7 de mar de 2010

O Chefão

Ao ver as manchetes sobre o novo escândalo que "abala os alicerces da república" (os milhões e milhões desviados do Bancoop), devidamente denunciado pela grande mídia golpista, lembrei-me de um trecho de um livreco sobre a máfia que acabou se tornando um dos meus filmes prediletos (toda a trilogia, na verdade)... abaixo, a descrição de uma típica operação da "Família":
"Entre o chefe da Família, Don Corleone, que ditava a política, e o nível operacional de homens que realmente executavam suas ordens, havia três camadas, ou amortecedores. Desse modo, nada podia ser atribuído ao chefe. A menos que o consigliori ["conselheiro", uma espécie de Chefe do Gabinete Civil] se tornasse traidor. Naquela manhã de domingo, Don Corleone deu instruções explícitas sobre o que se devia fazer [...]. Dera tais ordens em particular a Tom Hagen. Mais tarde, no mesmo dia, Hagen, também em particular e sem testemunhas, instruíra Clemenza. Por sua vez, Clemenza dissera a Paulie Gatto para cumprir a missão. Paulie Gatto reuniria agora os homens necessários e executaria as ordens. Paulie Gatto e seus homens ignoravam por que essa determinada tarefa estava sendo executada ou quem a ordenara inicialmente. Cada elo da corrente devia tornar-se traidor, para que Don Corleone fosse envolvido no caso, e embora nunca até então isso tivesse ocorrido, havia sempre essa possibilidade. O remédio para tal possibilidade era também conhecido. Apenas um elo da corrente tinha de desaparecer."
O "desaparecimento" do elo hoje em dia pode ser trocado por "eclipse político", cuidar de fazendas no interior de Goiás, virar consultor, ficar à espreita do esquecimento público e da necessária sanção da justiça - a não condenação significa que a coisa foi bem feita, não que não foi feita. E tem dado certo... Péricles, grande ateniense, há mais de dois mil anos listava "ser incorruptível" entre as premissas de um estadista. Isso já foi esquecido. Millôr acrescentou com propriedade, "não esquecer de corromper a maioria", o que tem sido feito alegremente. No mais, enquanto não há crise econômica, não há culpados. Estamos realmente nos aproximando do Primeiro Mundo...

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