanzés, além de conhecer muito pouco sobre o assunto)... de qualquer modo, são participantes de uma cultura, religião e sociedade que valorizam esses "instintos", sejam eles culturais, biológicos ou uma sobreposição ou interposição dos dois. Dentro disso, a vida madrasta fazer com que essas mães passem a "guardar o choro", a se desligarem emocionalmente dessa maneira, acho violentíssimo, uma violação completa da dignidade humana. As palavras de Irene Preta, moradora do Alto do Cruzeiro (Timbaúba, PE):

"Não chore pelas crianças que morreram aqui no Alto do Cruzeiro. Não gaste suas lágrimas com elas. Tenha pena de nós, chore pelas mães condenadas a viver".
Em um artigo da UFPE (aqui), a visão é um pouco diferente:
         “Um estudo premiado internacionalmente, realizado pela antropóloga americana Nancy Scheper-Hughes examina as atitudes de moradoras de uma cidade da Zona da Mata Pernambucana diante de altíssimos índices de mortalidade infantil. Muito admirada com o grau de pobreza no local (neste sentido, a visão da antropóloga lembra as comparações dos demógrafos entre continentes para ressaltar a pobreza do Nordeste) ela classifica a convivência com a mortalidade infantil como parte da “violência da vida cotidiana”, e insiste em como ocorre um endurecimento das mães diante de processos de adoecimento e de morte de filhos. Discute o abandono da esperança de sobrevivência de filhos em estados adiantados de desnutrição. Nos enterros, descreve as atitudes estóicas das mães - a pouca demonstração aberta da perda. Não cabe aqui abordar as muitas implicações interpretativas sobre a fome, a valorização da vida humana e sobre os processos de desenvolvimento desigual que este trabalho levanta. Mais uma vez, isto seria alvo de outro estudo fascinante e doloroso.
         O trabalho de Scheper-Hughes ainda suscitou uma resposta de outras antropólogas, mais culturalistas e menos estruturalistas, alegando que o estudo tinha errado o alvo porque a Professora Scheper-Hughes não soube entender os significados de certas crenças sobre as implicações de lamentações muito emotivas com derrame de muitas lágrimas. No artigo chamado “Anjos com asas molhadas não voam” estas antropólogas mostram que, de acordo com a visão nordestina do caminho percorrido por "anjinhos" para chegar no céu, uma lamentação com muitas lágrimas poderia impedir que os bebês que morreram chegassem a alcançar o seu devido lugar no céu. E há diversas outras implicações culturais discutidas.”
         Para mim, essa idéia de que "anjos de asas molhadas não voam" é uma violência ainda maior, uma vez que racionaliza a perda com a perspectiva de ida direta para o céu, desde que a mãe fique de boca calada e olhos secos. Um crime de lesa-humanidade cometido pela sociedade como um todo. Mas o que um estudo de 89 (entre 65 e 89) e uma reportagem de 83 tem a ver com o momento atual? Não estamos surfando a "onda BRIC"? Não temos o bolsa isso e aquilo?
         Pois semana passada a ONU divulgou um estudo em que o Brasil, oitava economia do mundo, aparece novamente como o 75º em desenvolvimento humano. "Os indicadores do Brasil em saneamento básico são, na área urbana, inferiores aos de países como Jamaica, República Dominicana e Territórios Palestinos ocupados". Mais: "O Brasil rural amarga índices africanos. O acesso a saneamento básico adequado é inferior ao registrado entre camponeses de nações imersas em conflitos internos, como Sudão e Afeganistão". E isso numa época de bonança econômica sem precedentes.
         Agora, na próxima vez que Maluf, Arruda & Cia se locupletarem com milhões, no dia em que deputados e senadores aprovarem medidas de "alívio tributário" a gigantes empresariais, ou Lulinha ganhar milhões em uma empresa de jogos por conta do papai, ou José Dirceu "assessorar" uma empresa a comprar cabos a R$ 1,00 e depois vender ao governo por R$ 6.000.000.000,00 - deviam ser todos julgados em Haia, além de condenados a ir em todos os enterros de anjinho do país, compungidos, segurando velas - e chorando! Cada vez que desviam centavos ou milhões ou legislam em causa própria, podiam muito bem cortar os intermediários - fome, miséria e congêneres -, pegar um machado e matarem eles mesmos as criancinhas. E cada um que votar nesse povo pega numa pontinha do machado e na alcinha do caixão. Pronto, desabafei. Ando comunista de tudo esses dias (mas, como dizia Tancredo, pra esquerda eu não vou, não adianta empurrar).


*Alguns capítulos do livro aqui.

* Link para o livro no Google Books aqui.

* Reli e o post tá uns dois tons acima do desejável... tô parecendo um Gustavo Corção de Salinas. Mas vá lá, essa moça e o estudo tiveram um impacto emocional forte em mim.