2 de fev de 2010

Fábulas

As fábulas são aventuras da imaginação - normalmente com uma "moral", mas a característica mais importante é que não têm nenhuma obrigação com a realidade. Quando em seu estado puro, são absolutamente inventadas - a imaginação se dobrando sobre si mesma.
Sinto falta dos escritores fabulares na nossa literatura - como era o Rosa, que seus contos eram quase sempre fábulas: o burrinho, o sapo, o marido pródigo, o demônio na rua, no meio do redemunho... Esses grandes escritores sabem muito bem que a realidade só existe (conscientemente) após ser interpretada; aí, invertem a equação e já interpretam sem a existência anterior da coisa concreta, criando suas próprias realidades, e sem nenhuma obrigação ou respeito com qualquer concretude existente.
O Calvino conta uma historinha sobre como se deu seu "início" como escritor - ou de como começou a fazer histórias. Na Itália, meados do século passado, chegavam os quadrinhos americanos e eram redesenhados: não se usava lá, naquele tempo, balões para as falas dos personagens. Os balões eram apagados e inseridos algumas linhas embaixo de cada um. Como o Calvino ainda não sabia ler, ia preenchendo os balões com sua própria imaginação: contava cada vez uma história, inventava um novo acontecimento, um diálogo, um final. Os quadrinhos serviam de gatilho para os vôos da imaginação dele. E o interessante é que, mais velho, descobriu que era exatamente esse o processo de quem escrevia as linhas embaixo dos balões vazios: os balões eram apagados antes de se escreverem a "tradução", então o ilustrador tinha que se virar pra inventar uma história plausível para cada quadrinho, tendo como resultado que a mesma historinha do Mickey, naquela época, era completamente diferente nos EUA e na Itália. O Mickey podia estar  vivendo uma aventura na revistinha americana e um romance na italiana. Calvino acabou usando essas múltiplas possibilidades em um romance magnífico, O Castelo dos Destinos Cruzados.
Aqui no Brasil, com outras ramificações, a história oral vai se "fabulando", e o romance "Carlos Magno e os doze pares de França" chegou a ser tão lido quanto a Bíblia, no nordeste ancestral. Como os alfabetizados eram poucos, e além disso descendentes ou portugueses eles mesmos, aos poucos as histórias foram sendo transformadas e transmitidas pela tradição oral da população geral, e cavaleiros andantes viraram vaqueiros, que salvavam donzelas filhas de senhores de engenho, presas em seus castelos - como se a península ibérica se sobrepusesse ao nordeste, um vestindo o outro com suas características, geografia, castelos, vaqueiros, cavaleiros, donzelas, senhores de engenho... se um cavaleiro andante matava dragões, um vaqueiro podia enfrentar sozinho um marruá, um touro de bravura e selvageria jamais vista na história do homem... e por aí vai. Em uma música, um vaqueiro, nos seus derradeiros dias, conta como sonhava na juventude em arrumar-se todo e "em chegar fazendo ruaça/ trompano a boca da praça/ do Reino de Portugal"... fazer arruaça na boca da praça da cidade fabular que, na sua imaginação, era o Reino de Portugal. Isso já nos anos 70. Eu mesmo, ouvindo uma velha, velhíssima, senhora no meio dos geraes, sertão perdido no tempo-espaço, contar uma história sobre um vaqueiro que tinha ido ao "reino de Portugal", perguntei onde ficava esse lugar, e ela respondeu, sem titubear: "Ihhh, meu filho, é muito longe, é pra lá do São Francisco".

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