27 de ago. de 2013

41, - Not Out! - Coletânea (de posts & anos) 

Chegando agora aos 41, queria escrever algo, como estava fazendo nos últimos aniversários, continuando com os post de aniversários que começaram com "36 - Not Out!", algo como: com 36, não fora do jogo!, mas não tive tempo. Mas gostei tanto de escrever os anteriores que resolvi fazer uma coletânea, pois esse caminho de que eles falam continua o mesmo, e só não igual porque melhor. Aí vai:

(Sobre meu aniversário, hoje, 26 de agosto, acompanhado de Michael, João Lua, Max, Iara & outros mais...)

Parodiando o Millôr:

...........................Velhinho bacano
.................Ainda banca
.............................O ser humano


...

Pois, pois, mais um ano: o tempo, esse senhor da razão, tem se esquecido de mim - se o dito comum é que a idade traz sabedoria, eu perdi todos os seminários - e estou cada vez mais desconfiado de que há uma imensa conspiração de velhinhos fazendo um silêncio suspeitíssimo. Dez contra um como é tudo jogo de cena e essa tal de maturidade é invenção. De qualquer modo, não parecia uma coisa divertida; esse negócio de servir de exemplo pra criancinhas deve ser um saco. 
...

Como Borges, quero conhecer todas as maneiras que os homens inventaram de ser homem. No verso de Terêncio: homo sum: humani nihil a me alienum puto. Sou homem: nada do que é humano me é estranho; nem alegrias nem tristezas, nem decepções nem surpresas, e gosto de pensar que ainda estou no início, dezenas e dezenas de anos ainda pela frente, a vela içada, o barco pronto, cada coisa em seu lugar. Metamorfoses: são os ossos do ofídio. Rocinante está mais gordo e já sorri para os moinhos de vento...
A humanidade, essa imensa e caótica coleção de pecados e alegrias, sofrimentos, desilusões e descobertas, parece cada dia mais interessante. Borges dizia que "é um desvario laborioso e empobrecedor o de compor extensos livros, e espraiar em quinhentas páginas uma idéia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento é simular que esses livros já existem e oferecer um resumo, um comentário." Posso imaginar um Quixote lúcido, lucidíssimo, que ao avistar moinhos ainda assim os ataca - sua filosofia é encarnar os ideais da cavalaria, a nobreza e a bondade da alma humana - esse homem cuja vitória seria a vitória do homem procurado por Diógenes, o homem bom que a humanidade pode um dia ser, quem sabe. Sancho descobriria, como testamento desse homem incrível, uma única frase escondida em um pergaminho do seu capacete: "se não conseguir vencê-los, ao menos faça-os rir".

...

Mas tô longe da autocomplacência ou do medo da idade. Ainda exibo todos os sintomas da infância, inclusive um constante maravilhamento com o mundo, o encantamento com as pessoas & coisas e a completa ignorância do funcionamento de uma escada rolante. Algumas coisas passaram com o tempo, como o marxismo, o rock’n’roll, as pernas da Catherine Deneuve e o medo de alma – esse substituído por um salutar medo do que vai na alma das pessoas. Mas ainda tenho a capacidade de indignar-me com o mundo, de sofrer, de rir, de morrer de raiva das injustiças e de acreditar em amor à primeira vista ou mordida. 

...

Então, ano novo pra mim, de armas e bagagens em cima de Rocinante, para as delícias, desafios, travessuras, dores e amores que por aí apontam. Fazer como Sócrates, que, ao ser condenado à morte, faltando cinco minutos para o fim, estava aprendendo a tocar uma ária na flauta: perguntado por um guarda o porquê de aprender aquela ária já que ia morrer em poucos minutos, ele retruca, espantado: “ora, pra saber essa ária antes de morrer!”

...

A todos, que no próximo ano a vida lhes seja leve, e bela. E obrigado por fazê-la assim para mim nesse ano que passou. E mais que todos, sempre, Mari.


1 de jan. de 2013

2013

Ego non fingo hypotheses! (ver aqui)
Essa foi a maneira chique do Newton dizer: não tenho a menor idéia. Idéia com acento mesmo, que sem acento só terei idéias em 2016, que tia Dilma deixou.
Eu também, sobre 2013, fingo non hypotheses - mas acho que vai ser um daqueles paradigmáticos. Turnpoint. Melting pot. Tudo de bom. Nós e Brasília. O céu do cerrado e suas flores. E pra não deixar de ser repetitivo, um poema que eu repito há uns 10 anos, acho:


Promessas para o Ano

No ano que vem
vou fazer um check-up,
reformar os meus ternos,
vou trocar os meus móveis,
viajar no inverno,
como convém.

No ano que vem
vou me fantasiar,
desfilar na avenida,
decorar samba enredo,
vou mudar minha vida,
como convém.

No ano que vem
faço vestibular,
vou tocar clarineta,
aprender dançar valsa,
fox-trot ou salsa,
como convém.

E vou me converter
no ano que vem,
registrar a escritura,
vou pagar a promessa
e andar mais depressa.
Como convém.

No ano que vem
vou tratar dos meus dentes,
visitar uns parentes,
vou limpar o porão,
vou casar na igreja,
como convém.

No ano que vem
vou soltar busca-pé,
empinar papagaio,
vou comer manga-espada
e sentar na calçada,
até.

No ano que vem
vou pagar minhas dívidas,
apagar minhas dúvidas
e trocar o meu carro
e largar o cigarro.
Como convém.

No ano que vem
vou fazer um regime,
e vou mudar de time,
viajar para a França
e estudar esperanto.
Como convém.

Vou plantar uma rosa
no ano que vem
e escrever um romance
e fazer exercício,
desde o início,
como convém.

E entrar pra política
e me candidatar,
no ano que vem,
fazer revolução,
lutar na Nicaragua,
por que não?

E fazer uma plástica,
no ano que vem
e ficar destemido,
decorar um poema
e escrever pra você,
como convém.

Se não der certo, no entanto,
neste ano que vem,
vou deixar de cobrança
do que fiz ou não fiz.

Neste ano que vem
quero, como convém,
ser, apenas, feliz.

* Poema de Sérgio Antunes

12 de set. de 2011

Adorno

A forma do ensaio preserva o comportamento de alguém que começa a estudar filosofia e já possui, de algum modo, uma idéia do que o espera. Ele raramente iniciará seus estudos com a leitura dos autores mais simples, cujo common sense costuma patinar na superfície dos problemas onde deveria se deter; em vez disso, irá preferir o confronto com autores supostamente mais difíceis, que projetam retrospectivamente sua luz sobre o simples, iluminando-o como uma “posição do pensamento em relação à objetividade”. A ingenuidade do estudante que não se contenta senão com o difícil e o formidável é mais sábia do que o pedantismo maduro, cujo dedo em riste adverte o pensamento de que seria melhor entender o mais simples antes de ousar enfrentar o mais complexo, a única coisa que o atrai.

 

O ensaio como forma – Theodor Adorno

 

13 de jul. de 2011

Traduções comezinhas

Hic et nunc - ali, na lata.

12 de jul. de 2011

Borges Al-Andaluz

Semana passada, tive a grata satisfação de assistir a um debate com o Guará – Guaracy Araújo, e reencontrá-lo, aqui em Brasília. Ainda não me acostumei com a cidade, mas o CCBB – Centro Cultural Banco do Brasil certamente figura entre os lugares preferidos daqui. A ocasião foi uma mostra de filmes árabes, o mesmo evento ocorrendo também em BH. Em determinado momento, Guará falava sobre a (im)propriedade de se falar de um cinema árabe, assim como a generalização "cinema sul americano" pode parecer inapropriada pra gente, dadas as diferenças gigantescas entre os cinemas, por exemplo, argentino, brasileiro e mexicano. E sobre a percepção do outro, do árabe e no árabe, o desconhecimento, a aproximação via cinema – enfim, mundos se (re)conhecendo.

 

Lembrei-me que, por coincidência, há quase um ano atrás, acho, escrevi o último post desse blog justamente sobre o Islã. O assunto interessa-me por vários motivos – a ascendência e influência do mundo árabe sobre o mundo ibérico – e conseqüentemente a nossa "herança árabe", por assim dizer; o colapso final do império Romano, também sofrendo grande influência árabe; a incrível espiral civilizatória e decadência idem dessa civilização nos campos da ciência e das artes... enfim, é mesmerizante ver como os graves sábios árabes do Al-Andaluz decaíram para os intransigentes mulás fundamentalistas de boa parte do empobrecido mundo árabe de hoje.

 

O post anterior e a fala do Guará me remeteram, entretanto, para o mesmo "lugar literário": um conto do Borges chamado "A procura de Averróis". É interessante ver as inúmeras camadas de significado repousando sobre os inúmeros "desconhecimentos" do outro – a otredad de Octávio Paz – tanto no conto como no fazer do conto. Borges, argentino, representa como nenhum outro a tradição ocidental. Entretanto, esse mesmo "ocidente" nos trata – brasileiros, argentinos, enfim, o hemisfério sul inteiro – como outsiders. Basta ver as manchetes sobre a Petrobrás ou a Vale, sobre como as empresas "não-ocidentais" estão crescendo, etc. Nos alinham com os BRICs não só por emergentes, mas também por estrangeiros ao mundo-branco-civilizado.

 

Bão, no conto, Averróis, ou melhor, Abulgualid Muhammad Ibn-Ahmad ibn-Muhámmad ibn-Rushd, está traduzindo Aristóteles. E embatuca em duas palavras, dois conceitos: tragédia e comédia.  Aliás, o próprio conceito de teatro lhe era estranho. O texto de Borges, desnecessário para o post, mas é uma compulsão transcrevê-lo:

 

A pena corria sobre a folha, os argumentos se enlaçavam, irrefutáveis, mas uma leve preocupação empanou a felicidade de Averróis. Não a causava o Tahafut, trabalho fortuito, mas um problema de índole filológica vinculado à obra monumental que o justificaria ante os povos: o comentário sobre Aristóteles. Esse grego, manancial de toda a filosofia, fora outorgado aos homens para ensinar-lhes tudo o que se pode saber; interpretar seus livros como os ulemás interpretam o Alcorão era o árduo propósito de Averróis. Poucas coisas mais belas e mais patéticas registrará a história além dessa consagração de um médico árabe aos pensamentos de um homem de quem o separavam catorze séculos; às dificuldades intrínsecas devemos acrescentar que Averróis, ignorando o siríaco e o grego, trabalhava sobre a tradução de uma tradução. Na véspera, duas palavras duvidosas o detiveram no princípio da Poética. Essas palavras eram tragédia e comédia. Encontrara-as anos atrás no livro terceiro da Retórica; ninguém, no âmbito do Islã, atinava com o que queriam dizer. Inutilmente fatigara-se nas páginas de Alexandre de Afrodísia, inutilmente compulsara as versões do nestoriano Hun ain ibn-Ishaq e de Abu-Bashar Mata. Essas duas palavras arcanas pululavam no texto da Poética; impossível evitá-las.

 

            Eis que chega um mercador que esteve na China, e viu lá uma apresentação de teatro; entretanto, como não tinha referências a quê compará-lo, desentendeu o teatro e seus conceitos:

 

– Uma tarde, os mercadores muçulmanos de Sin Kalan me conduziram a uma casa de madeira pintada, na qual viviam muitas pessoas. Não se pode contar como era essa casa, que mais parecia um único quarto, com filas de armários ou sacadas, umas sobre as outras. Nessas cavidades havia gente que comia e bebia, e também no chão, e também num terraço. As pessoas desse terraço tocavam tambor e alaúde, salvo umas quinze ou vinte (com máscaras vermelhas) que rezavam, cantavam e dialogavam. Estavam presas, e ninguém via o cárcere; cavalgavam, mas não se percebia o cavalo; combatiam, mas as espadas eram de cana; morriam e logo estavam de pé.

 

– Os atos dos loucos – disse Farach – excedem às previsões do homem sensato.

 

– Não estavam loucos – teve de explicar Abulcásim. – Estavam figurando, disse-me um mercador, uma história.

Ninguém compreendeu, ninguém pareceu querer compreender. Abulcásim, confuso, passou da escutada narração às desajeitadas razões. Falou, ajudando-se com as mãos:

 

– Imaginemos que alguém mostre uma história, em vez de contá-la. Seja essa história a dos adormecidos de Éfeso. Vemos retirarem-se para a caverna, vemos orarem e dormirem, vemos dormirem com os olhos abertos, vemos crescerem enquanto dormem, vemos despertarem depois de trezentos e nove anos, vemos entregarem ao vendedor uma antiga moeda, vemos despertarem no paraíso, vemos despertarem com o cão. Algo semelhante nos mostraram àquela tarde as pessoas do terraço.

 

– Essas pessoas falavam? – perguntou Farach.

 

– Claro que falavam – disse Abulcásim, convertido em apologista de uma cena que mal recordava e que o enfadara bastante. – Falavam e cantavam e peroravam!

 

– Nesse caso – disse Farach – não eram necessárias vinte pessoas. Um só narrador pode contar qualquer coisa, por complexa que seja.

 

O texto de Borges brinca com a coincidência, pois mesmo posto frente à solução do enigma – o teatro e as tragédias e comédias que ali seriam representados – Averróis não compreende o sentido ou a resposta contida nos estranhos hábitos chineses.

 

É o conto de um argentino, mal compreendido cidadão não-ocidental, sobre árabes que não compreendem os conceitos gregos, mesmo expressos em chinês. Uma dança do mútuo desconhecimento, da outridade partida ou nunca inteira, ao mesmo tempo que expressa a universalidade dos conceitos - ou o teatro greco-chinês ou a vontade do saber argentino-andaluz. Uma humanidade partida e desgarrada de si mesma, desconhecendo-se mesmo quando em frente aos espelhos de que Borges gostava tanto. A humanidade encerra em si sertões e labirintos – sábios de Cordisburgo e Buenos Aires o confirmam.