30 de set. de 2009

Papiols!

Papiols! À luta! Não tenho vida se não ouço o cruzar de espadas!
Papiols! Todo esse nosso sul fede paz!

.....Essas exclamações guerreiras partem de Bertran de Born, poeta e senhor da guerra. Viveu há mais ou menos seiscentos anos, numa época e região que foram esquecidas pelo tempo. Pound revive esse poeta em seu livro Personae, num magnífico poema que é Sestina: Altaforte. Agora a voz do próprio Bertran, vinda de seis séculos atrás:

.....O dia todo me esfrangalho
.....E esgrimo e resisto e retalho.
.....Movem-me guerra com alarde,
.....Já minha terra toda arde
..........Não há valente nem paspalho
...............Que contra mim, ou cedo ou tarde,
..........Não arremeta o seu chanfalho.

.....Os poetas provençais e suas poesias e canções chegaram até nós pobre e parcamente em forma de poesias de amigo, de escárnio e de maldizer e outras denominações. São ensinadas por alto e porcamente nas escolas a alunos entediados, pois essas canções como as de Bertran não entram no currículo. Entram umas porcarias sem-gracinhas, carolas, bestas, despidas de qualquer interesse pra qualquer pessoa em sã consciência, e ainda mais para estudantes de nossa época.
..... Lembro-me de que a poesia mais "transgressora" que vi quando menino era uma do Bocage, acho que "nariz, nariz, nariz / nariz que nunca se acaba / nariz que se o cálculo não erra / posto entre o céu e a terra / faria um eclipse total", e olha que Bocage é de outro tempo, e mesmo assim essa poesia é, no máximo, engraçadinha. Anos depois, descobri uma do bisavô do Ricardo Coração de Leão, aquele do Robin Hood, que proclamava em alto e bom som:

.....Chamam-me o "mestre sem defeito":
.....Toda mulher com quem me deito
.....Quer amanhã rever meu leito;
.....Neste mister sou tão perfeito,
..........Tenho tal arte,
.....Que tenho pão e pouso feito 
..........Por toda parte!

.....Essa declaração é do surmâle de 900 anos atrás, 7º Conde de Poitiers, 9º Duque da Aquitânia, que foi "um dos maiores galanteadores do mundo e um dos maiores enganadores de mulheres e bom cavaleiro de armas e magnífico na arte de cortejar", segundo sua razo, sua biografia. Me chamou a atenção não pelo sexismo mas por tornar vivas as cores das figuras medievais, pra mim então bidimensionais e chapadas nos livros de história. E, claro, pela força da poesia, que encanta até hoje.
.....Queria poder dar aos estudantes a possibilidade de se encantarem com essas poesias medievais verdadeiras, que têm uma temática às vezes abertamente erótica ou amoral pelos nossos padrões atuais, mas que fazem isso com uma clareza e inocência de arrepiar. E o mais interessante delas não é só a temática, mas a construção de uma poesia quase música, descobrindo formas de relacionamento entre sons e sentidos, os signos em rotação que girariam a roda da arte até nossa própria época.
.....Alguns desses poetas fizeram versos que estão entre os melhores de todos os tempos, mas são excluídos dos currículos pelo mesmo tipo de mentalidade eqüina que substituía os palavrões e obscenidades de Bocage por asteriscos. Um verso como "seu belo corpo aos beijos rindo abra / e que o remire contra a luz do lume" devia figurar entre os exemplos de beleza e concisão pra qualquer pestinha disposto a escrever minimamente bem. E não há estímulo melhor para a poesia e literatura - ou mesmo vida - que sentir a energia pulsante que salta desses poetas, que viviam intensamente, cortejavam, guerreavam, cantavam, bebiam, trepavam - e escreviam magnificamente bem.

* As poesias aqui (exceto as duas primeiras linhas) foram traduzidas por Augusto de Campos. O melhor da poesia provençal pode ser encontrada nos seus livros Mais Provençais e Verso, Reverso e Controverso
.....Cla
.....

29 de set. de 2009

Santa diplomacia, Batman!



As séries e programas antigos de televisão há algum tempo voltaram a ser exibidos com uma aura "cult", agora com adjetivos chiques como "retrô" ou "vintage". E são gostosas de ver, tanto a inocência dos roteiristas, atores, diretores, quanto a inocência que se esperava do público, para que o conjunto funcionasse. Os efeitos especiais são um capítulo à parte, tão toscos que a gente acaba reagindo como em frente a um bebê ou um cachorrinho, com um "que gracinha!". Um dos melhores é o antigo Batman estrelado pelo Adam West: um Batman barrigudo e vestido como menino em festa a fantasia, que na hora da porrada mostra balões (!) escritos, "bum", "paft", "zuum", na tela, hilário. Além dos roteiros pra lá de estrambólicos, mesmo para uma série de super-herói, e um companheiro mais novo que se tornaria moda na época e gozação nas décadas seguintes, pela sugestão de homossexualidade. E ainda por cima, o Robin adorava "santa": era "santa mente criminosa, Batman!", "santa saída secreta, Batman", "santa engenhosidade, Batman" - uma piada pronta.
.....Bom, claro que não é sobre isso que eu queria falar - estou me transformando numa "flor de obsessão", como o Nelson. Essas séries inspiravam as crianças, que imitávamos os HT, os Heróis da TV - eu mesmo já fui Super-Homem, Homem-Aranha, Batman e, pra salvar um pouco a honra da firma, Pirata e Darth Vader. Mas o Lula tá crescidinho demais pra brincar por aí com fantasias infantis, ainda mais as pervertidas pela ideologia. Ao invés da defesa dos fracos e oprimidos, como os antigos heróis vintage, é a defesa do socialismo bolivariano (que aliás não tem nada nem de socialista nem de bolivariano), da permanência eternizada no poder através de reeleições sucessivas num simulacro democrático, dos projetos personalistas de poder a la Fidel. E santa diplomacia, Batman! O Barão do Rio Branco deve estar rolando na cova, pois essa semana foi de lascar: nossa versão latino-americana de Zorro e Tonto apoiaram um egípcio anti-semita, racista e sexista para a Unesco (logo pra onde!), em troca de "simpatia" pelas "demandas brasileiras" como o assento no Conselho de Segurança da ONU, e deram com os burros n'água, que o resto do mundo não acompanhou a sandice e o sujeito perdeu a eleição; Lula elogiou o presidente do Irã após mais uma negativa do Holocausto, sem fazer nenhuma ressalva, o que é uma concordância tácita em qualquer manual tupiniquim de diplomacia; e deixou o Zelaya fazer comícios na embaixada brasileira em Honduras, numa interferência em assuntos internos de outros países que chega a ser inconstitucional, além de estúpido, perigoso e incompetente. Uma coisa é ser contra o golpe, condená-lo, pressionar pela volta do presidente deposto; outra, muito diferente, é tentar enfiá-lo goela abaixo do governo golpista, sendo um país estrangeiro.
.....Em cada uma das festas infantis tem uma criança que chega sem fantasia e logo começa a infernizar os pais até conseguir uma, e aí corre pra voltar e mostrar pros colegas - é minha interpretação do que o Lula está fazendo. Como criança gulosa e sem limites, morrendo de inveja da atenção que o Cháves recebe, comprou sua fantasia e agora está se exibindo por aí... Num dos episódios do Batman com Adam West, ele e Robin se vêem presos num edifício prestes a explodir, com um relógio dando os últimos tiquetaques, Robin com a cara de terror e tal, de repente o Adam West saca um spray e psssss, sai jogando isso nas paredes – logo depois vem a explosão e os dois estão intactos! Adam West olha superior para Robin e solta: “ainda bem que eu me lembrei de trazer o bat-pó-anti-explosão!” A incongruência da solução mata qualquer um de rir. Mais ou menos como Lula e Marco Aurélio Garcia e as suas soluções mágicas para se tornarem atores diplomáticos internacionais. Se você quer atrair atenção numa festa, pode muito bem pular num pé só com um nariz de palhaço ou sair correndo pelado pintado de vermelho. Com certeza vai atrair a atenção do público. E com certeza não será o tipo de atenção que você gostaria. Mais ou menos como o Lula dando espetáculo nos palcos internacionais. Se fosse eu, jogaria um peixe a cada asneira dita, como se faz com as focas.

27 de set. de 2009

Realismo

"Quantas divisões tem o Papa?" Essa pergunta de Stalin sugeria que o Papa podia reclamar o quanto quisesse, que reclamar era tudo que ele podia. "Onde está o testamento de Adão"? Perguntou Francisco I, da França, ao ser informado do Tratado de Tordesilhas, que dividia o mundo entre Portugal e Espanha. "Paris bem vale uma missa", disse Henrique de Navarra, ao abraçar o catolicismo para poder reinar sobre a França. Todos eles de um realismo político que beira o cinismo completo. A melhor, no entanto, é a conversa de Mao com Nixon - este dizia ao colega chinês que era um contrasenso terem armas de destruição em massa capazes de destruir toda a população mundial várias vezes: "Não", retrucou Mao, "meus cientistas dizem que depois de usadas todas as nossas armas, vocês serão varridos do mapa, mas ainda restarão três ou quatro milhões de chineses. É o suficiente pra nós recomeçarmos!" Nixon deve ter engolido em seco diante do lunático à sua frente.
Há uma diferença gritante, claro, entre realismo político e tráfico de influência e poder, troca de cargos, nomeações, apadrinhamentos, aparelhamento, venda de votos, alianças espúrias e coisas mais. Quando disseram que "política é a arte do possível", alguém ia imaginar que o sujeito estava se referindo na verdade à maior corrupção possível, à maior enganação possível, ao maior descaramento possível e por aí vai? Eu esperava que não. Em vão. Esses dias, na Folha, saiu o caso do Edvaldo Nilo, que era prefeito de Antas, na Bahia. No final do madato, resolveu apoiar seu cunhado, que era da oposição e tinha sido seu adversário na eleição anterior. Apesar de estar no palanque, via os correligionários do ex-adversário meterem o pau na "atual administração". E a "atual administração" era ele, Nilo. "Medíocre", "incompetente", eram alguns dos epítetos do "atual prefeito". E o Nilo aplaudindo. Quando perguntado se ele não se sentia ofendido, respondeu: - "Meu rapaz, nem eu lembro em quem votei na eleição passada. Imagine então esse povo aí embaixo!". Enquanto isso e enquanto assim, se perpetuam sarneys e lulas e renans e demais, antas que somos. Quantos neurônios tem o eleitor? Para mudar a atual situação, a memória do nosso eleitorado tem tanto poder de fogo quanto as divisões do Papa.

25 de set. de 2009

Os banhistas de Arcimboldo


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Ali no Rio, aquela mata atlântica próxima às praias dá a impressão de um estouro de banhistas repentinamente transformados em árvores, flores, plantas, cada qual mais multicolorida que a outra, verdes de tons nunca dantes desenhados, parecendo que se acotovelam pra ver quem consegue um lugar ao sol, uma nesga de paisagem. Imaginem um quadro do Arcimboldo, um Arcimboldo alegre, usando todas as cores da paleta para desenhar banhistas e pronto, taí a natureza brasileira. Ou uma página de Ovídio, uma metamorfose coletiva de foliões correndo para o mar. Em uma praia próxima a Parati, certa vez, os verdes e azuis e amarelos e vermelhos estavam tão destacados, eram tantas as árvores e flores, tão próximas à praia, umas meio que penduradas sobre o mar, que a única coisa que pude pensar olhando pra elas foi "estão brigando pelos seus 15 minutos de fama"! Os filósofos europeus como Descartes e Galileu diziam ler o livro da natureza através da linguagem matemática, triângulos, retas... uma natureza que tentavam fazer caber em seus compassos, réguas e papéis:

A filosofia está escrita nesse imenso livro que continuamente se acha aberto diante de nossos olhos (falo do universo), mas não se pode entender se antes não se aprende a compreender a língua, e conhecer os caracteres nos quais está escrito. Ele vem escrito em linguagem matemática e os caracteres são triângulos, círculos e outras figuras geométricas, sem as quais é impossível para os homens entender suas palavras; sem eles é rodar em vão por um labirinto escuro. (Galileu Galilei)

Imagino aqui, cercados por essa exuberância, onde até as cores são despudoradas, se teriam ainda essa leitura tão racional. Não sei qual filósofo ou antropólogo exclamava: "infeliz do país que tem bananas"! Dão o ano inteiro e não precisa plantar, teoricamente liberando os viventes à sua volta para o ócio criativo. Mas acho que nesse caso nossos avós tupiniquins olhavam ao seu redor, olhavam para o céu, e não viam matemáticas, retângulos, hipotenusas: sonhavam fábulas, carnavais, folias.

23 de set. de 2009

Já vi esse filme...


Escrevi sobre a semelhança entre a aliança de Lula com os "trogloditas" e outros com uma cena do filme O Poderoso Chefão III. Hoje veio outra imagem à cabeça: Star Wars! Não os novos episódios, os anteriores, da década de 70. Os Rebeldes lutavam contra o Império, e Luke Skywalker liderava um bando de guerreiros contra as hostes do Mal, o lado negro da Força, representado pelo Darth Vader. Mas agiam como os três patetas! Os Rebeldes iam atacar uma base ultrasecreta escondida em uma floresta num planeta remoto, uma base de um Império ultratecnológico, dotado de todas as armas, soldados, tecnologia, etc., e a tática adotada por Luke é... andar na ponta dos pés! Elementar, meu caro Watson! Devia estar usando o patético como arma de guerra, ou tentando matar o outro lado de tanto rir. Mas, como bom mocinho num bom filme hollywoodiano, ele ganha, derrota o Império, reestabelece a República, etc. Lembra muito o Lula e seus sequazes: colocam dólares nas cuecas, compram dossiês, cometem dezenas de irregularidades, agem como patetas e aloprados, e ainda assim conseguem algum sucesso. No caso do Lula, é o poder do senso prático, acho, que o livra de cair na esparrela completa. Mas que o governo lembra esses filmes B, lembra. Nesse episódio do Zelaya em Honduras, por exemplo, o goveno fez como o Super-Homem faz pra manter a identidade secreta: bota óculos e záz!, vira o Clark Kent, e é impossível, com tal disfarce, identificar qualquer semelhança entre os dois... risível, e o nível de credulidade necessária para se acreditar nessa solução é a mesma que se exige da opinião pública para que acredite que o governo não teve nada a ver com a ida de Zelaya para a embaixada brasileira. Pelo menos chamem o Didi, dos Trapalhões, pra coordenar a coreografia, pô. Deve ter sido por isso o apoio à Lei Geral das Religiões: necessário estimular a credulidade entre a população, senão daqui uns dias a oposição é capaz de desmentir a existência de duendes e seres da floresta, como defendido pelo Minc Leão Dourado.